Lusitano. 26 FEV 2021

“O Equador deixará um legado muito importante para o futuro da raça"

A dias de chegar às bancas o mais recente número da Revista Equitação, onde faz capa João Torrão e Equador MVL, conversámos com o criador e Director do Monte Velho (MV), Diogo Lima Mayer Jr.


Tempo de Leitura: 17 min

Nas instalações da Coudelaria, que também alberga o Equo-resort, reina a tranquilidade e mal se nota que “lá fora” a pandemia é o tema das nossas vidas. As máscaras na cara de com quem nos cruzamos, a tratar dos animais, recordam-nos que também aqui a realidade teve de mudar e adaptar-se.

À nossa espera está Diogo Lima Mayer Jr, ele que tem sido o timoneiro do projecto João Torrão/Equador MVL, neste caminho feito desde o debute em Grande Prémio do conjunto, até aos palcos internacionais, com os olhos postos nos Jogos Olímpicos (JO) de Pequim.

Mas sobre esse caminho, falaremos na próxima Revista Equitação – quase a chegar às bancas e que pode já comprar AQUI – hoje o nosso tema é a criação.

A Coudelaria Monte Velho nasceu pela mão do pai do nosso interlocutor em 1994, a partir de um núcleo de cinco éguas Alter Real, as quais foram cruzadas numa primeira fase com o garanhão Xaquiro. Depois de alguns anos a dar cartas em Concursos de Modelo e Andamentos, Diogo convenceu o pai que a funcionalidade devia ser a bandeira mestra da casa. Daqui já saíram diversos animais vencedores nas pistas de Dressage e actualmente o MV é a coudelaria portuguesa melhor cotada no ranking da World Breading Federation, onde a raça Lusitana ocupa o 6.º lugar.

Equador MVL (Quo Vadis x Que Ha) é a estrela da casa, sendo detentor do título de Campeão Nacional de Dressage, com João Torrão – cavaleiro que trabalha na coudelaria há vários anos – e a si pertencem os actuais recordes em Grande Prémio (77,348% em GP, 79,042% em GPS e 83,875% em GPF).

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Com 33 filhos registados no studbook da Raça Lusitana, diversos outros criadores de renome têm vindo a escolhe-lo como pai ao longo dos anos, como Dr. Pedro Ferraz da Costa, Companhia das Lezírias, José Filipe Guerreiro dos Santos, Henrique Abecassis, entre outros.

Interrogado sobre como vê a carreira de Equador como padreador, Diogo Lima Mayer Jr., Director da Coudelaria, assevera que “o Equador deixará um legado muito importante para o futuro da nossa raça, marcando a sua descendência com quatro características fundamentais para a Dressage: força, equilíbrio, capacidade de sofrimento e montabilidade. São factores comuns que já identifico nos seus filhos, e que sem dúvida alguma fizeram o Equador chegar e destacar-se no Grande Prémio. Penso que o Equador não será o tipo de garanhão a produzir poldros lindos à nascença e «super movers» para as provas de cavalos novos, mas sim um padreador de cavalos muito competitivos para a «liga da verdade»: o Grande Prémio.”

E que inovações são essas que o Equador está a trazer à raça? “Na minha opinião a principal inovação foi a sua incrível capacidade galopadora. O seu poder de carga, a facilidade no ir e vir, a projecção e capacidade de cobrir terreno sem perder a qualidade do galope, que deriva muito da sua força, fazem com que os juízes de topo lhe dêm notas de 9 e até 10 nos exercícios neste andamento. Em cima disso, a enorme expressividade na execução dos exercícios, que é o reflexo do padrão da raça lusitana.”

Durante o último mês, Equador tem estado a tirar sémen e a gozar umas merecidas férias, antes de recomeçar o treino já com vista à presença na Taça das Nações de Dressage, que se irá realizar em Alter em Abril.

Veja AQUI o que cavaleiros, criadores e treinadores dizem sobre o garanhão Equador MVL

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Universo estrelado

Mas há mais brilho neste universo. “Tem havido um esforço da parte do MV, de dotar o João de um conjunto de cavalos que, para além do Equador, garantam o seu futuro e o futuro da Coudelaria, pois não queremos que a nossa marca e plano de competição se cinja a um único animal”, explica Diogo Lima Mayer Jr.

“Como líder deste projecto, tenho todos os anos uma enorme pressão para que nasçam cavalos com qualidade e competitivos, que possam assegurar a sucessão. A criação está a evoluir de uma forma muito rápida, não só em Portugal, e a exigência para os criadores é, na minha opinião, cada vez maior, para que se produzam cavalos mais completos e que tornem o trabalho do cavaleiro mais fácil. Muitas vezes perguntam-nos qual é a nossa missão como criadores e, de facto, tenho esta enorme vantagem de ter à minha volta uma equipa com pessoas qualificadas, que tornam o meu trabalho de selecção mais fácil, pelas informações que me vão dando e o acompanhamento que vou efectuando da evolução dos cavalos. Mas digo que o meu trabalho como criador é simplificar o do cavaleiro, ou seja, tentar criar cavalos cada vez com um equilibro melhor e mais fáceis de ensinar”.

Actualmente, a coudelaria conta com um plantel de competição de cinco cavalos, quatro deles de ferro da casa: Equador MVL, Maestro MVL, Lufada MVL, Giraldo MVL e Lírio.

maestroMaestro MVL é o seu primeiro macho, filho de Equador, nascido em 2016, fruto do cruzamento com Chiquinha, égua também da casa.

“É o cavalo mais completo que já criámos”, afirma Diogo Lima Mayer Jr, continuando: “vejo-lhe muitas semelhanças com o Equador, sobretudo em termos de comportamento e carácter. Parece-me um cavalo à prova de bala. É um sofredor, um animal muito rústico, com vontade de trabalhar e bastante completo. Tem três andamentos muito bons e muita força, talvez ainda mais do que o pai.”

Apesar de ter apenas 5 anos, Maestro MVL cedo deu nas vistas e, na verdade, nem sempre pelos melhores motivos. “Desde que nasceu sempre foi enorme. Aos 2 anos até estava preocupado porque o cavalo era tão grande e feio que não sabia o que ia sai dali!”, recorda Diogo. “Estávamos com muita vontade de saber o que o Equador produz como pai e quando o começámos a desbastar, no início, para ser honesto, as expectativas não eram muito altas. O cavalo era «desengonçado», desenformado… Mas, assim que o João o começou a montar e o cavalo se começou a arredondar, ficámos completamente rendidos. Hoje em dia é um cavalo no qual depositamos enormes esperanças para o futuro porque tem tudo o que é importante: enche a pista, é um sofredor e muito completo. Diria que está ali, potencialmente, um novo Equador, sendo certo que a pressão que o pai pôs foi muito alta e vamos ver se ele está à altura.”

lufadaIrmã de mãe de Maestro é Lufada MVL (Franquelin x Chiquinha), uma égua de 6 anos com a qual João Torrão já realizou alguns concursos, com bons resultados e em que Diogo vê “muito potencial”. Contudo, para Director Geral do MV é preciso ter em conta que “muitas vezes as éguas têm desvantagens em relação aos cavalos, pois não são tão consistentes. É preciso perceber-lhes bem o feitio e o carácter, pois nem sempre têm tanta vontade de trabalhar como os machos, que são como relógios. As éguas são mais imprevisíveis. Esta égua, em particular, é uma fora de série, genial, mas tem de ser levada de uma forma muito tranquila, sem se precipitar e sem querer queimar etapas.”

A visão a longo prazo tem sido uma das imagens de marca do MV e, para o criador, quando falamos em cavalos novos, é preciso não precipitar resultados.

“O Lusitano não deve ser, necessariamente, competitivo em cavalos novos e acho que querer ir rápido demais nestas idades é, na minha opinião, contraproducente para o desenvolvimento do cavalo para Grande Prémio (GP).” E Diogo dá o exemplo do que se faz noutras raças. “Os cavalos que se notabilizam em provas FEI de Cavalos Novos, ou não chegam a GP, ou «partem», porque foram «puxados» de tal maneira, tão cedo, que depois não aguentam o GP. Dou-lhe o exemplo do Carl Hester, que nunca participou num Campeonato do Mundo para Cavalos Novos. A própria Charlotte Dujardin esteve várias vezes para participar e o Carl nunca deixou porque o sistema de treino e a filosofia de construção dos cavalos é totalmente orientada para o GP. Acho que quando os cavalos têm potencial, é importante saírem de casa, até para conhecer comportamentos, mas preparar uma temporada apenas para cavalos novos em que eles têm de estar em esforço numa idade tão tenra e numa fase tão precoce do seu desenvolvimento, na minha opinião, é negativo e não é o caminho que quero seguir no MV. Alguns proprietários têm a necessidade de exigir resultados muito no curto prazo e eu tenho a convicção profunda de que isso irá comprometer o futuro dos cavalos. Quero que o MV seja uma fábrica de cavalos de GP. Isso exige, obviamente, uma visão de longo prazo. Gostava de replicar o modelo que nós conseguimos com o Equador, nos cavalos mais novos.”

E falando em Grande Prémio, quase a debutar está Giraldo MVL (Rubi x Vexada), de 10 anos, prevendo-se que realize a sua primeira prova rainha dentro de alguns meses.

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“É um cavalo que tem naturalmente três andamentos muito completos e uma personalidade mais «tricky». Talvez não seja tão generoso quanto o Equador, mas acho extraordinária a ligação que o João conseguiu com ele num curto espaço de tempo”. Recorde-se que Giraldo MVL já passou pelos cavaleiros Vasco Mira Godinho e Coralie Baldrey (treinadora de João Torrão).

“Achámos que fazia sentido ter o cavalo no MV com o João, até para ele perceber um o que é montar um cavalo com um equilíbrio e dificuldades que o Equador não lhe apresentava. Acho que o Giraldo tem feito do João melhor cavaleiro, por ser tão diferente do Equador. Acredito que estará pronto para fazer GP este ano e é um plano B para o João, ter outro cavalo neste nível, à semelhança do que acontece com os cavaleiros de elite internacional, que têm 2/3/4/5 cavalos."

lirioIntegra ainda a quadra Lírio (Zeus do Lis x Quira), um cavalo de 5 anos, que pertencia a João Torrão desde os 3, e que foi vendido ao MV. “Quando o adquirimos não foi com o objectivo de competição, mas para ser um «school master». Demos a missão ao João de o ensinar para o futuro e, na verdade, o cavalo tem revelado tanto potencial que neste momento entendemos que deverá ser direccionado para as provas. É um projecto para criar e desenvolver”, revela Diogo.

 

Saber esperar

Principal impulsionador da carreira desportiva de João Torrão e Equador, Diogo Lima Mayer Jr afirma que este projecto tem sido de “enorme aprendizagem” também para si, pois “nunca tinha passado por isto e diariamente procuro aprender, perceber o que os melhores fazem para tentar integrar na nossa equipa e ajudar o João a alcançar cada vez melhores resultados”.

Todas as escolhas competitivas têm sido ponderadas, e para o Director da coudelaria essa é uma das chaves do sucesso, assim como o trabalho de equipa.

“Acho importante haver o papel do proprietário, que coordene toda a equipa. De alguma forma o projecto do Equador é diferente dos que existem em Portugal, onde normalmente é o cavaleiro que toma todas as decisões em relação ao cavalo. Não quero com isto dizer que o João não toma decisões, que toma, mas são decisões tomadas em equipa. Felizmente tem sido sempre possível encontrar consenso, e acho que o segredo é mesmo o trabalho da equipa.”

A gestão do calendário desportivo do cavalo “é crucial”, até porque “sendo este um desporto tão subjectivo, é muito importante prepararmos a sua carreira de forma a que a cada vez que apareça em provas, passe uma imagem positiva. A carreira de um cavalo é como a carreira de um profissional, tem de ser feita passo a passo, temos de ir construindo uma reputação. Tentamos que cada passo que damos seja um passo de crescimento, e não para andar para trás”, assevera.

diogo lima mayer 2

Diogo considera que “o espírito de um vencedor, como o João, revela-se também nos momentos das derrotas” e que, neste percurso que têm feito “houve momentos em que subimos muito a fasquia”, até porque este projecto “é diferente dos demais, porque foi dos primeiros que chegou ao nível sénior com um cavaleiro inexperiente nesse nível. Foi uma novidade para ambos e isso exigiu que no primeiro ano de GP, eles tivessem de competir muito, porque não tinham experiência e essa era única forma de crescerem em pista. O cavalo em 2019 fez cerca de 12 internacionais, mais provas de treino, idas a Inglaterra, ao Europeu de Roterdão… Mas, realmente, o João é o cavaleiro que é hoje por ter passado por essas provas todas.”

2020 foi “mais aliviado e acho que a subida de performance do cavalo também se deve muito a isso”. O ano fechou em grande com o conjunto a sagrar-se Campeão Nacional de Dressage, a estabelecer novos recordes nacionais em GP, entrando em 2021 com os JO no horizonte.

Apesar de ter marcado presença, a título pessoal, nas Olimpíadas de Londres 2012 e Rio de Janeiro 2016, Diogo almeja este ano estar na bancada na função de criador e gestor de um projecto que, a confirmar-se a presença do conjunto João Torrão/Equador na equipa de Portugal, tornará o sonho de toda a família em realidade, com um cavalo de ferro MV no mais importante palco mundial da Dressage.

À data, certo é o 6.º lugar do Lusitano no ranking mundial de raças do Word Breading Federation, com o MV a dar o seu contributo com Equador e Esporim.

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“Obviamente que fico muito orgulhoso por contribuir para este resultado do Lusitano e digo-lhe de uma forma muito honesta que, das maiores motivações que tenho neste projecto é o provar que o Lusitano é capaz de estar na «briga», neste desporto. É das coisas que mais me move, provar ao mercado que o Lusitano é capaz de ser competitivo. Até há poucos anos, o Lusitano era admirado, mas ao mesmo tempo desvalorizado quando se falava de desporto. Quando o Equador foi competir a Hickstead, no início do comentário, o speaker falava em «poney». O Lusitano era conhecido como «Little Poney» e isso era uma coisa que me irritava. Agora tenho muito orgulho dos players internacionais procurarem saber mais sobre a raça, cavaleiros de renome procurarem lusitanos com qualidade.

Não olho para este projecto apenas como o projecto do Monte Velho, vejo isto muito como uma missão, de puxar o lusitano para cima. Acredito, convictamente, que o Lusitano ainda vai crescer mais. Se temos uma raça com 3500 éguas, um studbook fechado, contam-se pelos dedos os proprietários que têm projectos consistentes, equipas estruturadas, a investir com o objectivo do GP, e já estamos com este lugar no ranking da World Breeding Federation, imagine se há um aumento de produção na raça, se em vez de 5/6, passarmos a ter 20 proprietários a investir…! Acho que só podemos subir.

O Lusitano é mágico, tem muita qualidade e, portanto, se há algum mérito que o projecto do Equador demonstrou – e que o do Rubi já tinha demonstrado também – é que em projectos bem estruturados, bem pensados, e com talento, obviamente, os resultados aparecem. A única coisa de que precisamos para continuar a crescer, são mais projectos do género, com boas equipas, outros cavaleiros e proprietários que tenham a visão de longo prazo”.

Diogo Lima Mayer Jr acredita piamente que “o Lusitano é o cavalo do futuro da Dressage. Não há nada que nos impeça de ser um dia medalha olímpica. Temos cavalos completos, com muita força, a andar bem a passo, a galopar muito bem, e cavalos com a nossa montabilidade, não existem. Estamos numa trajectória de enorme afirmação que espero que não fique por aqui e tenho a convicção de que vamos continuar a crescer como raça e como país”, conclui.

Não perca a entrevista com o cavaleiro da casa João Torrão, actual Campeão de Portugal de Dressage, na edição n.º 147 da Revista Equitação (comprar AQUI)

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(c) Fotos: Bárbara M. da Costa/Equestrez

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Autor:

Ana Filipe

anafilipe@invesporte.pt

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