Veterinária. 08 ABR 2020

Transporte de Equinos: o que devemos fazer antes de uma viagem?

Passamos a apresentar um artigo da autoria do Dr. João Crespo, Médico Veterinário, sobre o transporte de equinos e os cuidados a ter antes e durante a viagem.


Tempo de Leitura: 11 min

O transporte de um cavalo, seja para um pequeno trajecto ou para uma longa viagem entre continentes, é sempre um momento de preocupação para os detentores. É objectivo deste artigo apontar alguns dos aspectos a ter em consideração com o intuito de minimizar a ocorrência de complicações associadas ao mesmo.

Independentemente do tempo ou da distância, o transporte suscita nos equinos uma resposta que varia de indivíduo para indivíduo. Conhecer o nosso cavalo ajuda a prever algumas destas reacções. De seguida iremos inúmerar algumas das situações mais frequentes e como as abordar

O meu cavalo nunca viajou que cuidados devo ter?

Por natureza os cavalos são receosos relativamente a novos espaços ou ambientes. Quanto maior for o seu contacto com as condições de transporte menor será o estimulo stressante. É importante que o animal esteja familiarizado com as rampas e com as movimentações da viatura. Se o seu cavalo viaja pela primeira vez, vale a pena simular a entrada e saída do carro, assim como a sensação de permanecer no seu interior e a própria deslocação. Dependendo do carácter mais ou menos nervoso do seu animal esta habituação poderá acontecer de forma espontânea na primeira tentativa ou demorar alguns dias. Regra geral esta aprendizagem surge de uma forma muito natural nos animais jovens, mais curiosos por natureza.

O procedimento de carga deverá ser feito da forma mais tranquila possível deixando o animal interagir com a viatura, por forma a sentir-se mais confiante (Foto 2). Não se deve esquecer que os cavalos são naturalmente desconfiados no que diz respeito a situações desconhecidas e, como tal, necessitam do seu tempo de habituação.

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A utilização de alimento no interior do carro ou o uso de recompensas poderá ajudar (Foto 3). Alguns animais viajam melhor acompanhados; tratando-se de uma espécie que vive em grupo a existência de outros animais dentro do carro poderá ajudar a “quebrar o gelo”. Em qualquer circunstância e se o seu animal vai viajar com um transportador não se esqueça de fornecer toda a informação relevante, pois só desta forma ele saberá melhor como lidar com a situação.

Como devo preparar a minha carrinha ou reboque para uma viajem?

A última situação que quer ter durante uma viagem é ter uma avaria mecânica com o seu cavalo no interior; certifique-se que o carro ou reboque está em perfeitas condições mecânicas. A pressão e estado dos pneus assumem uma importância extrema em viaturas que se deslocam esporadicamente. Certifique-se que tem os meios necessários para substituir uma roda com os animais no interior.

A limpeza representa uma pedra basilar para evitar problemas de saúde durante ou após a viagem. Isto é tanto mais verdade quanto maior for a duração da mesma, pois aumenta o tempo de exposição. A viagem por si só constitui um desafio ao sistema imunitário do seu cavalo. O espaço de viagem é confinado e como tal a proximidade com a pele, boca e mucosa nasal é elevada. Estas são as principais portas de entrada para um qualquer agente patogénico. É importante certificar-se que a viatura está absolutamente limpa antes de a utilizar na viagem seguinte (Foto 4). A utilização de aparas ou outro material absorvente é recomendável uma vez que concentra a urina e as fezes facilitando a sua remoção.

Qual a documentação que deve acompanhar o meu cavalo?

No território nacional a legislação actual prevê a movimentação dos cavalos apenas acompanhados pelo seu documento de identificação. Nas deslocações para países da Comunidade Europeia será obrigatória a emissão de um certificado sanitário Internacional também conhecido como TRACES. Para tal, deverá contactar o seu Médico Veterinário ou transportador que o ajudarão neste processo.

Foto 4 (11)

A deslocação para países terceiros está sujeita a requisitos sanitários específicos. Deverá atempadamente informar-se sobre as exigências do país de destino junto do seu Médico Veterinário por forma a levar a cabo todos os procedimentos dentro dos limites previstos. Estes, regra geral, traduzem-se na recolha de amostras biológicas e seu posterior envio para laboratórios de referência. Tenha presente que alguns destes testes poderão demorar até duas semanas antes de serem conhecidos os seus resultados.

Protecção térmica: Devo ou não usar mantas?

Os cavalos são uma espécie perfeitamente adaptada ao frio e como tal deveremos ter sempre esta ideia presente na altura de tomar decisões (Foto 5). Como regra, os cavalos viajam melhor sem manta. O calor produzido pelos seus corpos e pela sua respiração é suficiente para elevar a temperatura de forma considerável no espaço de viagem. Dito isto, se a temperatura no interior do carro for inferior a 10ºC a utilização de uma manta fina poderá ser adequada para um animal tosquiado, deixando de fazer sentido no caso de o pêlo se encontrar no seu tamanho natural. Tenha presente que a temperatura tem tendência a subir tanto mais depressa quanto maior for o número de animais transportados; do mesmo modo também existe uma tendência para a temperatura subir durante o dia e baixar durante a noite. Com temperaturas superiores a 10ºC a utilização de mantas provoca, regra geral, um aumento da sudação com o inconveniente de o cavalo permanecer molhado, num espaço onde a humidade relativa é sempre bastante alta, em consequência da sua respiração.

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Estes aspectos deverão ser tidos em conta antes de optar pela utilização de uma manta de viagem. Todavia não se esqueça que nos meses de Inverno, nos locais de descanso, as temperaturas poderão baixar drasticamente ou ser bastante inferiores ao compartimento de viagem, pelo que o envio de mantas adequadas para colocação nestas circunstâncias é aconselhada.

Ventilação durante a viajem

Este ponto representa talvez o aspecto mais importante por forma a garantir que o seu cavalo não adoece durante ou depois do transporte. No Verão a temperatura no compartimento de viagem não poderá ultrapassar os 35ºC. Para tal ,deverão ser abertas janelas e clarabóias por forma a garantir uma boa circulação do ar. Em carros equipados com ventilação mecânica esta deverá ser utilizada em temperaturas superiores a 20ºC. A vantagem destes equipamentos consiste na remoção da camada de ar mais quente que se encontra na parte superior do compartimento. Se as temperaturas ultrapassarem os 35.ºC pondere a possibilidade de efectuar a viagem durante a noite. A qualidade do ar é outro aspecto favorecido pela ventilação; como regra geral e em caso de dúvida mais vale ventilar a mais do que a menos. Em transportes partilhados esta é inquestionavelmente a forma mais eficaz de reduzir a contaminação cruzada entre os animais.

No Inverno a ventilação assume uma importância ainda maior. A temperatura no compartimento de viagem é, na maioria das vezes, superior ao exterior da viatura. Esta diferença provoca a condensação (Foto 6) do vapor de água eliminado pela respiração dos animais nas paredes do carro. É do conhecimento geral que a maioria dos agentes patogénicos necessita de um maior ou menor grau de humidade sendo este um meio por excelência para ao seu desenvolvimento e propagação. Assim sendo, a única forma de reduzir a humidade relativa no espaço de viagem é através da ventilação. Não tenha receio das correntes de ar, lembre-se que os cavalos estão melhor preparados para o frio do que para o calor.

Alimentação e Abeberamento 

Regra geral os cavalos deverão ter sempre feno à disposição durante a viagem, não nos devendo esquecer que os equinos são animais de ingestão contínua (Foto 7). Em viagens de curta duração uma rede ou saco de feno representa uma distracção e, como tal, é sempre bem recebida por eles. Habitualmente são utilizados sacos ou redes com uma malha fina (3x3cm) de modo a reduzir o desperdício que cai para o chão, ao mesmo tempo que prolongamos a duração da mesma.

A grande maioria dos animais entretém-se demoradamente de volta das redes contribuindo para a redução do stress associado à viagem. Nas viagens de longa duração a ingestão e presença de alimento no estômago evita o aparecimento de doenças associadas ao jejum, nomeadamente a ulceração gástrica. No caso de o seu cavalo sofrer de problemas respiratórios crónicos deverá consultar o seu Médico Veterinário sobre as melhores opções e transmitir essa informação ao transportador.

O fornecimento de água durante a viagem representa muitas vezes um desafio. Na realidade a maioria dos animais rejeita a ingestão de água durante as viagens. Todavia em alturas de maior calor (>30ºC), deverá ser oferecida água fresca em intervalos regulares (a cada 2 a 3h).

Descanso

Nas viagens de longa duração tenha sempre em consideração o correcto planeamento do descanso dos animais. Existe uma série de locais que acolhem animais em viagem onde estes poderão desfrutar de um período de tempo fora da viatura com acesso a material de cama, água e alimento (Foto 8). Estes períodos permitem ao animal repor o seu equilíbrio hídrico e energético assim com reduzir o nível de stress associado ao transporte. A duração dos períodos de condução deverá ter em consideração as características do espaço de viagem da viatura e o nível de conforto que proporciona aos animais, assim como o grau de habituação dos mesmos ao transporte. Períodos de 10 a 14h diárias poderão ser levados a cabo na maioria das circunstâncias.

 

Autor: Dr. João Crespo, Médico Veterinário

 

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