Equitação Natural. 06 MAI 2021

COMO CONTROLAR O SEU CAVALO

Quem já teve aulas comigo sabe que o título deste artigo tem um sentido irónico. Na minha opinião, o controlo absoluto do cavalo é impossível.


Tempo de Leitura: 12 min

O cavalo é simplesmente mais forte do que nós em quase qualquer situação e quando realmente quer fugir, não temos hipótese. A maioria dos cavaleiros acredita que a embocadura é o que nos dá controlo. Vamos analisar o assunto e descobrir alternativas.

É arriscado falar sobre a questão de usar ou não embocadura. Parece que cada um de nós tem uma opinião forte, que defende com entusiasmo. O seu treinador, professor, os seus colegas de equitação são capazes de achar um erro enorme tentar montar sem embocadura. No mundo da competição há regras para cumprir, normalmente não é permitido montar como nos apetece. Por isso, nunca é uma escolha fácil experimentar uma das alternativas ao bridão. 

Nem estamos todos de acordo sobre o efeito do bridão. Mas vamos ser honestos: quando escolhemos um freio-bridão, em vez do bridão, e dizemos que queremos um maior controlo sobre o cavalo, o que realmente estamos a dizer é que queremos poder exercer uma maior pressão física sobre a boca do cavalo, para ele nos obedecer. E vamos ser ainda mais honestos e brutos e chamar as coisas pelos nomes: quando digo “exercer pressão física”, o que realmente estou a dizer é “causar dor”.

“Mas”, dizem logo os defensores das embocaduras, “o bridão é apenas tão duro quanto as mãos do cavaleiro”. Não é verdade, infelizmente. A pressão que fazemos com as nossas mãos multiplica-se por um factor muito elevado na boca do cavalo, principalmente porque a zona de contacto é muito pequena e é uma zona de alta sensibilidade no corpo do cavalo. Não podemos esquecer o efeito psicológico. A conhecida blogger americana Anna Blake escreve, “using a stronger bit is like winning an argument, not because you’re right, but because you’re holding a gun.” [usar um bridão mais forte é como ganhar uma discussão, não porque temos razão, mas porque empunhamos uma arma]. Quando vemos um cavaleiro controlar o cavalo na perfeição quase sem tocar na rédea, mas o cavalo tem um freio na boca, se calhar não estamos a ver a violência a acontecer naquele momento. Mas podemos ter a certeza de que o cavalo só anda assim tão perfeito na mão, porque conhece a dor que o freio lhe pode causar. É o equivalente a ter uma pistola a apontar para a cabeça de alguém e dizer, “olha, ele faz tudo o que quero e nem sequer lhe estou a tocar!”

Mesmo sem puxar as rédeas, mesmo sem contacto nenhum, será que o bridão é agradável?

Imagine um passeio a cavalo onde o cavaleiro anda de rédeas compridas. Se o bridão está bem adaptado ao cavalo – e não podemos assumir que isso é óbvio – até pode ser que o cavalo não sinta dor, mas ele sabe que está a passear com uma peça de metal na boca que a qualquer momento lhe pode causar dor. Gostaria de ir passear assim? Vamos tirar o efeito da dor: experimente dar um passeio com uma colher de chá a atravessar a sua boca. Está à vontade? Ia adorar o passeio?

Hackamore2

Passeio junto ao mar sem embocadura com hackamore mecânica
pela Adventure Riding em Aljezur

 

Uma das questões importantes dessa discussão eterna é o que pretendemos fazer com o cavalo. Se vou pedir muito, vou precisar de meios fortes para o conseguir. Concursos de nível elevado para as capacidades do cavalo e do cavaleiro, passeios à beira-mar com pessoas que nem sabem montar, percursos de saltos, corridas a galope, cavalos desbastados em poucos dias... Podia continuar a lista, mas o problema é sempre o mesmo: se queremos atingir objectivos ambiciosos em pouco tempo e sem nos esforçarmos muito para aprender técnicas sofisticadas, temos de usar meios fortes. A fórmula é simples: objectivo alto + falta de conhecimento = necessidade maior de (ter a possibilidade de) causar dor. A solução é igualmente simples: se não quero causar dor ao meu cavalo, posso reduzir os meus objectivos e investir na minha formação, para não necessitar de dor.

Qualquer pessoa pode ter uma experiência muito enriquecedora com um cavalo sem lhe causar dor, mas se calhar, é só uma volta a passo com uma pessoa experiente a andar ao lado do cavalo. Ou mesmo sem sequer montar! Se quero evitar o desconforto do bridão ao meu cavalo, posso adaptar os meus objectivos e aprender a usar o peso do meu corpo e a minha voz para comunicar, para não ser tão dependente das rédeas. E posso usar uma das muitas formas alternativas de comunicar com a cabeça do cavalo. Mas com cuidado: vários desses instrumentos exercem muita pressão, ou mesmo dor, em outras zonas da cabeça do cavalo!

Neckring1

Experimente montar completamente sem cabeçada,
apenas com o neck ring, uma argola à volta do pescoço, no Sundance Ranch

 

COMO TREINAR O MEU CAVALO PARA ACEITAR AS MINHAS AJUDAS SEM BRIDÃO?

A resposta é uma das que mais vezes me ouvem dar: passo a passo. Escolha um dia e uma hora em que possa estar a sós no picadeiro com o seu cavalo. Um dia sem vento nem chuva, sem pressão de tempo. Em vez de colocar o bridão na cabeça do cavalo, use uma das cabeçadas sem bridão. Para uma primeira experiência, o cabeção normal com rédeas afixadas ao lado serve perfeitamente.

Experimente então andar ao lado do seu cavalo. Consegue parar o cavalo com um ligeiro toque na rédea? Coloque-se ao lado do cavalo e experimente se um toque na rédea o faz virar a cabeça para si. São simples exercícios de trabalho no chão, tal como os americanos os praticam ao desbastar um cavalo. É prática muito comum, hoje em dia, começar o ensino do cavalo apenas com o cabeção e usar o bridão muito mais tarde. Actualmente, não penso duas vezes sobre o assunto. Já não tenho bridões em uso há muito tempo. 

Sidepull1

Mesmo com as cabeçadas alternativas mais simples, como o sidepull,
podemos conseguir um cavalo bem colocado

 

Qualquer cavalo que me chega para treino é simplesmente montado com o sidepull, depois de uns dias para se habituar ao sítio novo e de algumas sessões de treino do chão, claro. Mas, realmente, já não sinto grande diferença. Mesmo cavalos menos experientes conseguem aprender em poucas sessões a usar uma cabeçada sem bridão. O princípio mais importante de montar sem bridão é ensinar o cavalo a
responder a ajudas muito fi nas. Se o cavalo pára porque eu expiro e me sento fundo, não preciso de puxar as rédeas. Se o cavalo vira porque sentiu que olhei para o lado esquerdo, não preciso de puxar a rédea. Se o leitor tiver dúvidas sobre como comunicar de forma fina com o seu cavalo, pode procurar um dos meus artigos anteriores chamado “Como falar com o seu cavalo.”

Bosal

Alfonso Aguilar a montar com o bosal, cabeçada típica da equitação
do estilo “Old California”. Alfonso dá cursos sobre a
equitação com bosal e escreveu um livro sobre o tema

 

TIPOS DE CABEÇADA SEM BRIDÃO

• O bosal é a cabeçada sem bridão mais antiga e tem a sua origem no estilo de equitação da Califórnia. Usa uma focinheira de diâmetro fixo, que faz pressão na face do cavalo. Através do nó no queixo do cavalo, o cavaleiro pode dar um pré-sinal. O objectivo do bosal é atingir o nível mais alto da equitação com o mínimo de ajudas. É particularmente adequado para cavalos jovens e para cavalos que precisam ser corrigidos.


• Tal como no bosal, o hackamore mecânico usa pressão no nariz do cavalo, mas, para além disso, pode ter uma corrente que pressiona atrás do queixo e exerce pressão na nuca do cavalo. Enquanto o hackamore não facilita uma ajuda clara lateral para a direcção, permite efectivamente um sinal vertical claro para desacelerar ou parar. Dependendo do tamanho dos cambas, o efeito de alavanca na face do cavalo pode ser bastante forte. É usado com frequência nos concursos de Saltos de Obstáculos.


• O sidepull é um design moderno inspirado no bosal, embora funcione de forma diferente, sem alavanca. Tem uma focinheira com anéis laterais que prendem as rédeas em ambos os lados da cabeça, permitindo que uma pressão muito directa seja aplicada de um lado para o outro. A focinheira é feita de couro, couro crú ou corda. Embora a severidade possa ser aumentada usando uma corda mais dura ou mais fi na, o sidepull carece da sofisticação do bosal. A principal vantagem de um sidepull sobre o bosal é que ele dá comandos laterais directos mais fortes e é um pouco mais fácil de usar para um cavaleiro não sofisticado.


• O neck ring ajuda o cavalo a relaxar o pescoço, andar mais livremente, aumentar o passo e melhorar o equilíbrio. O cavaleiro aprende a montar sem depender das rédeas. Feito de corda de lasso revestido
de plástico, é firme, mas ajustável para qualquer tamanho. Não é fácil montar apenas com neck ring, mas é uma experiência fantástica tenta.

Rope Halter

Também é possível montar apenas com um cabeção,
por exemplo um de cordas, como nessa foto

 

 

Fotos: BRUNO BARATA, FREYA VOIGT VON MUNZERT, WALTRAUD MARSONER E KEVIN SMITH

Artigo publicado originalmente na edição n.º 143 da Revista Equitação

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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