Lusitano. 11 NOV 2020

Cavalo Lusitano: o que preservar, modificar e inovar?

O colaborador da Revista Equitação, Bruno Caseirão desafiou diversas personalidades ligadas ao Puro Sangue Lusitano para responder as estas questões, numa rubrica que iniciamos hoje.


Tempo de Leitura: 11 min

Foto: arquivo/EQ

O Cavalo Puro Sangue Lusitano é um dos melhores embaixadores de Portugal. Síntese da nossa História e de toda uma filosofia em torno do cavalo, de criação e equitação. Com uma existência que encontra as suas raízes há milhares de anos, mencionado e identificado desde a Antiguidade, foi, enquanto cavalo ibérico, considerado como o melhor da Idade Moderna (Sec. XVI a XVIII), e cuja influência se espraiou com os Descobrimentos ao “novo mundo”.

Com o início do século XIX, vemo-lo a perder relevância para as novas raças de Puros-sangues Árabe e Inglês, mais tarde ainda, para cavalos de tiro ligeiro. A partir de finais do século XIX, com Silvestre Bernardo Lima, e já no século XX, com Manuel Tavares Veiga e Ruy d’Andrade, assistimos ao início de um longo período de recuperação, que naturalmente incluiu a participação do Estado Português, com a recuperação da Coudelaria de Alter, o projecto da Fonte Boa e a criação do stud-book. Já em finais do século passado é criada a Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano (APSL) que tem como missão valorizar, promover e gerir a raça a nível mundial.

Com características e padrão há muito definidos e por diversas vezes validado, o Lusitano encontra-se na actualidade num dos seus melhores momentos. Para tal muito tem contribuído o facto de ser considerado unanimemente como o melhor cavalo de toureio, bem como, o enorme destaque alcançado nas disciplinas de equitação de trabalho, esta em franca expansão e, em particular, no ensino.

A equitação de trabalho é a expressão e síntese contemporânea de uma identidade de equitação edificada em torno do cavalo lusitano, do nosso legado e tradições equestres (criação, equitação, trajes, correaria, exibições coletivas associadas a festividades, etc.). De uma utilização funcional que foi estilizada e tornada desportiva, captando praticantes e adeptos em todo o mundo, com enorme sucesso enquanto disciplina já federada na Federação Equestre Portuguesa (FEP) e que também o tende a ser na Federação Equestre Internacional (FEI).

Já o ensino tem verdadeiramente catapultado o Lusitano para um lugar de grande destaque no âmbito da alta competição internacional. No ano passado (2019) vários lusitanos se destacaram em várias competições de grande importância para o ranking mundial. Maria Caetano, com Coroado, ultrapassou pela segunda vez a fasquia dos 80% (feito que tinha inaugurado em 2018) e Claudio Castilla Ruiz transpôs pela primeira vez essa mesma fasquia com Alcaide. Já a equipa, formada por Miguel Ralão com Xenofonte d’Atela, Duarte Nogueira com Beirão, Rodrigo Torres com Fogoso e João Torrão com Equador, fez história ao ganhar a FEI Dressage Nations CUP em Hickstead no Reino Unido, para logo em seguida, outra equipa, esta formada por Maria Caetano com Coroado, Duarte Nogueira com Beirão, Rodrigo Torres com Fogoso e João Torrão com Equador, garantir o apuramento para os Jogos Olímpicos de 2020 (entretanto adiados para 2021 devido ao Covid-19), jogos esses – saliente-se – que segundo tudo leva a crer contarão com a presença de mais lusitanos integrados nas equipas de outros países, inclusive a espanhola, em detrimento do cavalo Pura Raza Española.

Segundo o ranking de ensino da FEI (Julho de 2020, com 888 conjuntos) Claudio Castilla Ruiz com Alcaide surge em 35º, Maria Caetano com Coroado em 38º, João Torrão com Equador em 46º, Rodrigo Torres com Fogoso em 73º e Anne Sophie Serre com Actuelle de Massa em 74º.

Por último, devido a estes resultados, segundo as últimas listas publicadas em Julho de 2020, o lusitano – com a particularidade de ser um stud-book fechado – ascendeu a um impensável quinto lugar enquanto raça mais utilizada em ensino pela World Breeding Federation for Sport (WBFSH). Para tal contribuiu os resultados no ranking individual dos cavalos de desporto em ensino por criador, em que nos 100 primeiros lugares de uma longa lista de 533, Equador (Coudelaria Monte Velho) em 17º, Actuelle de Massa (Sylvain Massa) em 18º, Beduino LAM em 44º, Exporim (Coudelaria Monte Velho) em 89º. Ainda no âmbito da WBFSH, na lista dos melhores garanhões (e sua progénie para ensino) Rubi AR surge em 31º lugar, seguido de Hostil JB em 63º e Rico JB em 68º.

Este histórico recente faz com que o Lusitano esteja cada vez mais presente no seio do ensino de alta competição internacional, atente-se nas constantes referências em meios de comunicação nacionais e internacionais da especialidade, nas redes socais e até pelo destaque conferido pela Federação Equestre Internacional (FEI) nas suas comunicações.

Esta projeção do Lusitano no ensino – ao contrário do que acontece na equitação de trabalho em que há um “casamento perfeito” entre a raça e a disciplina – contribui para o seu melhoramento (seleção, andamentos, funcionalidade, resistência e treino), mas tem também desenvolvido o receio de que, devido à sua crescente expressão e em virtude das suas especificações, se possa estar a desvirtuar o cavalo Lusitano.

Este receio surge do facto de, se por um lado a própria disciplina de ensino se “aproximou” das raças ibéricas, dobrando o coeficiente nos exercícios de maior reunião em que as mesmas se destacam, por outro, muitos dos exercícios aí praticados exigem uma maior extensão/alongamento, amplitude e cadência de andamentos, o que, por vezes, tem levado a uma utilização de exemplares morfologicamente mais próximos dos warmblood (frequentemente maiores, inscritos num retângulo, mas também no âmbito do fenótipo), correndo-se o risco de se poder estar a caminhar para um afastamento do padrão da raça e perda de polivalência de funcionalidades. Inclusive, até pela seleção e escolha de reprodutores, existe também o perigo – agora possivelmente mais reduzido, como veremos em seguida – de se afunilar em termos da variabilidade genética o que, no futuro, se poderá revelar prejudicial.

Nesta expansão do ensino tem-se notado também um afastamento progressivo de alguns criadores dos outrora tão célebres e determinantes concursos de modelos e andamentos, os quais – muitos promovidos por organizações regionais – se praticam cada vez em maior número, inseridos em novos eventos criados em torno do cavalo.

Esta nova realidade do ensino, em que uma raça polivalente está progressivamente a ser selecionada maioritariamente para uma disciplina específica, acaba por encontrar o seu epicentro na APSL, que, responsável pela raça e olhando o Lusitano como um todo, tem desenvolvido ações no sentido de acompanhar as transformações entretanto ocorridas, inclusive na procura da “síntese” entre aquilo que se considera essencial, nomeadamente o padrão, e a modernização, como são exemplo: as alterações na aprovação de reprodutores, a inclusão da tabela padrão ou o projeto de ensino com Kyra Kyrklund, Daniel Pinto e Miguel Ralão.

Ainda no âmbito da modernização – e que poderá ser uma novidade para muitos – surge o projeto “vital” que a APSL está a desenvolver em articulação com o Banco Português de Germoplasma Animal (BPGA) da Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) com o intuito de preservar, conservar e salvaguardar património genético, assegurando assim a preservação de linhas e a variabilidade da raça lusitana.

É neste cenário, tão favorável ao cavalo Lusitano, abruptamente suspenso pelo surgimento da pandemia do vírus covid-19 em meados de Março deste ano, que se procurou ir ao encontro de destacadas figuras no universo do cavalo Lusitano, stakeholders da raça, para, recorrendo a três linhas condutoras: (o que) preservar, modificar e inovar, nos elucidem sobre como veem e pensam actuar nesta conjuntura (pandemia) e, sobretudo, como anteveem, desejam e preparam o futuro, inclusive, por esta constatação tão peculiar em que o cavalo parece ter agora mais liberdade que o próprio homem!

Os seus testemunhos serão publicados ao longo dos próximos dias, pelo que vos convido a estarem atentos ao Portal e Redes Sociais da Revista Equitação! 

Alguns dos quais, já pode ler em baixo:

Autor:

Bruno Caseirão

equitacao@invesporte.pt

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