Dressage. 26 JAN 2021

O Passo: Largo e Concentrado

Desta vez, em vez de abordar um exercício optei por destacar um andamento: o Passo.


Tempo de Leitura: 7 min

Este andamento é de tal forma importante no ensino e correcto desenvolvimento do cavalo que na prova de Grande Prémio (como na maioria das provas internacionais) é-lhe atribuído o coeficiente “2”, ou seja, em termos de pontuação este andamento é equiparado aos exercícios de maior complexidade e concentração (piaffe, piruetas a galope, etc.) pelo que, seguramente, merece a nossa análise e reflexão.

Entendo que para alguns o Passo não seja tão estimulante como o Trote Largo ou não tenha o mesmo “prestigio” da Passage. Reconheço também que geralmente este não é o ponto forte da maioria dos nossos cavalos (Lusitanos) e talvez por isto alguns cavaleiros não lhe dediquem a atenção e tempo de treino adequado, todavia, quanto mais não seja pelo “peso” que este andamento tem na pontuação das provas creio que é importante que não o subestimem/desvalorizem e que os juízes não sejam excessivamente complacentes na sua avaliação, uma vez que o Passo é vital para o bom desenvolvimento e qualidade de um cavalo de Dressage.

De uma perspectiva pessoal, entendo que, de modo ainda mais evidente do que as transições, o Passo transmite-nos de forma cristalina o tipo de treino do cavalo, pois, sendo este um andamento que não admite “fabricação”, muito dificilmente se consegue ocultar ou disfarçar os problemas/dificuldades/imprecisões.

Definição
O passo é um andamento marchado, a 4 tempos, em 8 fases (cada membro toca no solo de forma isolada e bem marcada), com igual amplitude e tempo (velocidade) entre cada passada. Na terceira fase (3) os membros do mesmo lado devem formar um “V” durante um breve momento.

No passo podemos distinguir: o passo concentrado, médio, largo e livre. Em cada um destes o cavalo deve apresentar uma evidente diferenciação em termos de amplitude das passadas e de alongamento da silhueta.

 

Passo concentrado
No passo concentrado o cavalo de forma activa, elástica e vigorosa, avança os posteriores para baixo da massa corporal, reduzindo a base de sustentação, sem perder o desejo de avançar. O pescoço forma um arco culminando com a nuca no ponto mais alto, o chanfro fica na linha vertical e o contacto permanence estável e ligeiro.

As passadas são mais elevadas e menos amplas que no passo médio, devido à maior actividade e flexibilidade das articulações (em especial dos curvilhões).

 

Objectivo
Mostrar um andamento regular, activo, com o dorso flexível e disponível, permitindo o encurtamento e grande elevação das passadas, mantendo a correcta posição do pescoço (mais elevado e arqueado) e da cabeça (chanfro na vertical). 

 

Passo largo
No passo largo (na foto) o cavalo mostra a maior amplitude possível das passadas sem perder a regularidade. Os posteriores activos devem pisar claramente à frente da pegada dos anteriores (aproximadamente uma distância equivalente a 3 cascos), o dorso descontraído e flexível permite e transmite maior liberdade às espádua e alongamento do pescoço, para baixo e para a frente, sem perder o contacto nem o controlo da nuca. O nariz do cavalo deve ficar visivelmente à frente da linha vertical.

 

Objectivo
Mostrar um passo energético, descontraído, sem restrições com a maior amplitude possível das passadas e da silhueta.

 

Erros comuns
Os erros geralmente mais frequentes são: perda de regularidade ou até mesmo de definição do ritmo (precipitação, lateralização), tensão do dorso e/ou das espáduas (“passo de escola”), falta de actividade (lento em vez de concentrado), pouca definição (escassa amplitude no passo largo (antepista-se) ou de concentração no passo concentrado (transpista-se), reduzido alongamento da silhueta no passo largo (o cavaleiro não dá suficientemente as rédeas ao cavalo para ele poder alongar o pescoço), perda de contacto no passo largo (confusão entre o passo largo e passo livre)...

 

Dicas

1) Escala de Treino (ritmo, flexibilidade [descontração], contacto)
Como referi no início, é difícil ocultar os problemas/dificuldades/imprecisões no passo, pelo que é fundamental que o trabalho “de base” esteja bem consolidado de acordo com a Escala de Treino, especialmente os 3 elementos acima indicados.

1.1) Descontração (ausência física e psíquica de resistências, restrições ou contracções)
No Passo a descontração deve ser notória, ou seja, este andamento funciona como “um retorno à calma” após uma exigente solicitação, pelo que é importante que o cavalo apresente evidentes sinais de descontracção (respiração, rabada descontraída, dorso solto e elástico). Alguns dos juízes Internacionais mais experientes costumam dizer que no passo largo “o cavalo deve andar como um felino”.

2) Diferenciação
É importante diferenciar bem a amplitude das passadas e o alongamento/encurtamento da silhueta do cavalo de acordo com o tipo de passo solicitado na prova.

3) Ritmo e Amplitude
O ritmo é sempre mais importante que a amplitude da passada. Alguns cavalos que apresentam uma enorme amplitude de passada, transpistando-se muito mais do que o habitual, por vezes tendem a apresentar problemas (pouca definição do ritmo) no passo concentrado.

Nota: Esta análise é feita à luz do Regulamento da Federação Equestre Internacional (FEI), tendo por objectivo ajudar os praticantes de Dressage a “conservar” pontos que estão essencialmente relacionados com a execução do exercício e não apenas com a qualidade do cavalo.

Fotos: Aurélio Grilo 

 

Artigo publicado in Revista Equitação n.º 144 , Julho/Agosto de 2020

 

Veja também:

- Como entrar em pista e causar boa impressão

- O trote médio/largo

- A espádua a dentro

- O ladear

- O recuar

- A passage

O Piaffer

- Transições

Autor:

Frederico Pinteus

equitacao@invesporte.pt

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