Criação. 19 NOV 2020

"Devemos dar aos criadores liberdade de usar a sua sensibilidade"

Confira o depoimento de Daniel Pinto, cavaleiro olímpico na disciplina da Ensino e treinador, no âmbito do desafio lançado por Bruno Caseirão com o tema "Cavalo Lusitano: o que preservar, modificar e inovar?".


Tempo de Leitura: 5 Min

Santurion_Daniel_pinto1

«Em primeiro lugar gostaria de fazer um agradecimento ao Bruno Caseirão pelo convite para partilhar a minha opinião, na qualidade de cavaleiro de dressage, neste depoimento que envolve tantas personalidades do mundo do cavalo Lusitano, da qual tenho a honra de fazer parte.

Embora entenda que o tema é bastante interessante e de possível convergência nas opiniões dos vários convidados, devo confessar que tenho grande dificuldade em pensar o que deverá o cavalo lusitano preservar, modificar e inovar? 

Sem dúvida deveremos procurar sempre a evolução da raça – mas não depende esta evolução dos objectivos traçados para a mesma? Assim, entendo que consoante o propósito definido para o cavalo Lusitano, a resposta a estas questões deverá ser obrigatoriamente diferente. Deste modo, penso que devemos deixar a cada criador a liberdade de usar a sua sensibilidade e conhecimento para o objectivo que quer alcançar, seja um lusitano para equitação de trabalho, toureio, lazer ou para a dressage.

O cavalo Lusitano tem evoluído enormemente ao longo dos últimos anos e é hoje uma raça reconhecida internacionalmente, com características singulares que permitem a uma fácil identificação do seu modelo. Podemos mesmo dizer que o cavalo Lusitano é um símbolo do nosso país, lado a lado com outros produtos culturais icónicos como o vinho do Porto, o Fado ou o Pastel de Nata. Assim, penso que o objectivo da notoriedade da marca no mercado global está num excelente caminho e é algo em que devemos apostar, intensificar e preservar.

E é precisamente este mercado que irá direcionar os criadores e moldar os seus objectivos – já que a ilusão de criar cavalos estará sempre aliada ao feedback e receptividade do comprador final, que são os cavaleiros que os montam. Estes cavaleiros, sejam eles amadores ou profissionais, serão os principais responsáveis pela evolução futura do cavalo lusitano, pois o seu feedback é o vector fundamental para que os criadores possam melhor perceber quais as qualidades a desenvolver.

Assim o criador deve definir qual o público para a qual está a criar os seus cavalos. É um cavaleiro de dressage que quer chegar aos Jogos Olímpicos? É um amador que procura um parceiro com quem quer desenvolver uma relação de cumplicidade? É um cavaleiro de equitação de trabalho, que necessita de um cavalo com alma, velocidade e agilidade? Penso que a raça Lusitana poderá cumprir todos estes objectivos, mas dificilmente teremos uma raça que tenha um cavalo com características únicas que permita alcançar todos estes objectivos e mais alguns.

Hoje em dia assistimos a um enorme enfoque da raça para a Dressage. Como cavaleiro desta disciplina posso dizer que no Lusitano encontro um cavalo com vontade de trabalhar, finura e boa cabeça. Posso também dizer que podemos melhorar a sua força e estrutura conformacional. No entanto, penso que o mais importante a reter é que qualquer que seja a evolução do nosso Lusitano, não podemos perder as suas características fundamentais, que o identificam como um Lusitano. Porque os warmbloods foram “desenhados” de origem para a competição – seja de dressage ou de saltos – estas raças estarão sempre à nossa frente na sua evolução genética. Só poderemos manter a vantagem competitiva e crescente popularidade a que temos assistido nos últimos anos, se o nosso cavalo continuar a ser distintamente um cavalo LUSITANO – aquele cavalo que no fundo todos sabemos o que é, e que tanto nos orgulha.

Os criadores já demonstraram a capacidade de fazer cavalos de qualidade, e acredito que no futuro iremos continuar a ter grandes alegrias e dar ao mercado óptimos cavalos para as diferentes vertentes - mas é preciso deixar o caminho fazer-se no seu tempo e não perdermos a identidade do nosso cavalo.»

 

Daniel Pinto

Daniel Pinto

Autor:

Daniel Pinto

equitacao@invesporte.pt

QUER SABER MAIS SOBRE A CATEGORIA

Insira o seu e-mail e receba todas as novidades