Criação. 17 NOV 2020

Lusitano, o maior sucesso zootécnico de Portugal

Estamos perante uma entrevista  que não hesitamos em considerar de “histórica” com um dos principais vultos da nossa história equestre recente, João Costa Ferreira, de uma vida ao serviço do país e de uma paixão pelo nosso cavalo.


Tempo de Leitura: 30 min

João Costa Ferreira é um nome que dispensa apresentação pois foi a imagem do Estado Português – no que concerne à criação e gestão cavalar – nos últimos quarenta anos, o mesmo será dizer no período da democracia pós 25 de Abril. Primeiro como Director do Centro de Produção Cavalar, em 1979, onde criou a Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE). Mais tarde, foi Director do Serviço Nacional Coudélico até à sua extinção em 2007. Foi ainda Director da Coudelaria de Alter, reorganizando serviços, melhorando e criando infra-estruturas, e onde recriou o projecto de D. João V e D. José I, de que a coudelaria funcionasse em estreita interacção com a EPAE.

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BRUNO CASEIRÃO – Há pessoas – como é o seu caso – cujo o nome se “confunde” com o universo do cavalo, terá existido um momento inicial de aproximação ao mesmo?

JOÃO COSTA FERREIRA – O meu contacto directo com o cavalo é por via militar nos Dragões de Angola, daí que a minha equitação seja de desembaraço, e tenho uma vivência com o cavalo numa leitura muito própria porque estar debaixo de fogo a cavalo não é para todos e nem aconteceu a todos. Perceber as suas servidões dá-me uma visão das coisas, que tenho aproveitado para interpretar algo de que gosto muito, a História. Vou-lhe contar um episódio delicioso e de que é disso exemplo, relativo à Batalha de Aljubarrota.

Um historiador, muito respeitado, afirma que uma das razões por que nós portugueses ganhámos, num espírito muito comum que é desmerecer tudo aquilo que fizemos, foi porque o Rei de Castela vinha doente, viajando de liteira, e, por conseguinte, não dirigiu bem as operações. Como, de repente, teve de fugir, montou a cavalo e veio de uma única tirada até Santarém, sessenta quilómetros, três horas segundo alguns autores, ou seja, veio a uma velocidade de vinte quilómetros por hora.

Doente!!! Claro que não passa pela cabeça desse historiador o que é fazer aquilo! Montado,  escarranchado, sessenta quilómetros de uma única tirada. Quem me dera a mim fazer o mesmo estando doente!!!

Na sua vertente de historiador equestre, e tem escrito bastante, foca muito o aspecto do cavalo funcional guerreiro!

Tenho de escrever mais! Toda a História tem a sua razão de ser e a da evolução do cavalo foi aquilo que os militares queriam que ela fosse, por sua vez, esta foi aquilo que os militares precisavam. É uma frase redonda para dizer que o cavalo foi evoluindo de acordo com as necessidades da sua utilização em combate. Para aumentar a probabilidade de se sobreviver não se pode carregar com um cavalo que seja lento, este tem de ser rápido. Na equitação do final da renascença, aquela que deu origem à táctica do caracol e do carrossel, ia-se armado de pistola, o que pressupõe um cavalo próprio para isso, e é para isso que o nosso cavalo serve, cuja origem é a gineta, do combate com lança contrapesada. Nós portugueses somos os últimos combatentes à gineta, porque esta deixa de ter razão de ser com a queda do Reino de Granada, mas nós continuámos no Norte de África por mais duzentos anos. Quando estive no Norte de África por causa de uma investigação, o Director da coudelaria do estado Marroquino disse-me que os melhores cavalos que lá tinham eram os de Mazagão, no fundo, o último sítio onde estivemos e, naturalmente, esses cavalos eram descendentes dos cavalos portugueses, segundo a sua opinião.

Qual era essa investigação?

Fui com a Maria do Mar Oom que estava a investigar para a sua tese de doutoramento, onde era preciso comparar o cavalo Lusitano com o Berbere. Chegávamos e dizíamos que queríamos ver cavalos Berberes e lá vinham uns parecidos com os Veiga, menos finos, atente no que lhe digo: só parecidos! Perguntávamos: “Tem papéis, genealogia?” e eles respondiam: “Tem!”, ao que contrapúnhamos: “Então não quero ver o cavalo para nada!”, porquê? Porque só os cavalos cruzados com árabe é que tinham papéis, ou seja, o berbere autêntico estava a desaparecer, ou melhor, a ser forçado a desaparecer ignorado pelos serviços oficiais marroquinos, exactamente o que aconteceu aqui em Portugal, só tinham papéis os cavalos que eram cruzados. Em Portugal, os cavalos ibéricos autênticos não tinham, eram ignorados.

No fundo, qual a relação do cavalo Lusitano com o Berbere?

Eu julgo que é muito próxima, à vista, o modelo... Já a equitação que eles praticam é pouco elaborada, mas note que também é de estribo curto.

De cá para lá ou de lá para cá!?

Eu digo que foi de cá para lá! Ia jurar! A teoria, a linha de pensamento, que já vem do Ruy d’Andrade, do seu filho Fernando Sommer d’Andrade e sintetizada pelo Arsénio [Raposo Cordeiro], é de que o cavalo é domesticado na península e não na Ásia! Aquilo que o Arsénio diz é, quanto a mim, exactamente aquilo e não pode ser de outra maneira. A versão oficiosa de que o cavalo saiu daqui com a glaciação e voltou já domesticado é uma tontaria que não tem pernas para andar, contudo havia aqui uma coisa complicada, é que nós tínhamos os vestígios ósseos até ao würm, a última glaciação, e depois só voltamos a ter vestígios ósseos, dois mil anos antes de Cristo, já pós a domesticação do cavalo.

O cavalo nunca saiu da península, pois, entretanto, surgiram os vestígios ósseos. O último reduto onde este podia ficar com a glaciação era aqui na península. Curiosamente, os vestígios mais antigos que encontramos foi na Coudelaria de Alter como defende o professor Jorge Oliveira (6000 a.C).

Oficialmente, acaba por ser a face mais visível do Estado Português no pós 25 de Abril no que concerne os cavalos!

Os serviços de equídeos são os mais antigos do Ministério da Agricultura e sempre atravessaram o tempo. Repare que a Fonte Boa era a Coudelaria Nacional e depois instalou-se lá a Estação Zootécnica, e, portanto, serviços do estado a apoiar a criação sempre existiram de forma continuada como em nenhum outro serviço existiu.  Hoje, numa fase com um sucesso como nunca tivemos, e que parece que pode correr tudo bem, é preciso ter cuidado: construir é difícil e destruir é num instante, veja Alter, tinha uma equipa capa que acabou, tinha um papel importantíssimo enquanto melhorador em termos de História e de património histórico. Dar cabo disso é muito arriscado. No presente temos a raça lusitana que, do ponto de vista zootécnico, é o nosso maior sucesso. Nunca fizemos nada tão bem feito como o cavalo lusitano, com vinte e tal associações a nível mundial, tudo organizado e gerido por Portugal. Temos de estar orgulhosos, as circunstâncias foram felizes, mas o Estado português, que sempre apadrinhou e apoiou, retirou-se completamente do processo. Fico preocupado...

Quando ingressa neste mundo da criação e da gestão do cavalo fá-lo numa altura em que vai logo ter um papel muito importante, nomeadamente em 1979, com a criação da EPAE?

Fui convidado em 1977 para assumir funções a convite do professor Vaz Portugal, Director da Estação Zootécnica e, posteriormente, Ministro da Agricultura, que queria separar as águas. Segundo ele o cavalo não tinha nada a ver com a criação das outras espécies pecuárias, ele queria uma estação zootécnia para estas espécies e criar estruturas próprias para o cavalo, e assim, o cavalo teve de abandonar a casa que inicialmente era dele e só dele. Uma das várias iniciativas que tomámos foi exactamente seguir uma ideia que estava no ar, a de criar a EPAE. A ideia que veio do Dr. Ruy d’Andrade e que o Eng. Fernando Sommer d’Andrade apadrinhou. Fomos nós dois, eu e o Fernando Sommer d’Andrade, que criámos uma equipa com o Guilherme Borba, o José Athayde, o Filipe Graciosa e o Francisco Cancella de Abreu.

Para a maior parte das pessoas o papel do Fernando Sommer D’Andrade na fundação da EPAE é completamente desconhecido...

Um papel muito grande, até a Dª. Maria, sua mulher, desenhou as casacas. O azul eléctrico das casacas só se podia ver sob as luzes eléctricas (risos). O José Athayde estava na Coudelaria de Alter e o Guilherme Borba, nessa altura estava de licença em casa, o Cancella de Abreu estava na Herdade da Agolada com o Engenheiro Fernando Sommer d’Andrade. Em conjunto com o Filipe Graciosa, que tinha acabado de entrar para a Fonte Boa, encontrávamo-nos uma vez por mês para confrontar o trabalho. Quando fomos a Paris ao Salon du Cheval foi logo ao fim de quatro meses desde a fundação da EPAE. Uma viagem completamente heróica, levámos os cavalos numa camioneta cedida por um toureiro, penso que foi o Mestre David RibeiroTelles, viajando à velocidade máxima de oitenta quilómetros por hora, dormindo nos carros com um frio enorme e ao lado de hotéis (risos). Íamos parando no caminho, comendo na borda da estrada, e fomos ficar a casa do Mestre Roger Bouzin antes de partimos para Paris.

Passos seguintes?

O Francisco Cancella de Abreu saiu logo e entrou o João Trigueiros. O José d’Athayde vai ser o primeiro Director da Escola, saindo da Coudelaria de Alter e vem para assessor na Federação Equestre Portuguesa em Lisboa. Entretanto, os cavalos vão para a Sociedade Hípica Portuguesa no Campo Grande, e o Guilherme Borba, que veio a ser o segundo Director, organizava reuniões periódicas em que abordava o tratado do Manuel Carlos d’Andrade, discutindo técnicas de equitação. O Guilherme corporiza o espírito e será o doutrinador da equitação da EPAE. Entretanto, em 1983, após uma reunião com a Simoneta Luz Afonso, e após as terríveis cheias que destroem as estufas, surge a possibilidade de requalificar o espaço das mesmas enquanto picadeiro para fazer apresentações no Palácio de Queluz.

Rapidamente a EPAE começa a ter um reconhecimento surpreendente: a Rainha Isabel I, Ronald Reagan...

A Rainha até colocou os óculos para ver melhor! (risos). O que se passa é curioso, é como se houvesse uma ânsia das pessoas por recuperar aquele património, e que bom que a Escola era para nós! O próprio Estado mobilizou-se, não foi avesso, pois, os políticos perceberam a sua importância. O Ministério dos Negócios Estrangeiros convidava-nos frequentemente. Vivíamos com enormes problemas de orçamento, mas com uma vontade tão grande que, muitas vezes, oferecíamos e íamos pro bono. Por outro lado, a ideia foi sempre a de levar o projecto para o picadeiro de Belém! As voltas que se deram! Estava quase, o Primeiro Ministro António Guterres, aconselhado pelo então Ministro da Agriculta Eng. Fernando Gomes da Silva, fez uma sessão solene com todas as autoridades a dar o projecto por garantido, criou-se uma comissão presidida pelo Dr. Rui Vilar, o dossier foi entregue e, mais uma vez, não conseguimos, desta feita pela mão do Primeiro-Ministro José Sócrates, que o impediu, pois era um projecto pequeno e barato comparado com o que veio a ser o novo Museu dos Coches.

José Athayde, Guilherme Borba e Filipe Graciosa...

O Guilherme Borba era um indivíduo muito especial, com um gosto imenso pela equitação, pelo saber fazer e praticar, aliás como acontecia com o José Athayde e o Filipe Graciosa, cada um com as suas características, mas o Guilherme foi a certa altura o homem providencial para a EPAE e o Filipe o continuador do Guilherme, até porque estávamos nos serviços do Estado, em que tem de haver uma hierarquia e um perfil, o Filipe tinha, tal como o Guilherme, as duas valências, a de ser veterinário – técnico superior – e também um virtuoso da equitação.

A sua vida profissional não se limitava à EPAE! Temos de falar do Cavalo Lusitano! Do Puro Sangue Lusitano...

Dedico-me desde 1977/1978, estudando o assunto com paixão. Confesso que fui “mais ou menos” contra e a favor ao surgimento da Associação de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano (APSL) e explico-lhe porquê! A primeira noção que temos de ter é que o stud-book não nasce em 1967 e sim em 1889, falamos de um stud-book em que se inscreviam os cavalos que tivessem sangue estrangeiro, pois os nossos “ibéricos” só a partir da terceira geração, os filhos não entravam no stud-book.

Em 1942, os serviços do Estado na Fonte Boa, na altura os serviços mais dinâmicos ligados à criação, através de um homem que foi decisivo chamado Furtado Coelho, decidem que vão criar o cavalo Lusitano, apelidando de “lusitano” os animais que se enquadravam num padrão que eles tinham na cabeça, e a partir do qual, começaram a seleccionar. Claro que, os cavalos da Fonte Boa, os seus garanhões e éguas entraram para o lote, o mesmo acontecendo com os seus descendentes que foram engrossando esse mesmo lote, bem como de outros criadores. Em 1967, esse stud-book passa do Estado para a Associação de Criadores Raças Selectas, a qual redefine o Regulamento desse stud-book, com a “porta” aberta a Espanha e a todos aqueles que até quarta geração não tivessem animal espúrio. Foi nessa altura também que houve a célebre desavença com Espanha pois os serviços lá eram militares, muito rígidos, e nós civis. A esse propósito lembro-me de uma história engraçada e ilustrativa: estava em Jerez no tempo dos militares, e dizia-me um Comandante (Major), que o cavalo espanhol não é um e sim três cavalos: o da frente, o do meio e o de trás. Nós por cá começámos a trabalhar em ritmo acelerado. Em 1982, o stud-book, que até então era aberto a todos os animais que não tivessem até à quarta geração um animal espúrio (árabe, inglês, e tiro ligeiro como o HacKney) é fechado, assim ficando, até que surge aquela confusão com o Judio, que levou à suspensão do artigo 18, o qual permitia a entrada de sangue espanhol.

Fala sempre com muita admiração de Furtado Coelho...

Como dizia o Filipe [Graciosa] era um veterinário que sabia pôr uma gravata! Um homem ligado à ciência e à investigação que instituiu as provas morfo-funcionais na Fonte Boa, com apoio laboratorial, análise de esforço e a quem muito se deve. Devia ser mais conhecido, pois foi uma peça angular no processo de recuperação do lusitano em 1942.O José Monteiro foi seu continuador e o Fernando Sommer d’Andrade, que foi estagiário na Fonte Boa, herdou aquela disciplina e, durante décadas, liderou com o seu prestígio e autoridade, impondo um conjunto de regras associadas a essa mesma política e filosofia.

Mas ainda não me respondeu porque era contra e simultaneamente a favor do projecto do Arsénio Raposo Cordeiro e da APSL?

A minha relação era enquanto espectador e numa conjuntura de pessoas às quais estava ligado que não queriam aquela separação e naqueles moldes, até porque sou muito avesso a mudanças abruptas. Diga-se de passagem, que acabou por correr muito bem! Estive contra e tomei posição na designação “Puro Sangue”, hoje considero-a brilhante.

A explicação que o Arsénio lhe dá no seu livro é técnica: só se pode chamar “pura-raça” ou “raça-pura” se se tiver seis gerações puras, e só pode chamar-se “puro sangue” se tiver oito gerações puras. Ora, naquela altura, não havia. Hoje não, estamos à vontade, merecemos o nome, somos “puro sangue” de pleníssimo direito porque todos os animais têm mais de oito gerações, seguramente mais de dez gerações, tecnicamente está tudo correctíssimo.

Qual a razão que justifica o sucesso da raça Lusitana?

É espantoso!!! Não há nenhuma criação europeia que tenha um caso parecido com o nosso. É único! Passo a vida a matutar nisso, à procura da razão deste sucesso e penso que a resposta está no facto de que, olhando para uma manada, identificam-se os exemplares que são lusitanos, pois efectivamente são fenotipicamente uma raça, têm caracteres comuns que mais nenhuma raça tem, são todos muito iguais entre si. A beleza do cavalo, espírito de pertença a uma população, tem muito a ver com o sucesso da raça.

Depois, é a ideia de que aquilo é um produto nacional, querido, apoiado por toda a gente, incluindo o Estado Português. É um bem nacional que todo o país acarinha e apoia, a começar pelas instituições, pelos registos, pelo controlo de filiação. Este preservar, esta consciência e veracidade é tal que o tornou apetecível a pessoas de outras culturas, e depois há ainda a referir a qualidade intrínseca do animal.

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Neste processo, penso que o Modelo e Andamentos foi decisivo e surpreendente: como é que nós em Portugal aceitámos a tirania de alguém vir de fora dizer quem é (e não é) reprodutor?

Na nossa vivência não aceitamos este tipo de ingerência, mas nesta situação aceitámos, e mais, aceitámos a publicação da pontuação, o que, nem em Espanha, acontece. Naturalmente hoje a pontuação tem menos importância, mas há alguns anos não era assim, e aceitámos!

Perfil recto ou levemente subconvexo?

Essa foi a grande alteração inserida no novo padrão. Antigamente, aceitavam-se ambos os perfis, esta alteração foi decisiva e o resultado óptimo para marcar o tal modelo único. Hoje, já posso dizer que é evidente que o cavalo não pode ter um perfil recto, e o Arsénio tinha razão, num cavalo todo arredondado não faz sentido ter um perfil recto, o recto é do árabe e, portanto, foi desaparecendo. Claro que por vezes é por demais subconvexo, fica feio, é um desvio!

Genética ou alimentação?

As duas coisas! O Bruno tem no seu livro uma afirmação do Diogo de Bragança (Lafões) que considero a mais interessante, quando este afirma que até à década de setenta [do século passado] só se montavam pilecas. A melhoria do cavalo é brutal, o grande salto da qualidade do mesmo foi a alimentação.

Antigamente, as éguas e os poldros sofriam o ciclo da fartura e da fome, o que levava a que, quando se ia escolher um reprodutor, não se sabia se ele tinha aquele tamanho porque passava fome ou por alguma razão de origem genética. Agora, bem alimentados, já se pode seleccionar com menos uma incógnita [alimentação] e centrar-se na genética, ao seleccionar pelo tamanho, mas é preciso ter muito cuidado com esse caminho, pois, ao tamanho, tem de se acrescentar o reforço do sistema ósseo-articular. Uma coisa tem de andar a par da outra.

Falámos de genética e de maneio, agora temos de abordar o treino e a funcionalidade...

Fiz uma grelha de avaliação e aprovação de garanhões que mostrei ao Sr. José Manuel de Mello na qual, entre outros parâmetros, vinha a funcionalidade. Ele não concordava porque julgava não haver animais em número suficiente julgados funcionalmente. Procurei mostrar-lhe que, já na altura, havia muitos animais que davam prova do valor naquilo que faziam. Mas claro, a primeira coisa é estar dentro do modelo, nunca fora do modelo, depois vem a funcionalidade. Alter, já deve ir na vigésima geração, cerca de 200 anos. A maioria dos cavalos têm doze gerações documentadas, ou seja, cento e vinte anos.

O padrão é o de agora, a única alteração é a do perfil. Conseguimos recuar e encontrá-lo escrito pelo Rei D. Sebastião no século XVI. Esse padrão é já muito parecido com o de agora, não há alteração. O próprio Pinto Pacheco [em 1670], no seu tratado sobre a gineta, defendia a relação entre modelo e funcionalidade.

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É a “menina” dos seus olhos, a Coudelaria de Alter?

Hoje não há cavalo na modalidade olímpica de Ensino que não seja Alter ou próximo (tirando o Alcaide). Tenho escritos de quem dirigiu a coudelaria militar, com a intenção de criar cavalos de fileira, demonstrando que o cavalo Alter já não existia nessa altura, ou seja, durante a primeira metade do século XX. Nunca me esqueci disso e, quando lá cheguei – em 1996 – dei continuação ao trabalho que se vinha a desenvolver, procurando suprir todas as dificuldades de maneio. O que importava então era o cavalo, desde a alimentação à selecção, e já não as outras espécies pecuárias. Os reprodutores eram exclusivamente garanhões que estavam na EPAE, os poldros eram criados no mouchão da Casa Branca, depois de recolhidos, os melhores iam para a EPAE, eram lá testados e treinados refazendo o ciclo do tempo do rei D. José, se fossem bons passariam a reprodutores, e os resultados começaram a aparecer.

Uma questão que a muitos intriga: o que é a Linha Antiga de Alter?

Quando os militares largam Alter, os serviços coudélicos, com a influência de Ruy d’Andrade, recuperam onze éguas entre as cento e vinte existentes, ou seja, aquelas menos infectadas de sangue exterior/espúrio. Essas onze éguas, que, por acaso, eram castanhas, pois nunca se tinha seleccionado pela cor, são aquelas que estão ou mantêm a linha chamada “antiga”, animais mais difíceis de cabeça.

Mais tarde, introduziu-se o Vidago, ferro Sommer d’Andrade, e depois o Xaquiro. Manter esta linha é de grande importância para a variabilidade da Coudelaria de Alter e mesmo da raça.

Conselhos e alertas...

O grande alerta tem a ver com a EPAE e a Coudelaria de Alter. Se a primeira está a correr muito bem, porque está inserida na Parques de Sintra - Monte da Lua, que dela gosta, já em Alter não é bem assim. Não há ninguém ao nível do Estado que aconselhe e supervisione. Não se pode pedir aos criadores, através da APSL, para olhar para o todo e não para a “sua” parte.

Outra dimensão, é a de acrescentar saber e valor, Alter, no topo da pirâmide, poderia ser a mostra para o estrangeiro, a imagem do país, seu emblema, de algo de que se gosta no país, do nosso saber e cultura. O que não pode acontecer – e para onde se está a caminhar – é para um hotel com uma coudelaria e não o que sempre se pensou e desejou que foi uma coudelaria com um Alter!

A concluir, qual o legado de João Costa Ferreira?

O João Costa Ferreira, nas suas limitações, é um homem que está orgulhoso do trabalho que fez do ponto de vista administrativo, dentro das infra-estruturas, alguém que conhecendo a “máquina” e estrutura do Ministério da Agricultura, conseguiu defender o cavalo e fazer vingar a EPAE e Alter, contornando as imensas dificuldades do ponto de vista administrativo e orçamental. Não gostava de concluir a falar de mim e sim do Lusitano. Quisemos juntar tudo: beleza, funcionalidade e bondade. Quisemos o mais difícil, daí a importância do modelo e da selecção. Não foi nada fácil! Sair daí é o meu pavor!!! É o maior sucesso entre todas as espécies criadas em Portugal, de um processo iniciado em 1942 e que tem oitenta e dois anos de trabalho continuado.

 

Fotos: Bárbara M. da Costa/Equestrez

Este artigo foi publicado originalmente na edição número 142 da Revista Equitação.

Autor:

Bruno Caseirão

equitacao@invesporte.pt

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