Criação. 17 NOV 2020

Seleccionar, seleccionar e seleccionar

Confira o depoimento de Luís de Sousa Cabral [Ervideira], da Coudelaria Ervideira, no âmbito do desafio lançado por Bruno Caseirão com o tema "Cavalo Lusitano: o que preservar,modificar e inovar?".


Tempo de Leitura: 7 Min

Luís Cabral

«Ao me ter sido dirigido o convite para me pronunciar e emitir a minha opinião sobre a questão que me foi posta sobre “O Cavalo Lusitano, o que preservar, modificar e inovar?”, logo com gosto acedi por memória futura e porque o tema me apaixona.

Gostaria, no entanto, de fazer uma Declaração de Interesse antecipadamente.

No texto que me foi enviado para transmitir o conteúdo do tema a desenvolver no segundo parágrafo diz o seguinte e – passo a citar – “A partir de finais do século XIX, Silvestre Bernardo Lima, e já no século XX, com Manuel Tavares Veiga e Ruy d’Andrade, assistimos ao início de um longo período de recuperação…” – ora, já em finais do século XIX, a Coudelaria Ervideira tinha começado a registar a sua coudelaria em livros, até aos dias de hoje, tornando a criação profissional metódica, tendo nas éguas fundadoras da Raça, duas éguas a Boneca e a Formiga. A Boneca é a égua que maior número de descendentes tem na Raça, representando mais de 5% da mesma. Poucas são as coudelarias existentes nas quais não corre algum sangue Ervideira. Com o maior respeito pelos criadores Manuel Tavares Veiga e Ruy d’Andrade, que pela magnífica obra que fizeram bem como a amizade que nos une, só temos que agradecer. A título de curiosidade foi a Coudelaria Ervideira o primeiro cliente privado que teve a Casa Veiga, pois comprou em 1937 um garanhão para refrescar a sua coudelaria, muito antes de 1971, ano em que estas referidas coudelarias começaram a sua influência noutra coudelarias.

Para começar temos que nos colocar perante o Padrão da Raça regulamento que define o próprio cavalo Lusitano enquanto “raça”.

Como fui um dos participantes na compilação do texto actual, posso dizer que bastante pacífico o consenso em todos os itens que compõem o Padrão à excepção daquele que define a tipicidade da Raça. Este, esteve em análise – prós e contras – cerca de três meses. Tendo-se chegado à conclusão que consta agora como o texto “oficial” por sugestão do Eng.º Fernando Sommer, e após ter sido aceite em votação. De facto, a uniformização da raça passa por um consenso alargado. A inclusão da palavra “levemente subconvexa” foi objecto de discussão porque eram um pleonasmo, subconvexo era suficiente. A realidade é actualmente outra, aquilo que é considerado válido e desejável hoje em dia, nem é subconvexo, mas simplesmente “convexo” que é só o reverso do “côncavo”.

Também o Padrão diz que o cavalo deve ser inscrito num quadrado, fala-se já de boca aberta, que para se adquirir maior amplitude nomeadamente na disciplina de Dressage o cavalo deve ser mais rectangular, ora nada mais errado. O quadrado não tem tamanho definido. Um cavalo com 1,60m de altura não pode ter a mesma amplitude do que um com 1,70m, mas este pode e deve estar inscrito num quadrado de maior dimensão.

Se o cavalo for rectangular poderá ter mais amplitude, mas perderá seguramente uma das qualidades específicas da raça que é o poder de concentração. Por isso deve haver harmonia no quadrado e não subverter a Padrão.

O adjectivos de cavalos “barrocos” ou “desportivos” não têm razão de ser. O cavalo tem que ser é de qualidade, ou seja, muito bom.

Também gostaria de tecer um comentário ao que neste momento se desenvolve como filosofia para o futuro da Raça.

Os criadores modernos apesar de terem começado a criar com éguas dos criadores que havia antes deles ou sejam agora chamados de antigos e desactualizados, transformaram-se não em criadores, mas em “reprodutores” de cavalos, importando dos livros genealógicos nórdicos metodologias que nem sempre se coadunam com a metodologia de uma das poucas Raças fechadas. Quero eu dizer que todos os que criamos, criamos para venda os seus produtos, mas quando o mercantilismo abandona o caminho bem mais lento, mas mais verdadeiro da selecção da raça escolhendo o caminho fácil das modas, é um sucesso no imediato, mas muito perigoso no futuro. Tem que haver equilíbrio nas decisões da selecção genética. Só esta selecção genética permitiu chegarmos onde chegámos. Com muitos anos de trabalho e paciência. Hoje em dia queremos o sucesso imediato, o amanhã que fique para outros. Pode é a Raça já ter perdido muito senão tudo!!!

Por isso e para terminar quanto ao “Preservar, modificar e inovar” só posso dizer que preservar, o que é nosso, bom e desejável. Depois, selecionar, selecionar e selecionar.»

Luís Cabral

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