Criação. 22 MAR 2021

«Devemos lembrar o papel das éguas, mães, no desenvolvimento do PSL»

Confira o depoimento de José Coimbra de Castro Canelas, Criador, Engenheiro Zootécnico, Juiz internacional (FEI) de Atrelagem e Director da Feira Nacional do Cavalo, no âmbito do desafio lançado por Bruno Caseirão com o tema "Cavalo Lusitano: o que preservar, modificar e inovar?".


Tempo de Leitura: 6 Min

José Castro Canelas

«Convida-me o Bruno Caseirão a dar a minha opinião sobre esta tripla questão, o que é importante Preservar, o que podemos Modificar e o que é possível Inovar no Cavalo Lusitano, fazendo-nos reflectir sobre o que é alcançável nesta trilogia, sem adulterar a nossa raça.

Desde tempos imemoriais que o Cavalo, actualmente denominado Lusitano, parece ter as principais características que chegaram aos nossos dias. Cavalo de Sela, por excelência, foi sendo seleccionado desenvolvendo assim as suas qualidades pela sua utilização em combate na Ibéria e, concomitantemente, na melhor forma de treino para esta actividade necessária, através do toureio e posteriormente da equitação clássica.

Ao longo de séculos desenvolveu a sua versatilidade, finura, agilidade, flexibilidade e poder de reunião, mantendo o ritmo e a sua disponibilidade e capacidade de antecipar o cavaleiro, através da cumplicidade adquirida pelo trabalho.

Sendo uma raça com uma população relativamente pequena tem, no seu seio, uma variabilidade genética que permitiu ir evoluindo dentro da mesma.

Há a tendência de se privilegiar determinadas linhas em detrimento de outras. Algumas, de capital importância para esta diversificação positiva da raça, têm sido reduzidas e até desaparecido.

Devemos lembrar o papel das éguas, das mães, no desenvolvimento do Lusitano. Hoje, a facilidade de utilizar intensivamente cavalos da “moda”, que obtiveram excelentes resultados, poderá vir a ter influência na redução dessa variabilidade. No entanto, não nos devemos esquecer que podemos utilizar o melhor cavalo, mais pontuado e com melhores classificações desportivas, mas se a mãe for uma burra nascerá sempre uma mula. Deveremos, pois, ir melhorando as nossas éguas, através da análise da sua descendência e seus resultados, de forma objectiva e progressiva e, simultaneamente, ir tentando corrigir os seus defeitos através de cavalos que os não tenham e sejam melhoradores.

Como cavalo eclético que é, a sua utilização com bons resultados, também é diversificada. Sabemos ser impossível que os poldros que nascem anualmente, numa coudelaria, sejam todos “cracks”. Muitas vezes passam-se anos em que não há um poldro que se distinga pela sua excelência, apesar dos esforços de emparelhamento que possam ser feitos. Como criadores tentamos produzir, através do gosto pessoal de cada um e das possibilidades disponíveis, cavalos que nos agradem, mas cujo objectivo final é geralmente a venda. Será importante não esquecer ou menosprezar as várias possibilidades de utilização onde poderão mostrar resultados dentro das suas capacidades. Quando surge esse cavalo, que se distingue dos outros, há que ter a vontade e disponibilidade de o fazer chegar ao cavaleiro que o possa destacar.

Sem dúvida que a utilização para Lazer, para toureio, para a equitação de trabalho e cada vez mais para o ensino, com a evolução e expansão da raça a nível internacional, são as vertentes onde o Lusitano obtém mais êxito e destaque e é mais apetecido e, simultaneamente o exaltam, sendo mais gratificante para o seu criador e para o seu cavaleiro e/ou proprietário.

O Cavalo Lusitano evoluiu muitíssimo nas últimas décadas, fruto inicialmente de uma melhoria alimentar e cuidados higiossanitários, associados a um maior interesse e atenção na selecção, melhorando progressivamente as suas qualidades e contrariando as suas debilidades.

É importante preservar o Padrão da Raça, bem definido há muito, que deve ser defendido e mantido, não só a beleza e equilíbrio do seu fenótipo, mas, também, as características do seu genótipo, intrínsecas do cavalo Lusitano, que todos conhecemos e que o tornam único.

Não havendo muito a modificar podemos tentar melhorar, pela selecção, algumas características físicas onde o cavalo Lusitano pode ser melhorado, reforçando a sua estrutura, sem sair do padrão, através de uma evolução positiva dos seus membros, a nível de massas musculares, articulações e cascos, e também do seu dorso e garupa. Melhorar os andamentos e a sua amplitude são também desejáveis, sem descurar ou perder o que já é característico da raça.

Creio que é possível inovar, através da Associação responsável – a APSL, fazendo uso das modernas ferramentas e grelhas que permitem a melhor e mais objectiva análise, com métodos e resultados mais claros, nas diversas formas de preparação e avaliação dos cavalos, nas suas várias vertentes de utilização. Análise essa que, ao fornecer informações válidas, poderão tornar-se em mais-valias para os criadores e utilizadores e que se poderão reflectir na evolução da criação.

Pode-se, pois, inovar e modificar, preservando tudo o que já foi bem alcançado, nesta nossa raça tão específica e única – o Lusitano.»

José de Castro Canelas

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