Reprodução. 21 ABR 2020

O cavalo e a égua: cada época mais distantes

Com o começo da época reprodutiva, fui convidado pela Direcção da Revista Equitação a abordar o assunto sob uma vertente que possa ajudar os criadores a organizar e planear a reprodução das suas éguas.


Tempo de Leitura: 5 min

Não pretendo com este pequeno artigo substituir-me à imensa sabedoria dos nossos criadores, demonstrada à evidência pela evolução e dinamismo que a nossa raça lusitana vem denotando desde há anos a esta parte, pelo brilhantismo das suas performances internacionais, fruto seguramente, que no capítulo interno se está a trabalhar bem, produzindo animais de grande funcionalidade e alto rendimento. Pretendo somente levantar uma série de questões que sempre convém lembrar em tempo oportuno e que possam ajudar a alinhar alguns assuntos atinentes a uma época de reprodução que já está a começar.

Primeiro é sempre preciso decidir por onde se quer ir e onde se quer chegar e depois escolher, dentro dessa linha, o que se julga ser o melhor para atingir os nossos objectivos. Mais do que em qualquer outra espécie animal, cada indivíduo é um indivíduo com características próprias e, portanto, também a merecer um tratamento individual distinto. Assim, e uma a uma, escolha dentro do leque das suas possibilidades e disponibilidades, os cavalos com que pretende fazer os emparelhamentos das suas éguas, sempre uma a uma.

A ideia de ter um cavalo para todo o efectivo remonta à década de 80 do século passado e está muito ultrapassada e em minha opinião não fará nenhum sentido, até porque repare-se na disponibilidade que hoje em dia há através de sémen fresco ou congelado, em Portugal ou fora de Portugal, em escolher o cavalo que julgamos “ir melhor” com cada égua.

Relembro aqui que na aludida década de 80 com genética da “Fonte Boa” disponível e gratuita, já havia criadores que a rejeitavam e escolhiam os reprodutores, comprando os que julgavam mais interessar à continuidade do seu efectivo. Estes seguramente chegaram primeiro onde queriam, e provavelmente nos tempos de hoje recolhem o retorno do investimento de então.

Se não sabe por onde começar, faça alguns contactos com colegas criadores ou contacte centros autorizados a congelar sémen e pergunte o que é que poderá “haver por lá” (se optar por esta via o proprietário terá sempre que autorizar a utilização do sémen, querendo geralmente saber a que coudelaria e a que égua se destina).

Há sempre possibilidade de ano após ano ir melhorando a genética dos efectivos e se isto acontecer as “camadas” mais novas serão tendencialmente melhores que o grupo donde provieram e assim o resultado global para a coudelaria será também um caminhar gradual para atingir a qualidade e depois a excelência.

 

cavalo

Faça um orçamento para esta actividade (eu sei que os gostos não se orçamentam, mas pode ser um fio condutor que segue paralelo ao gosto).

Se tem cavalos congeladores de boa genética e com mercado melhorador, ou se esta ideia “já lhe passou pela cabeça”, identifique os mercados compradores onde podem chegar e mande congelar um número de doses que possam servir as suas intenções.

Se já tem algum cavalo ou cavalos com sémen congelado, não se esqueça deste activo e promova-o onde melhor achar, por forma a poder tirar partido do investimento que já fez.

O sémen congelado não é para estar guardado nos contentores, mas sim para fazer filhos na “barriga” das éguas.

Levantei “en passant” alguns assuntos ligados à reprodução e à necessidade de a pensar e programar atempadamente, que é sempre melhor, julgo eu, do que ir decidindo dia após dia, sem uma linha condutora que também ajuda a facilitar o trabalho dos vários agentes que interferem no sucesso desta actividade, que ao fim e ao cabo é termos poldros a nascer no ano vindouro provenientes das nossas melhores matrizes.

Quando um poldro nasce já traz consigo todo um conjunto de trabalhos, desde a ilusão do seu proprietário no emparelhamento decidido, ao trabalho na coudelaria proprietária do cavalo, ao trabalho na coudelaria proprietária da égua e da ajuda que os veterinários também dão, ligando os dois seres que são os principais protagonistas nos objectivos a atingir: o cavalo através do seu sémen em fresco ou congelado e a égua. Bons partos com bons poldros, é o que se deseja!

 

Autor: José Carlos Duarte, Médico Veterinário

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