Saltos. 18 DEZ 2020

O sonho americano de Bruno Diniz das Neves

O português está radicado em San Diego, na Califórnia, onde tem o seu próprio negócio de cavalos e tem vindo a conquistar vários bons resultados a 1,50m.


Tempo de Leitura: 15 min

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A EQUITAÇÃO esteve à conversa com o cavaleiro, natural do Estoril, que há vários anos se instalou nos Estados Unidos da América (EUA), onde gere o seu próprio negócio. Recentemente, debutou a égua Adele XIII a 1,50m no Desert Circuit, na Califórnia, num exigente Grande Prémio com um Prize Money de 100.000 dólares, e não fez qualquer derrube.

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Mas voltemos um pouco atrás, para conhecer melhor Bruno Diniz das Neves. A ligação aos cavalos, nasce, explica, pelo avô, “que tinha uma quinta em Vila Franca e era apaixonado pelo toureio a cavalo. A minha mãe montava os cavalos e adorava ir à feira da Golegã. Eu comecei por montar Lusitanos que o meu avô comprava aos toureiros de renome, como João Moura que na altura era vizinho”.image10

Como muitos dos cavaleiros da actualidade, Bruno iniciou a formação com Nuno Velloso, na Quinta da Marinha, onde surgiu “a paixão pelos obstáculos”, recorda. Mais tarde, o pai compra-lhe o primeiro cavalo, da Coudelaria do Oeste, com o qual faz os seus primeiros resultados, já sob orientação de Miguel Faria Leal. No entanto, quando o pai faleceu, Bruno parou de montar. Durante oito anos deixou os cavalos e até pensou que não voltaria ao meio, mas Bernardo Mathias – que ia mudar-se para a Bélgica – convenceu-o a regressar “para me entregar os clientes que tinha no Jóquei. Eu pensei que ele era maluco, mas aceitei e fiquei agarrado”, conta.

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Voltou a montar junto de António Vozone, “onde fiz bastantes competições com cavalos diferentes”, e chegou a disputar o Campeonato de Portugal de Juniores com uma égua emprestada pelo tio Ernesto Neves (Nené), “outro apaixonado pela modalidade”. O «bichinho» da Equitação tinha voltado para ficar e Bruno Diniz das Neves lembra que foi tudo “muito rápido. Agarrei-me ao que tinha e trabalhei, trabalhei, trabalhei! Até uma égua de um cliente que era, à partida, montada de amador, terminou em Grande Prémio! Eu estava muito entusiasmado e foi nessa altura que decidi ser profissional”.

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“Agarrado ao sonho”

Ao perceber que não podia evoluir em Portugal, até porque “financeiramente era impossível”, Bruno aventura-se no estrangeiro. A primeira morada foi em Inglaterra junto do - na altura sul africano - agora britânico David McPherson, uma fase “dura e difícil para mim, mas aprendi muito e continuei por paixão, agarrado ao sonho”. Dois anos depois, novos códigos postais. Trabalhou na Holanda com o cavaleiro Albert Voorn, “onde evolui muito”, passou pelos estábulos do “maior negociante de cavalos da Holanda, o Stal Maathuis onde cresci como cavaleiro”, esteve na Alemanha e na Suíça, com Edwin Smith, onde foi colega do português Luís Ferreira, até conseguir “um grande trabalho na Holanda para a família Van De Kamp Stal de Havikerwaard. Era suposto montar os cavalos da criação e produzir cavalos novos mas o Jan Van de Kamp entusiasmou-se e todos os garanhões bons que tinha trouxe-os de volta a casa. Assim, acabei por competir e com grandes resultados a nível de FEI 4*, um pouco por todo o lado. Montei garanhões famosos, como Pokémon ou o Lord Sandro”.

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Bruno recorda estes 4 anos como uma “fase incrível da minha vida onde tive a sorte de treinar com cavaleiros como o campeão olímpico Jeroen Dubbeldam e o chefe de equipa holandês Rob Ehrens”. Nos mesmos estábulos, estava também instalado outro cavaleiro holandês, para quem trabalhava “outro grande nome nosso: o Mário Wilson Fernandes. Ajudou bastante ter um português ali, tornava-me ainda mais competitivo!”, ri, concluindo que no fim de contas “foi bom para os dois, fez-nos a ambos melhores cavaleiros”. 

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Aquilo que hoje é absolutamente comum para os cavaleiros nacionais, era, há mais de vinte anos, uma tremenda aventura. “Fui o primeiro português aventurar-me para estes lados da Europa, que hoje são base para grandes nomes da actualidade hípica portuguesa. Na altura não havia ninguém, Portugal era muito influenciado por Espanha e pela equitação francesa não passava daí. Ir para o centro da Europa foi complicado, mas fiz amigos e alguns deles são, actualmente, os grandes nomes da equitação holandesa”, sublinha.

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Por terras do Tio Sam

Porque mesmo a cumprir sonhos, nem tudo são rosas, Bruno Diniz das Neves sentiu que os bons tempos estavam a chegar ao fim. Patrões “muito exigentes, que me colocavam sob muita pressão fizeram com que eu começasse a perder o gosto pelo desporto. Mas como eu sou teimoso, quis tentar algo diferente”.

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Depois de vender uma égua ao amigo Sérgio Rodrigues, que vivia nos EUA e que lhe pediu ajuda, foi de férias, fez “uns concursos com os cavalos dele, estive na Carolina do Norte e Nova Iorque e, no Inverno, fui para Wellington Palm Beach fazer o circuito”. E as coisas não podiam ter corrido melhor: “graças aos meus resultados no início, consegui trabalhar para várias pessoas durante o circuito, foi uma época de sucesso que me introduziu no mercado americano”.

A antítese de realidades deixou Bruno “fascinado. Era tudo tão diferente, que eu parecia uma criança a entrar na Toys “R”us pela primeira vez”, diz. Ainda assim, nem por isso as coisas foram simples. Primeiro, “não é fácil trabalhar aqui quando não se é americano. Tive que sair de volta para a Europa”. Regressou a Portugal, onde “o Luís Sabino me ajudou, fiquei a montar com ele até arranjar um trabalho como cavaleiro da Zangersheide”. Por pouco tempo, porque a cabeça tinha ficado na América: “queria tanto voltar! Voltei, mas mesmo assim não consegui ficar e fui montar para umas famílias conhecidas no México durante um ano”, conta.

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No verão, rumou ao Oeste dos Estados Unidos para competir na Califórnia com os cavalos dos mexicanos e ficou apaixonado pelo lugar. E aí decidiu que haveria um dia de se instalar naquele estado norte-americano. Mas o que normalmente ninguém diz é que na «terra dos sonhos», os sonhos não caem do céu. E Bruno teve muito que batalhar para alcançar o seu. “Trabalhei muito, voltei a desbastar cavalos, fazia tudo o que podia para me aguentar. Até voltei a trabalhar para criadores no Novo México, no Rancho Corazón, foi uma batalha constante!”, exclama.

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Rapidamente, o português descobriu que na América, os saltos de obstáculos são um “desporto de amadores, não vivem disto. Por isso é tão caro e tão difícil para alguém «normal» como eu fazer isto. O mercado americano é o consumo do produto final, o mercado europeu faz o produto. Não existe nem a cultura nem profissionais que produzem cavalos”. Primeiro, porque é demasiado caro, depois porque não existem criadores suficientes que o justifiquem, no fundo, “cada pessoa aqui quer montar o seu cavalo, não pagam para que os outros montem os seus cavalos”. Bruno clarifica que “muitos amadores são cavaleiros de topo, montam ao mais alto nível FEI e com sucesso”, mas, para tal, “contratam profissionais para gerir as carreiras e muitos até investem em cavalos para que os profissionais tenham montadas para o mais alto nível”.

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Um novo mundo

Depois de uma epopeia pelo mundo, chegada a hora de se instalar, Bruno Diniz das Neves arriscou mais uma vez. Há dois anos, apostou no negócio próprio que “foi e continua a ser um risco”, tem clientes amadores, que treina, a quem dá aulas e para quem monta. “Com budgets muito limitados”, enveredou pela produção de cavalos “na esperança dos milagres”. Vai à Europa, compra cavalos para ensinar e orgulha-se de fazer tudo sozinho: “Os meus clientes contratam tratadores, mas eu quero tratar dos meus cavalos. A relação que tenho e tive com todos os que comprei e que me enviaram foi sempre única. Eu gosto, dá-me prazer. São coisas que se perderam, hoje em dia só se quer competir e perde-se o tacto com os cavalos. Eu acredito que essa relação é um elo importante para o sucesso do conjunto.

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Aos 47 anos, Bruno vive agora uma fase mais descansada, longe do rebuliço do centro da Europa, onde ganhava muito menos e trabalhava muito mais. Na América, o que mais lhe agrada é “poder desfrutar da vida, aqui é mais descontraído! Honestamente cansei-me de ir sempre à procura da relva verde do outro lado. Acho que a determinada altura na vida para se construir algo é necessário ficar num lugar”. E o cavaleiro escolheu San Diego, de onde agora só sai para vir à Europa comprar cavalos ou para visitar a família, em Portugal, “que infelizmente este ano não pude, por motivos óbvios”.

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Para já, as duas primeiras experiências a título individual, foram bem sucedidas. A primeira égua, Fatibello, comprada a Rodrigo Morgado com pouca experiência, “teve uma progressão rápida quando chegou e foi vendida rapidamente, está a saltar com sucesso a 1,30 m com uma rapariga de 14 anos”. Já a segunda, Adele XIII, foi contra todas as expectativas. Bruno foi experimentá-la à Dinamarca, após ter visto um vídeo no Instagram e ficou cheio de dúvidas, mas depois na última volta “deu-me um feeling tão bom que decidi comprá-la”.

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Uma égua pouco convencional, sem estilo clássico e com muito carácter, que só tinha começado a saltar aos sete anos e meio, não era bom prenúncio, mas “com umas linhas incríveis Limbus x Contender x Ahorn Z Holsteiner e ambos os pais a saltar 1.60m”, o cavaleiro ficou convencido.

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“Ela não era fácil, mas parecia que nos concursos mudava e dava tudo, passámos várias fases de muitas dúvidas, já não sentia o «feeling» que tive quando a experimentei e tinha muitas pessoas a dizerem-me que era melhor saltar 1.30m e vendê-la rápido”. Bruno não quis saber, “segui o meu trabalho e acreditei. Durante o confinamento dediquei-me muito a melhorar aquilo em que acreditei desde o princípio. A verdade é que de repente se deu o clique e esta época fiz coisas incríveis na América que nunca tinha feito!”.

Entre os bons resultados, Bruno refere-se ao primeiro Grande Prémio da égua a 1,50m, “da Riders Cup, com um prize Money de 100.000 dólares. Se não fosse o meu excesso de precaução, tinha feito zero dentro do tempo”, explica, acrescentando que “para muita gente pode não ser um grande feito, mas eu sei o trabalho e a dedicação que coloquei nela. E acreditar num cavalo que fez outros, que valem milhões, parecerem normais, para mim é uma vitória. Este desporto é financeiramente insustentável, mas sonhar não custa e não é só talento e dinheiro, isto é um exemplo que é possível não deixar de sonhar!”.

Bruno afirma-se “um sonhador por natureza” e garante que não vai “desistir nunca seja com que cavalo for”. Está focado em produzir cavalos para vender e continuar a elevar o nome de Portugal nos EUA. Confessa que adora “os concursos em Portugal, temos grandes cavaleiros” e, se tiver oportunidade, vem até este lado do oceano «dar um saltinho». Para já não se vê a regressar em definitivo, mas não esconde a vaidade em ser português: “fiquei orgulhoso ao ouvir o locutor do vídeo de live stream a elogiar os cavaleiros portugueses. Temos grandes concursos e todo o mundo vai aí participar. Oxalá eu tenha a oportunidade de voltar a concursar em Portugal no futuro!”.

Para já, está a preparar as provas de 2021 do Desert Circuit, de Janeiro a Março, onde deverá receber a visita do amigo Luís Sabino Gonçalves.

E questionado sobre como se imagina daqui a dez anos, não tem dúvidas: “Espero estar super fit, saudável e feliz, a fazer o que mais gosto, que é estar envolvido com estas criaturas incríveis que me mudaram a vida em todos os aspectos que são os cavalos”.

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Autor:

Cátia Mogo

catiamogo@invesporte.pt

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