Reprodução. 13 JAN 2021

O Cavalo e a Égua: cada vez mais distantes

Com o começo da época reprodutiva, Dr. José Carlos Duarte, da Luso Pecus, aborda o assunto sob uma vertente que possa ajudar os criadores a organizar e planear a reprodução das suas éguas.


Tempo de Leitura: 6 min

Não pretendo com este pequeno artigo substituir-me à imensa sabedoria dos nossos criadores, demonstrada à evidência pela evolução e dinamismo que a nossa raça lusitana vem denotando desde há anos a esta parte, pelo brilhantismo das suas performances internacionais, fruto seguramente, que no capítulo interno se está a trabalhar bem, produzindo animais de grande funcionalidade e alto rendimento. Pretendo somente levantar uma série de questões que sempre convém lembrar em tempo oportuno e que possam ajudar a alinhar alguns assuntos atinentes a uma época de reprodução que já está a começar.

Primeiro é sempre preciso decidir por onde se quer ir e onde se quer chegar e depois escolher, dentro dessa linha, o que se julga ser o melhor para atingir os nossos objectivos. Mais do que em qualquer outra espécie animal, cada indivíduo é um indivíduo com características próprias e, portanto, também a merecer um tratamento individual distinto. Assim, e uma a uma, escolha dentro do leque das suas possibilidades e disponibilidades, os cavalos com que pretende fazer os emparelhamentos das suas éguas, sempre uma a uma. 

A ideia de ter um cavalo para todo o efectivo remonta à década de 80 do século passado e está muito ultrapassada e em minha opinião não fará nenhum sentido, até porque repare-se na disponibilidade que hoje em dia há através de sémen fresco ou congelado, em Portugal ou fora de Portugal, em escolher o cavalo que julgamos “ir melhor” com cada égua.

Relembro aqui que na aludida década de 80 com genética da “Fonte Boa” disponível e gratuita, já havia criadores que a rejeitavam e escolhiam os reprodutores, comprando os que julgavam mais interessar à continuidade do seu efectivo. Estes seguramente chegaram primeiro onde queriam, e provavelmente nos tempos de hoje recolhem o retorno do investimento de então.

Se não sabe por onde começar, faça alguns contactos com colegas criadores ou contacte centros autorizados a congelar sémen e pergunte o que é que poderá “haver por lá” (se optar por esta via o proprietário terá sempre que autorizar a utilização do sémen, querendo geralmente saber a que coudelaria e a que égua se destina).

Há sempre possibilidade de ano após ano ir melhorando a genética dos efectivos e se isto acontecer as “camadas” mais novas serão tendencialmente melhores que o grupo donde provieram e assim o resultado global para a coudelaria será também um caminhar gradual para atingir a qualidade e depois a excelência. 

Independentemente do número de éguas que fazem parte do seu efectivo (muitas ou poucas), escolha criteriosamente as que pretende reproduzir, e concentre nelas toda a sua energia, investimento e intuição!

Faça um orçamento para esta actividade (eu sei que os gostos não se orçamentam, mas pode ser um fi o condutor que segue paralelo ao gosto). Se tem cavalos congeladores de boa genética e com mercado melhorador, ou se esta ideia “já lhe passou pela cabeça”, identifique os mercados compradores onde podem chegar e mande congelar um número de doses que possam servir as suas intenções.

Se já tem algum cavalo ou cavalos com sémen congelado, não se esqueça deste activo e promova-o onde melhor achar, por forma a poder tirar partido do investimento que já fez.

O sémen congelado não é para estar guardado nos contentores, mas sim para fazer filhos na “barriga” das éguas. 

Levantei “en passant” alguns assuntos ligados à reprodução e à necessidade de a pensar e programar atempadamente, que é sempre melhor, julgo eu, do que ir decidindo dia após dia, sem uma linha condutora que também ajuda a facilitar o trabalho dos vários agentes que interferem no sucesso desta actividade, que ao fim e ao cabo é termos poldros a nascer no ano vindouro provenientes das nossas melhores matrizes.

Quando um poldro nasce já traz consigo todo um conjunto de trabalhos, desde a ilusão do seu proprietário no emparelhamento decidido, ao trabalho na coudelaria proprietária do cavalo, ao trabalho na coudelaria proprietária da égua e da ajuda que os veterinários também dão, ligando os dois seres que são os principais protagonistas nos objectivos a atingir: o cavalo através do seu sémen em fresco ou congelado e a égua.

Bons partos com bons poldros, é o que se deseja!

 

Dr. José Carlos Duarte

 Médico veterinário desde 1977. Fundador e gerente da clínica Luso Pecus

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