Veterinária. 13 MAI 2021

HORSE-VET TEAM: TRABALHO DE EQUIPA

Já alguma vez se questionou sobre quantas pessoas são necessárias para o sucesso de um cavalo de desporto?


Tempo de Leitura: 10 min

Se fizer um rápido exercício mental, verá que ao cavaleiro se junta o proprietário, o equitador, o tratador, o ferrador, o osteopata, o nutricionista (entre outros) e, claro, o veterinário, que deve funcionar como orientador e agregador desta equipa que trabalha para um propósito comum.

A competitividade “está muito elevada. As pessoas que se dedicam em exclusivo aos cavalos estão bastante mais ambiciosas e atentas aos problemas”. Quem o diz é o médico veterinário Rodrigo Riba de Ave, que considera que, actualmente, “o resultado é feito de detalhes” e, por isso, importa que exista uma “sintonia muito boa entre todos os envolvidos na vida do cavalo”. Neste cenário de maior profissionalismo em que os cavalos de desporto se integram, é, na maioria das vezes, o veterinário que toma uma posição de liderança, pois “é uma responsabilidade que lhe cabe e os proprietários esperam que a assuma. É importante conhecer bem os cavalos e registar tudo, para que todos possam saber quando devem actuar, quais os resultados do trabalho que fizeram e o que se deve mudar. O veterinário é o elemento com mais capacidade de fazer a análise geral e em melhor posição para implementar alterações”. Assim, foi com base nesta filosofia que fundou a Horse-Vet Team em 2007, onde exerce consciente de que a dinâmica da sua actividade é um verdadeiro trabalho de equipa.

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UMA VIDA LIGADA AOS CAVALOS

Natural de Riba d’Ave, em Vila Nova de Famalicão, esteve desde cedo ligado aos cavalos, sendo proveniente de uma família com tradição equestre na vertente lúdica e desportiva. Teve o primeiro cavalo em 1986, presente da avó materna, aprendeu a montar e chegou a praticar Saltos de Obstáculos. No entanto, só ao candidatar-se para a universidade considerou verdadeiramente fazer carreira junto destes animais. Ainda entrou em Engenharia Agropecuária na Escola Superior Agrária de Coimbra, mas não se sentiu realizado e optou por não prosseguir o curso, aproveitando o resto do ano lectivo para aperfeiçoar o inglês nos EUA. O que era para ser uma viagem de três meses transformou-se numa aventura de quatro anos, depois de ingressar o curso de Veterinary Technology, em Boston.

Regressa a Portugal em 1998, já com alguma experiência e objectivos bem estabelecidos. “O técnico veterinário nos EUA é um trabalhador fundamental nas clínicas pois está formado e autorizado a desempenhar um sem número de tarefas técnicas (imagiologia, anestesia, administração de medicação, análises laboratoriais, e mesmo pequena cirurgia) e, como tal, acabei por ver-me na medicina veterinária de forma muito rápida e prática”, conta. Prosseguir com os estudos para ser médico veterinário seria o natural, mas o custo elevado das universidades nos EUA fê-lo terminar o curso na Universidade de Trás os Montes e Alto Douro. Estagiou, desde 2011, no hospital de equinos Casal do Rio, em Pontevedra (Espanha), sob alçada do Dr. José Ramón Giraldez, onde teve oportunidade de “passar muito tempo e aprender bastante”, o que lhe deu uma grande base de trabalho para se lançar para a sua própria clínica ambulatória, a que actualmente se dedica em pleno, entre Lisboa, onde reside desde 2013, e deslocações semanais a vários pontos do país e estrangeiro.

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ACTUALIZAÇÃO CONSTANTE

Rodrigo Riba de Ave terminou o curso em 2004, mas a formação, essa, é permanente e “vital”, até porque a que é obtida na universidade na área de equinos “é manifestamente insuficiente para a exigência dos cavalos de desporto”. Procura, portanto, actualizar-se através de projectos internacionais ministrados por “profissionais de reconhecida competência”, através das revistas da especialidade e, também, nos congressos, onde são divulgados resultados de estudos em curso. Anualmente, o veterinário estima ter entre 120 a 140 horas de formação. Com mais de vinte anos de experiência, para a memória ficam os (não tão longínquos) tempos em que era preciso passar horas infindáveis fechado nas casas de banho dos centros hípicos a tentar eliminar entradas de luz para revelar radiografias sem danificar as películas. 

A permanente evolução da tecnologia, dos equipamentos de diagnóstico e até dos medicamentos tem mudado, e muito, a realidade dos veterinários, permitindo, segundo Rodrigo, “alargar o leque de procedimentos e tratamentos que anteriormente só se fazia em ambiente hospitalar ou não se fazia de todo”. A precisão dos diagnósticos é cada vez maior, mais rápida e possibilita melhor “compreensão dos efeitos a curto, médio e longo prazo das intervenções que fazemos”, afirma, adiantando, ainda assim, que pela mesma razão se torna “muito difícil estar actualizado e suficientemente à vontade com os procedimentos de todas as vertentes da medicina veterinária”, o que o levou a optar por não oferecer o serviço de reprodução aos clientes, assim como a cirurgia - que praticou bastante em Espanha e que adora – mas que considera “um projecto inviável” para si, não só por haver “um longo caminho a percorrer para ser proficiente nas técnicas” como pela “necessidade de infra-estruturas físicas e humanas pesadas”. 

Dispõe de “equipamento portátil de diagnóstico de radiologia digital de última geração e ecografia digital de alta definição, laser e um aparelho de ondas de choque americano específico para cavalos, com o qual tenho resultados muito bons”. Faz ainda tratamento de medicina regenerativa “como o PRP, IRAP ProStride e células de medula, além dos tratamentos «mais convencionais»”. Admite que “qualquer veterinário adora «gadgets»”, mas sempre fez “uma escolha criteriosa do que compro. Tem de ser cientificamente contrastado e aportar real valor aos tratamentos. Disponho de tudo o que é importante para mim e, quando não tenho algum que julgo ser útil, recorro a um grupo de colegas que podem ceder, tal como faço com os meus equipamentos”. No entanto, salienta, “o melhor equipamento do veterinário é a cabeça e o bom senso”.

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DESAFIOS DA ALTA COMPETIÇÃO

Além da evolução da medicina, também o desporto equestre sofreu muitas alterações nos últimos anos. Da regulamentação internacional, “que eliminou muitos abusos que se praticavam”, ao controlo anti-doping “que obriga a um cuidado extremo com as substâncias utilizadas” e que resultou no aparecimento de muitas técnicas médicas não invasivas que hoje se incorporam nos tratamentos “para manter os cavalos em topo de forma”. Na opinião do profissional, tratamentos como as ondas de choque, laser, aplicação de TENS, electromagnetismo, osteopatia, acupunctura ou spa de água fria, são “complementares e devem seguir um racional clínico, com o veterinário a desenhar o plano de acompanhamento”. Para Rodrigo Riba de Ave, “o seguimento de um cavalo de desporto começa à nascença”, pois pode haver problemas a corrigir, como “desvios angulares dos membros, alterações metabólicas com repercussões no crescimento e saúde articular”, por exemplo. Para tal, é necessário que o veterinário opine “sobre múltiplos aspectos da vida do cavalo: nutrição, suplementos nutricionais, ferração, planos de trabalho e controlos regulares do estado de saúde. É fundamental haver um plano para o cavalo e dá-lo a conhecer a todos os que fazem parte da equipa, de modo a que cada um possa dar o seu «input» nesse plano, que pode ser a diferença entre ser bem-sucedido ou não”. A atenção ao pormenor faz com que muitas das consultas não sejam para ver a claudicação óbvia, mas sim “para perceber porque é que o cavalo trabalha melhor para um lado do que para o outro, ou porque é que não salta bem as combinações”, pelo que “só com a informação toda e bem explicada é que se consegue fazer um plano de acção para abordar o problema”.

Ao olhar de veterinário, Riba de Ave junta o de cavaleiro, pois “compreender o que nos está a ser transmitido pelo cavaleiro ajuda muito e perceber a linguagem usada e relacionar com o que já sentimos enquanto cavaleiros pode levar a um diagnóstico mais rápido e preciso”. Um problema físico pode ter duas origens: “ou é próprio do cavalo, ou foi provocado pelo tipo de trabalho”, como é caso disso “a dor de dorso que muitas vezes aflige os cavalos”. Para o veterinário, “é muito fácil montar um cavalo bem posto, mas se o cavaleiro não souber o que está a fazer, pode torná-lo num cavalo «maldisposto»”. No que toca a técnicas e competências veterinárias, Rodrigo Riba de Ave considera que Portugal “não fica a dever nada ao resto do mundo”, sendo que a grande questão actual é o investimento e a “relação que as entidades públicas portuguesas, nomeadamente as universidades, têm com os veterinários privados”, pois “deveriam canalizar mais os esforços para adquirir e colocar à disposição de todos, equipamentos que estes profissionais dificilmente conseguem rentabilizar, como é o caso da Ressonância Magnética ou da Cintigrafia Nuclear”.

Neste momento, fruto da produtividade e criatividade que trouxe consigo dos EUA, Rodrigo Riba de Ave está a desenvolver uma marca de suplementos de uso veterinário, bem como ferramentas de gestão para o clínico de cavalos.

Fotos: Paula Paz

Artigo originalmente publicado in Revista Equitação n.º 146

Autor:

Cátia Mogo

catiamogo@invesporte.pt

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