Saltos. 03 AGO 2017

FEP: o descontentamento continua...

Depois dos Raides, também nos Saltos de Obstáculos aumenta o descontentamento com algumas das atitudes e decisões tomadas pela FEP.


Tempo de Leitura: 11 Min

norbert_ell

Tal como Paulo Branco já havia feito, o cavaleiro de Saltos de Obstáculos Norbert Ell fez também ele chegar à redacção da Revista Equitação uma carta aberta. Na missiva manifesta o seu  desagrado para com o modo como foi feita a selecção dos conjuntos escolhidos para representar Portugal no Campeonato da Europa de Saltos de Obstáculos, que se realiza este Verão.

Leia a carta na íntegra em baixo.

 

 

Exma. FEP

A participação num Campeonato do Mundo ou da Europa sempre me havia parecido um sonho pouco menos do que irrealizável. Mas, por vezes, com fé e coragem, até os sonhos mais incríveis se realizam.

Eu sei disso. A FEP também deveria sabê-lo.

Para o caso de não o terem presente, recordo que fui já Campeão, Vice- Campeão e medalha de bronze no Campeonato Nacional de juniores e Vice- Campeão e, por 2 vezes, medalha de bronze no Campeonato de Portugal de Cavaleiros de Obstáculos.

Apesar da minha paixão pelo hipismo, sempre dei prioridade aos estudos e, mais tarde, à minha actividade como empresário.

Após o meu casamento, com o grande estímulo da minha mulher, decidimos iniciar um novo projecto equestre, que nos levasse de volta à alta competição.

Tal processo demorou 7 anos, desde a aquisição dos poldros até ao sucesso nos Grandes Premios de 1ª linha.  Sem qualquer dúvida, o factor mental, de elevadíssima importância no nosso desporto e em qualquer desporto, foi a principal aportação da Carla ao nosso projecto.

Foi asssim que chegámos ao ponto de ter a égua T-Quinta a saltar ao mais alto nível.

Muito complicada e difícil,  considerada aos 7 anos como imontável e sempre a fugir á esquerda à frente dos saltos, admito que cheguei a duvidar dela várias vezes. Não assim a minha mulher que sempre lhe previu um grande futuro.  

Quando, em 2014, a FEP  me convidou para participar nos Jogos Equestres Mundiais em Caen (Fr), não tínhamos ainda a experiência e a rodagem para um desafio daquela dimensão. Não tínhamos sequer participado na nossa primeira Taça das Nações.

Aceitei, consciente da dificuldade do desafio, não querendo desperdiçar a honra e a fantástica experiência. Muito me orgulho de o ter feito e do resultado alcançado.

Agora, à posteriori, posso dizer que foi uma grande estreia na minha primeira representação de Portugal e logo a saltar os Jogos Equestres Mundiais.

Tenho a noção que a minha selecção pela FEP se deveu a lesões e vendas de cavalos da equipa portuguesa, mas acho que foi importante para eu perceber que era capaz de saltar uma prova daquele nível.

Agradeço à FEP por esse convite que foi importante na minha aprendizagem de como preparar um cavalo para um campeonato daquela envergadura.

Participei nele, sem nunca ter tido um treinador ou qualquer outro apoio externo à nossa equipa familiar.

No ano seguinte,  2015,  realizava-se em Aachen o Campeonato da Europa.

No início da época, como sempre, estava longe de fazer parte da equipa, longe da realização do sonho de vir a saltar na cidade de nascimento da minha avó materna, capital mundial do hipismo.

Por conveniência da equipa portuguesa, a FEP desafiou-me a participar na primeira Taça das Nações da minha vida. Bem longe…. em Budapeste!

Com muito sacrifício, decidi fazer as malas e ir fazer umas provas de preparação à Austria. Foi uma lição importante e na minha Primeira Taça das Nações, debaixo de 40 Cº, fiz um duplo zero. Se me recordo bem só houve 2! Que orgulho por ter correspondido à grande responsabilidade que me confiaram de representar Portugal.

Pedi ao chefe de equipa para não saltar o GP. Tal não foi aceite com o argumento de que estávamos lá fora para saltar. O resultado do  GP não foi tão bom: fiz 2 faltas. No final a égua quase desfaleceu.

Logo na semana seguinte deveria fazer a minha segunda Taça das Nações: Bratislava. Mas a égua não estava bem. Pedi para não participar e fui muito bem substituído por um amigo e grande cavaleiro.

Ainda bem que havia um suplente.

Felizmente consegui recuperar a confiança da T-Quinta.

No final deste concurso acontece o inesperado: Eu já estava fora da equipa e das ambições de saltar em Aachen o Campeonato da Europa, mas 1 cavalo da equipa lesiona-se e outro jovem da equipa, em grande forma, decide não participar no Campeonato de Seniores, optando pelo Campeonato da Europa de Jovens Cavaleiros. Para além disso, acontece em Portugal uma tragédia, na qual uma super cavaleira, seguramente a melhor amazona de sempre montando em Portugal, perde em pista, no CPCO, o seu cavalo: falo, obviamente de Marina Frutuoso de Melo e o seu, para sempre inesquecível, Coltaire.

E acontece o imprevisto: eu que estava fora da equipa passo para 3ª  escolha do selecionador e o cavaleiro que me havia substituído na Taça das Nações de Bratislava passa para 4ª.

Ainda bem que havia suplentes.

A minha participação no Campeonato da Europa em Aachen valeu pela experiência única em saltar na catedral do desporto equestre mundial. Acabei por ser o 2º melhor cavaleiro português, atrás de uma Senhora,  Luciana Diniz, sem dúvida uma cavaleira de outro planeta.

Em 2017, 2 anos mais tarde, volto a ter a ambição de me preparar para o Europeu, ambição essa de que informei o seleccionador nacional.

Infelizmente, logo no inicio da época, tive o maior acidente da minha carreira desportiva com rotura na bacia e muscular, complementada por uma pubalgia. Apesar dos médicos ordenarem repouso, dei pouco descanso ao repouso.

Queria manter a T-Quinta em forma e cada semana tentava montar para ver se me encontrava melhor. Tarefa dolorosa e muito complicada.

Apesar de não recomendado pelos médicos e cheio de dores decido dar um fim ao repouso e participar no CSI** da Global Champions Tour de Madrid, única forma e última chance de me preparar para o CSIO de Lisboa, cujo Grande Premio qualificava para o Campeonato de Europa deste ano em Goeteborg, na Suecia.

Não só a T-Quinta faz uma estreia brilhante em Madrid como, logo na semana seguinte, participa no CSIO de Lisboa e consegue qualificar-se para o Campeonato de Europa. Objectivo alcançado !

Durante o CSIO de Lisboa é me apresentado o novo treinador nacional, um senhor de nacionalidade grega.

Foi a única vez que tive o prazer de falar com ele. A partir daí tornei-me invisível…

Como a esperança é a última coisa que se perde, questionamos o seleccionador nacional sobre se havia alguma chance de integrar a equipa, disponibilizando-nos para “fazer as malas” e assumir a preparação, por nossa conta e risco, para o Campeonato de Europa. Não estávamos claramente no núcleo principal da equipa e a ideia era ganhar experiência para, eventualmente, se a performance assim o permitisse, ainda nela entrar, se tal viesse a ser necessário.

A resposta que recebemos, com toda a claridade e frontalidade, foi que  a equipa estava fechada desde Fevereiro e que não valia a pena sonhar se o objectivo era o Europeu deste ano.

Eu não queria acreditar, que uma égua que fez 1 mundial, 1 europeu e que estava em grande forma seria posta de parte sem contemplações.

Decidi então participar no campeonato nacional. Quis mostrar que a égua estava lá e que o nosso conjunto funciona: fomos Vice- Campeões de Saltos de Obstáculos de 2017, à frente de alguns dos “indiscutíveis” da equipa portuguesa.

Mas eis que, novamente, acontece o inesperado:

Confirma-se por via não oficial a informação de que 2 cavalos da nossa equipa não estavam bem e que havia, portanto, uma vaga para um conjunto suplente.

Qual o meu espanto quando chego para montar os meus cavalos esta Segunda Feira á tarde á 17:30 e constato que há no meu clube, na Sociedade Hípica Portuguesa, um treino reservado para a selecção nacional no qual apenas participavam 3 cavaleiros, treino esse que se iria prolongar pela a manhã do dia seguinte.

Fiz questão de estar presente, com os meus 2 melhores cavalos, tanto no primeiro como no segundo dia do treino.

Com autorização do Clube, o campo ficou aberto aos sócios no final do treino da selecção nacional.

Pedi para ser o 1º a utilizar o campo, para aproveitar o percurso e as alturas montadas. Julguei que alguém se podia interessar ….

Estava errado...

Foram-se embora… 

Nem uma palavra,  nem uma abordagem do selecionador estrangeiro sobre os meus cavalos.

Só "bom dia". Nem mesmo "boa tarde"...

Desta vez não haverá suplentes…

A FEP é soberana nas suas decisões, mas o que aqui aconteceu nada tem a ver com desportivismo.

Eu fui um tolo...um sonhador…. Estava tudo decidido em Fevereiro: 6 meses antes do Campeonato da Europa!

E a FEP nada entende de sonhos…

Cada cavaleiro, independentemente do seu escalão de idade, só ganha em participar nestes campeonatos.  A experiência que resulta para o hipismo português  da envolvência neste eventos vale muito, mesmo muito. 

Querida FEP...Nunca tirem gratuitamente os sonhos a ninguém, o milagre pode acontecer.

Norbert Ell

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