Entrevista. 21 JAN 2021

O Homem, a obra e a sua terra: José Veiga Maltez, o Médico-Autarca

Falar da Golegã é falar de José Veiga Maltez. Com ligações familiares ancestrais à terra, é uma figura emblemática da história do município, do qual já foi e voltou a ser autarca. Homem de cavalos, na sua verdadeira essência, no seu seio nasceu, das suas tradições bebeu e é o seu ar que respira.


Tempo de Leitura: 18 Min

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Quinta do Salvador. Este é o cenário desta entrevista, o mesmo que viu o jovem José dar os primeiros passos, as primeiras quedas, as primeiras voltas a cavalo (ou de garrano, como veremos mais à frente).
Homem de personalidade e ideais fortes, ao conhecê-lo é impossível ficar-lhe indiferente. Talvez por consequência do seu carácter, é também um homem de paixões. O cavalo está no topo delas e associado a quase todos os cargos que ocupa. Mas como um diamante, também Veiga Maltez tem muitas faces, algumas talvez não tão conhecidas do público em geral, habituado a vê-lo durante a Feira da Golegã a distribuir sorrisos e acenos. Casado, pai de dois filhos e já avô, a EQUITAÇÃO conversou com José Tavares Veiga Silva Maltez, numa entrevista intimista, onde é abordado o passado, presente e futuro.

EQUITAÇÃO - É Presidente da Câmara Municipal da Golegã, da Feira Nacional do Cavalo (por inerência de cargo), da Associação Portuguesa de Criadores de Raças Selectas (APCRS) e da Associação Nacional de Turismo Equestre, sendo que também desempenhou funções de Assistente da Cadeira de Geriatria da Faculdade de Medicina de Lisboa. Este é José Veiga Maltez, a figura pública. Mas quem é José Veiga Maltez, o Homem?
JOSÉ VEIGA MALTEZ - Como qualquer Homem, é fruto das circunstâncias e de ser o que os outros o deixam ser! Não é Político, mas sim, Médico-Autarca e que prefere que sejam os outros a defini-lo, do que falar de si próprio, já que não tem falsa humildade, nem falsa modéstia, quando os lê ou os ouve!

Nasceu entre os cavalos, no seio de uma família de grande tradição equestre e de uma Coudelaria ancestral. Ainda se recorda das primeiras vezes que montou e do que este animal lhe transmitia?
Recordo-me muito bem! Num garrano, que tinha o nome de “Garoto”, o qual comecei a montar com 3 ou 4 anos, tendo essa vivência me mostrado que, para uma criança, será sempre melhor um cavalo velho ou de confiança, do que um pónei ou um garrano. Mais tarde, com 10 anos foi-me “atribuída” uma égua, a “Salgadeira”, cujo nome se devia ao ter nascido nos Salgados, em Vila Franca de Xira onde, as éguas Veiga pastavam, sazonalmente, em tempo de “transumância”.

Com quem aprendeu equitação e quais as suas referências em termos equestres?
Com algum autodidatismo, mas sobretudo “ensinado” pelos da Casa e a ver como se fazia. O meu Pai, durante uns tempos, enviou um cavalo para a Póvoa de Santo Adrião, para o Picadeiro de Mestre Nuno Oliveira, para que pudesse aprender algo de jeito. Penso que não foi o momento certo, nem a idade certa. Com nove anos, pouco absorvi e não poderia compreender a “arte”, nem os conhecimentos do grande Mestre! Na verdade, há um atavismo, que é a propriedade que têm os seres vivos, de transmitirem caracteres seus aos descendentes, com um intervalo de uma ou mais gerações, sendo a vulgar semelhança com os Avós ou com os Tios. Comigo não foi só, a predisposição e o “jeito” para montar a cavalo, mas, também noutras funções. E entre elas, também o atavismo familiar, pelo meu Bisavô, Manuel Tavares Veiga, que criou os célebres “Veiga”, ter sido o primeiro Presidente da Câmara Municipal da Golegã, da I República, em 1910, assim como, o meu Tio materno, Carlos Veiga, que foi o último Presidente da Câmara da Golegã, da II República, em 1974, e na III República, a partir de 1998, têlos secundado no mesmo cargo, como Edil da Golegã.

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Continua a montar com a regularidade que gostava?
A regularidade com que monto é totalmente irregular! É quando me apetece, quando sinto essa vontade, mas, sobretudo, por prazer, por lazer, aquando do convívio e da confraternização com outros, seja num passeio marcado, numa Romaria ou numa Feira!

Conte-nos um pouco da origem e da história da Coudelaria Veiga Maltez.
A origem e a história da Coudelaria Veiga Maltez confunde-se com a da Coudelaria Veiga, já que foi uma parte dessa Éguada, que o meu irmão e eu recebemos, por via do nosso TioAvó João Veiga, que a havia legado a sua Sobrinha, Maria Mercedes Tavares Veiga Maltez, nossa Mãe, por herança de seu Pai, o Eng. Manuel Tavares Veiga.

Herdou linhas ancestrais, isso tem sido uma vantagem ou uma limitação no actual desenvolvimento da Coudelaria?
Felizmente, herdámos uma linhagem antiga, que é o pilar e a base da nossa Coudelaria. Tem sido uma vantagem porque sem uma boa base é sempre mais difícil seleccionar e criar cavalos bons. Temos o caminho facilitado, porque já fazem parte da nossa base, características morfológicas e funcionais boas, que apenas temos de desenvolver e melhorar no sentido do cavalo, que pretendemos criar. Por outro lado, poderemos considerar alguma limitação, apenas pelo tempo que demora, abrindo um pouco a outras linhagens dentro do Lusitano, mas utilizando sempre como mães, as éguas, fruto da nossa base inicial. Uma das maiores provas da consistência da base de uma coudelaria, como a nossa, é quando ao mesmo grupo de éguas largamos três cavalos diferentes e não conseguimos "distinguir" nos poldros nascidos, qual o padreador.

O que deve ter um Lusitano para ser o tal cavalo de sonho que todos os criadores desejam?
Respeitando o Padrão da Raça, pelo qual se rege a nossa Associação, cada criador é livre de sonhar com o cavalo que gosta de criar. Assim, o cavalo dos meus sonhos, além de “corajoso” e dócil, será um cavalo, com um certo tamanho, uma frente leve, boa cara, pescoço fi no, orelha pequena, bom dorso, boa ligação de rins, boa garupa, curvilhões baixos e com membros fortes.

Temos vindo a assistir a cada vez melhores performances e resultados de Lusitanos nos mais importantes concursos de Dressage internacionais. Ainda assim, alguns defendem que o futuro do Lusitano na alta competição passará por uma maior abertura do livro genealógico. Sendo criador de Lusitanos, mas também Presidente da APCRS, qual a sua opinião sobre o assunto?
veiga_maltez_BARBARAMCOSTA04A abertura que refere do Livro Genealógico do Puro Sangue Lusitano, é algo que exige um grande cuidado, que tem de ser muito bem ponderado, equacionado e analisado, pelos responsáveis e associados da Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano (APSL). Não se deve desvirtuar o que actualmente denominamos de Puro Sangue Lusitano, mas nele “investir”! Paralelamente, com ele, deve coexistir, para certos objectivos e vontades, o Cavalo Português de Desporto, PSH (Portuguese Sport Horse), entre o qual, se encontra o “Luso Sport”, denominação aprovada pela APCRS para os produtos, a partir de uma determinada percentagem de sangue Lusitano.

Na sua opinião, que consequências pode a Covid-19 ter na criação nacional, em geral?
As consequências, quer directas ou indirectas são óbvias, já que as fronteiras encerraram não permitindo o afluxo de estrangeiros, com grande paixão pelo Lusitano, assim como, as vicissitudes e agruras, com que os Criadores, dentro do país, se confrontam e irão enfrentar. 

Falamos de criação e da evolução dos cavalos, mas quanto ao nível da equitação praticada pelos nossos cavaleiros - e não falo só dos “profissionais” também me refiro aos chamados “pica-pica” - montamos hoje melhor, com mais qualidade e noções equestres, do que no passado?
Sem dúvida nenhuma! Sobretudo, imensa quantidade!! O aumento da qualidade, deve-se a uma questão de melhoria “educultural”, que era necessária e desejável!!! Não foi por qualquer razão, que como Autarca da Capital do Cavalo, instituí a Equitação,  como Actividade de Enriquecimento Curricular (AEC), para todos os alunos das escolas do concelho da Golegã. Porque as “bases” são importantíssimas e a Equitação começa pela vertente didáctico-pedagógica, sobretudo num país, em que aquela integra a sua identidade e cultura, devendo por tal, ser promovida e desenvolvida.

É também autor de diversas publicações. Escrever é outra das suas paixões?
É na verdade uma paixão imensa, além da pintura, com a qual, noutros tempos mais tempo lhe dispensava. Ambas, tão só necessitam que usemos os sentidos, como a fotografi a, que muito ensaio. Todas requerem observação do que existe à nossa volta! Para “escrever” também, é preciso “olhar”! Olhar comportamentos, olhar detalhes. E não é difícil ser atento, num mundo de muitos desatentos! Umas vezes, olho para dentro, mergulho em mim mesmo, reflectindo, outras, inspiro-me nos outros, nomeadamente, no que dizem, no que falam, no que resmungam, no que gritam ou sussurram!

Que outras actividades gosta de praticar? Com tantos cargos, sobra tempo para as executar…?
Entre outras, como é do conhecimento geral, sou “Motard” atravessando fronteiras, com a minha Yamaha 600 Diversion. Como todos devem inferir, há um sentimento, o qual não tenho, que é aquela sensação de vazio e isolamento, a que chamam de solidão, já que o meu dia-a-dia é quase frenético, pleno de pessoas à minha volta e de assuntos para tratar, para resolver. Daí, necessitar de um ou outro momento a sós, comigo próprio, enfi m, solitário, esquivando-me, isolando-me, sendo a minha “duas rodas” ideal, para ser um “eremita” do séc. XXI, muito transitório e temporário, restaurando-me psíquico-fi sicamente, para as novas “batalhas”!

Sabemos também que é um exímio bailarino. A que música não resiste…?
Dizem! Na maioria das vezes, é tão só uma forma de expressar o meu estado de espírito, em termos de lazer e de prazer. Para dançar é preciso sentir, mexer o corpo com uma cadência de movimentos e ritmos, criando uma harmonia. É uma manifestação artística de igual modo, que a escrita e a pintura, só que nela utilizamos o corpo, como instrumento criativo. Há vários tipos de música, que me são mais agradáveis para dançar ou “bailar”, mas com alguma facilidade me adapto ao ritmo e à coreografia, que cada uma exige!

Qual o seu lema de vida?
Sinceramente, não tenho “lema”, tão só a intensidade que imprimo à minha vida, já que muitos se limitam a “existirem”, não a vivendo. Vivo ouvindo a voz da minha consciência, ensaiando ser independente da opinião dos outros, apesar de tentar ser consensual, convergente e pelo equilíbrio, harmonia. Quem me conhece e me rodeia, conhece bem a minha liberdade de agir, assim como, de expressar aquilo que sinto, mesmo que me traga dissabores.

Licenciou-se em Medicina e exerceu durante muitos anos. E, tanto quanto julgo saber, alguns dos seus pacientes não gostaram nada de o perder como médico. Houve um momento em que sentiu uma espécie de apelo para dar o seu contributo à terra que o viu nascer? Foi isso que o levou a entrar na vida política?
Sobretudo, o que me levou a entrar na vida autárquica, foi a percepção que tinha da Golegã, Concelho, em 1997, se demarcar dos outros, mas pela negativa, com um então presente cinzento e um futuro pouco colorido, mostrando aos cidadãos, naquele ano em que me candidatei, a necessidade de uma disposição reformista, para combater o “status quo” da terra dos meus bisavós, dos meus avós, dos meus pais e aonde os meus fi lhos cresciam. Na verdade, ser Médico e Presidente de Câmara são cargos e funções com alguma afi nidade. Ambos, lidam com as agruras e os factos negativos das pessoas. Geralmente, ninguém vai ao consultório para dizer que está bem, assim como, não vão ao Gabinete do Presidente da Câmara, referir que está tudo óptimo!

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A Feira do Cavalo é uma feira conhecida em todo o mundo, que atrai milhares de visitantes. Contudo, quem a visita em Novembro e se decide regressar em Maio para a Expoégua, encontra uma feira menos popular. Sendo o “pai” da Expoégua e estando esta a caminho da 22.ª edição (o que não aconteceu este ano devido à Covid-19), considera que a feira de Maio já atingiu o seu ponto máximo em termos organizativos e programáticos ou ainda há um caminho a percorrer, e se sim, o que tem em mente?

A Expoégua nasceu, cresceu e atingiu a sua maturidade, ao fim de duas décadas, cumprindo o seu objectivo! Conseguimos o que desejávamos, incitando a deferência dos criadores, pelas mães do efectivo equino de todas as raças, criadas em Portugal, os quais reconheceram este evento, que será sempre melhorado e actualizado, como o ideal e o mais nobre espaço, para as apresentar, as exaltar, para as premiar e para as elevar!

Há dois temas que são assunto recorrente pelo S. Martinho, reporto-me ao traje com que se apresentam os cavaleiros na feira e ao bem-estar do nobre animal. É possível implementar mais medidas não só para fomentar o uso do Traje Português de Equitação que de facto conferem uma singularidade ao certame e, por outro, prosseguir na adopção de mais decisões que visem o bem-estar do cavalo?

Como é do conhecimento geral, temos vindo a implementar defi nições e critérios para o período da Feira, que cada vez mais visam o bem-estar animal, quer com a criação de uma Comissão própria, que retira do Recinto da Feira e de outros espaços públicos, equinos que apresentem sinais clínicos de “sofrimento”, quer com a restrição horária de circulação de animais e veículos de tracção animal, entre as duas e as sete da manhã. Foram decisões bem conseguidas e desejáveis, no sentido da prevenção do mal-estar animal. Quanto ao Traje, a tradição da Feira de São Martinho é a de uma Feira Franca, a que todos acorriam, acontecendo no séc. XX, uma maior exigência na Apresentação e Concursos, de um Traje condigno. Penso, que é um desrespeito a forma e o modo como muitos se apresentam e fazem arrear os seus cavalos. Prefiro interpretá-la como uma questão educacional e cultural. Conseguimos já, que só as pessoas trajadas correctamente, tenham acesso ao Picadeiro Central, que é onde se focam os principais olhares e apreciações. Progressivamente, tentaremos que na Manga aconteça o mesmo. Trajarem bem, correctamente e se à Portuguesa, ainda melhor!

Não querendo ser o arauto dos seus feitos, mas é graças ao seu trabalho que a Golegã passou a ser reconhecida como a Capital do Cavalo, encontrando-se dotada de infraestruturas que fazem jus ao nome (Picadeiro Público Coberto, Centro de Alto Rendimento de Portugal para Desportos Equestres, Equuspolis…). Como aliás já referiu, a Equitação foi introduzida como complemento curricular das Escolas do Concelho da Golegã. Como gostava de ser recordado no futuro?
Tão só, como alguém que contribuiu para pôr a Golegã, no “mapa” a nível nacional e internacional, devolvendo-lhe a sua memória, a sua história, ao mesmo tempo, que lhe foi promovendo a qualidade de vida, exigida pelo séc. XXI, numa simbiose, entre a sua identidade cultural e a modernidade, desvanecendo a Golegã “velha”, preservando a “antiga” e construindo a “nova”, usando o que foi transmitido de geração em geração, para estímulo do presente e referência para o futuro!

 

Entrevista na integra publicada na Revista Equitação n.º 143 (Jullho/Agosto de 2020).

Fotos: Bárbara M. da Costa/Equestrez

Autor:

Ana Filipe

anafilipe@invesporte.pt

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