Nutrição. 15 ABR 2020

Como alimentar cavalos com úlceras?

A Síndrome de Ulceração Gástrica Equina (SUGE) define várias alterações da mucosa esofágica, gástrica ou duodenal, da inflamação à ulceração.


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Esta síndrome tem sido alvo de uma atenção crescente, devido à elevada prevalência que apresenta, particularmente nos cavalos de desporto, e às repercussões sentidas na performance e no bem-estar dos animais afectados.

Os sinais clínicos da doença podem incluir redução ou perda de apetite, perda de peso,  má condição do pêlo (pêlo baço), relutância em trabalhar, perda de performance, bruxismo (“o ranger dos dentes”), dor abdominal (cólica), entre outros. O diagnóstico da doença deverá ser feito por um médico veterinário, passando por um correcto exame clínico e pelo recurso à gastroscopia.

Esta é uma síndrome de etiologia multifatorial. O stress, o maneio alimentar, o tipo e intensidade de exercício, o confinamento e tipo de estabulação, bem como a administração de anti-inflamatórios não esteróides, são alguns dos factores de risco para o desenvolvimento da mesma. Um maneio alimentar adequado é parte fundamental na prevenção e controlo desta síndrome. Esse maneio deve considerar:

1. AUMENTAR O TEMPO DE MASTIGAÇÃO E REDUZIR PERÍODOS DE AUSÊNCIA DE ALIMENTO

Aumentar o período de mastigação e diminuir os períodos de ausência de alimento é fundamental no maneio alimentar destes cavalos, o que pode acontecer facilitando o acesso a pastagem, fornecendo feno ad libitum ou promovendo uma ingestão mais lenta do alimento forrageiro, recorrendo a técnicas como as redes de malha fina, em cavalos estabulados. Este acesso permanente ao alimento forrageiro promove uma secreção contínua de saliva. A saliva é rica em minerais e bicarbonato, uma substância com efeito tampão que funciona como um antiácido natural no estômago. Assim, a salivação desempenha uma função de protecção da mucosa gástrica, além de humedecer o alimento, favorecendo o trânsito e a penetração do suco gástrico no bolo alimentar. Por outro lado, sendo a produção de ácido por parte do estômago contínua, é facilmente compreensível que períodos prolongados entre refeições contribuam para a formação e exacerbação de úlceras.

2. CONSIDERAR O TIPO DE FORRAGEM

Para além de aumentarmos o consumo de alimento forrageiro (≥1.5% do p.v. em matéria seca (MS), p. ex. Cavalo 500 kg p.v. ≥ 7.5 Kg MS), outro factor relevante é o tipo de forragem seleccionada. A escolha de um feno de qualidade é imperativa, estando o consumo de palha desaconselhado como fonte única ou principal de forragem, verificando-se em estudos científicos graus de ulceração superiores associados ao seu consumo. A utilização de feno de luzerna ou a associação de luzerna ao alimento concentrado (“ração”), são medidas consideradas benéficas, considerando o efeito protector da mesma (devido ao conteúdo em cálcio e proteína que apresenta).

3. REDUZIR O CONSUMO DE AMIDO

Outros factores a considerar são a quantidade de alimento concentrado fornecido, bem como a sua composição. Os alimentos concentrados (constituídos maioritariamente por cereais como a aveia, o milho, o trigo) são ricos em hidratos de carbono não estruturais (HCNE, amido e açúcares) e tendem a ser ingeridos rapidamente, minimizando a produção de saliva e o efeito protector do bicarbonato. Simultaneamente, estão associados a uma maior produção de ácidos gordos voláteis (AGV), que por sua vez afectam a integridade da mucosa, tornando-a mais susceptível a lesão.

Estudos recentes recomendam não ultrapassar dois gramas de amido por quilograma de peso vivo por dia ou um grama de amido por quilograma de peso vivo por refeição. Em cavalos de desporto, sendo o alimento concentrado fundamental para suprir as suas necessidades energéticas, o seu fornecimento deverá ser feito privilegiando uma divisão num maior número de refeições, por forma a respeitar essas recomendações.

A escolha de alimentos concentrados para cavalos de desporto com menores níveis HCNE é também hoje possível, sendo igualmente viável a administração concomitante do alimento concentrado com uma forragem à base de luzerna, por forma a beneficiarmos do seu efeito protetor. Esta associação pode, inclusivamente, permitir reduzir a quantidade de alimento concentrado da dieta, considerando o valor nutricional da luzerna adicionada.

4. UTILIZAR A GORDURA COMO FONTE CALÓRICA

O fornecimento de parte das necessidades calóricas através da utilização de gordura é também considerado benéfico. A escolha do tipo de gordura deve ser ponderada, sendo que fontes naturalmente ricas em Ómega 3 deverão ser preferenciais (considerando os elevados níveis de Ómega 6 já fornecidos na alimentação de cavalos estabulados).

5. SUPLEMENTAÇÃO

No mercado encontra-se um vasto leque de suplementos indicados para cavalos com úlceras gástricas. O recurso a essas substâncias deverá ser feito de uma forma criteriosa e considerando os estudos que fundamentam a sua utilização.

Em suma, a SUGE apresenta uma elevada prevalência, sendo os cavalos de desporto os principais candidatos ao desenvolvimento da doença. Práticas alimentares adequadas podem ajudar-nos a reduzir o risco de ocorrência de úlcera, a sua recorrência e o grau de severidade da mesma.

 

Autor: Marta Cardoso, Médica Veterinária

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