Criação. 25 NOV 2020

A forma segue a função

Confira o depoimento de Miguel Ralão Duarte, cavaleiro olímpico, treinador e juiz de Ensino, no âmbito do desafio lançado por Bruno Caseirão com o tema "Cavalo Lusitano: o que preservar, modificar e inovar?".


Tempo de Leitura: 7 Min

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(c) ABRFotografia

«Ao longo dos tempos o Cavalo Lusitano tem sido reconhecido, sob o ponto de vista funcional, pela sua agilidade, montabilidade e nobreza de carácter, entre outras características, que o tornou montada de eleição para guerras, paradas, toureio e tantas outras utilizações tão eloquentemente descritas por quem mais conhecimentos dessas matérias terá.

Essas utilizações exigiam que o peso do cavalo e cavaleiro não estivesse muito tempo em cima das suas articulações e que a sua estrutura muscular fosse essencialmente rápida, tendo na sua constituição mais fibras de contração rápida que as de contração lenta, mas não muito exigente em termos de força (capacidade de carga). Também em termos de conformação a forma natural como usam o antemão de forma erguida, o dorso curto e os membros secos e com grande capacidade de flexão, ajudam nesse tipo de utilização.

A evolução da forma como a sociedade moderna utiliza o cavalo tem vindo cada vez mais no sentido da aproximação entre as várias raças, quando, claro está, há ambição de ascender a palcos de maior visibilidade, bem como, naturalmente, de valores de transação mais avolumados. 

Sempre ouvi dizer que uma diferença essencial entre os nossos cavalos e os cavalos do norte da Europa, ou como o arquiteto Arsénio Cordeiro dizia, os habitualmente  chamados warmbloods, era que os nossos, quando excitados ou em resistência, faziam piaffer e galope no mesmo terreno (se reuniam) e os outros, na mesma situação, se punham de pé ou fugiam (alongando o corpo). Ora, hoje, isto já não é a realidade, pois já é bastante comum os warmbloods, que fazem piaffer e galope no mesmo terreno como resistência, ou seja, por uma reacção natural, se reúnem. 

Como resultado a equitação praticada no norte e no sul da Europa também se tem aproximado – sendo que esta é uma evolução influenciada directamente pelo tipo de cavalo que montamos.

Ultimamente, tem ficado claro que o nosso cavalo pode ter um papel importante no que respeita ao Ensino, sem perder as suas características essenciais, continuando a ser a montada de excelência para tantos cavaleiros, com diferentes objectivos, que não o grande palco internacional.

No meu entender o cavalo completo, para a utilização no Ensino, e não só de competição, é aquele que tem a capacidade de reunião e extensão, por forma a poder ter o máximo de variações dentro de cada andamento sem perda de ritmo. Esta última pequena referência – “sem perda de ritmo” – requer que o cavalo tenha capacidade de carregar peso nas suas articulações por mais tempo, e depois seja capaz de projetar esse peso para cima e para a frente, o que vai exigir não só em termos articulares como em termos musculares uma certa evolução em relação ao cavalo de guerra. 

Dito de outra forma, o cavalo ideal tem de ser capaz, num estádio final de educação, de movimentos curtos e rápidos, bem como lentos e grandes, transitando entre uns e outros sem perda de fluidez e harmonia.

Em termos da conformação, penso que no antemão não há muito a modificar, mas em termos do comprimento do dorso/rim e garupa, para se poder ter a capacidade de projeção em equilíbrio, é importante alguma atenção na seleção. 

Também me parece claro que com este tipo de utilização, a atenção aos membros, não tanto à forma, mas à capacidade funcional, desde os cascos a toda a sua constituição, tem de ser maior.

Para termos a reunião em progressão, com ritmo, no meu entender, temos de obter o cavalo inscrito no quadrado depois de trabalhado e não no seu estado natural.

Assim sendo, e usando as palavras do próprio desafio aqui lançado, ouso sintetizar:

O que preservar? O caráter, equilíbrio natural de antemão erguido, flexão dos membros com reduzido movimento para trás da linha vertical que passa pelo vulgo chamado, bico da anca.

O que modificar? Capacidade de carregar peso nas articulações em progressão, capacidade de projeção para diante sem perca de ritmo.

O que inovar? No meu entender deverá haver uma maior convergência entre os vários stakeholders para que o facto de ser uma raça pequena e fechada seja uma mais-valia e não um aspecto limitativo na evolução da raça. Não ter medo ou complexo de perder seja o que for das características da nossa raça, pois acho que o facto de vermos as outras raças a aproximarem-se da nossa é por si só um incentivo. Um cavalo bom é um cavalo bom em qualquer parte do mundo. Temos um conjunto de características no nosso cavalo invejável, quanto a mim, o trabalho a fazer é olhar mais longe, ambicionar mais e ter uma visão com uma perspectiva mais global.»

Miguel Ralão Duarte

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