Equitação. 16 JUN 2017

Faleceu D. José de Athayde

D. José de Athayde, figura ímpar da equitação e da tauromaquia em Portugal, faleceu ontem, aos 82 anos.


Tempo de Leitura: 10 Min

D José de Athayde

A missa será celebrada às 10h de hoje, na Igreja da Encarnação (Chiado, Lisboa), seguindo depois para Leiria.

À família enlutada a EQUITAÇÃO presta as mais sinceras condolências.

Em baixo, leia o texto de Bruno Caseirão sobre o Mestre, proferido aquando da Homenagem a D. José de Athayde na Feira Nacional do Cavalo na Golegã, em Novembro de 2014.

(Foto retirada do perfil de Facebook de D. José de Athayde.)

 

José d’Athayde

Uma Lenda Viva da Cultura Equestre Portuguesa

 

José d’Athayde é oriundo de uma família da aristocracia de Leiria. Cidade onde nasceu a 5 de Outubro de 1934, ou seja, e embora não o pareça, há oitenta anos.

Tendo começado a montar desde a mais tenra idade, inicia a sua formação equestre, de forma mais académica, se assim o podemos dizer, e nesta a tauromáquica, em 1947, com José Tanganho. Após se ter formado em Engenharia Técnica Agrária na Escola Superior Agrária de Santarém começa a montar com o Eng. Fernando Sommer d’Andrade, grande figura da cultura equestre portuguesa.

Seria contudo em 1950 que iniciará a formação equestre com o Nuno Oliveira, tornando-se seu discípulo na arte da equitação, bem como na adopção, divulgação e sobretudo no “sentir” e pensamento equestre deste Mestre.

Corria o ano de 1953 quando, durante uma temporada larga que passa na Herdade de Fontalva, conhece essa figura mítica dos Homens de Cavalos a quem tanto Portugal deve no estudo e recuperação do seu Cavalo Lusitano, Dr. Ruy de Andrade, o qual o irá marcar de forma indelével. Com rara inteligência e sentido prático D. José d‘Athayde inicia então um fecundíssimo período de aprendizagem da Arte da Equitação, e do que esta comporta de dimensão técnica como de estética, sob a égide de Ruy d’Andrade e Nuno Oliveira.

A dimensão tauromáquica não ficou esquecida e, deste modo, ainda nesse ano de 1953, desloca-se às Filipinas para tourear em Manila. No regresso, dois grandes acontecimentos esperam-no. Torna-se ajudante de picadeiro do Mestre Nuno Oliveira na Quinta dos Arcos e no Picadeiro da Legião Portuguesa na Alameda das Linhas de Torres, e toma alternativa de Cavaleiro Tauromáquico, juntamente com o seu irmão Luís Athayde, a 22 de Junho de 1955, na Praça de Toiros do Campo Pequeno às mãos do Mestre Simão da Veiga.

Inicia então uma carreira de cavaleiro tauromáquico, ao longo da qual ensinará cerca de cinquenta cavalos (só de toureio) e apresentando-se com enorme sucesso e reconhecimento por parte do público em todas as praças portuguesas. Deve-se aqui uma especial referência a cavalos como Cofre ou o hoje mítico Firme, ambos Lusitanos, do ferro Dr. Ruy de Andrade. Prova da sua celebridade é o facto de ter inaugurado as Praças de Touros de Santarém, Alter do Chão e de Idanha-a-nova.

Será contudo em inícios da década de sessenta que, seguramente, se inaugura uma das fases mais importantes e marcantes da longa carreira de D. José Athayde. Após ter prestado provas publicas para Equitador de quadro da Direcção Geral da Pecuária toma posse como Equitador da Coudelaria de Alter, algo que veio a transformar radicalmente a sua vida, tornando-se numa verdadeira “profissão de fé”, e à qual se dedicou de alma e coração.

Na Coudelaria de Alter procede à reorganização do sistema de desbaste e ensino, bem como à reorganização do sistema de provas morfo-funcionais das éguas e garanhões, contribuindo no fundo para a criação de uma base que, anos mais tarde – e seguindo o sonho de várias gerações inclusive a do seu “Mestre” Dr. Ruy d’Andrade – tornará possível o surgimento da Escola Portuguesa de Arte Equestre.

Ainda durante a década de sessenta, sempre com o intuito de promover o Cavalo Alter, promove a aquisição por Mestre Nuno de Oliveira dos cavalos Curioso e Ansioso os quais contribuirão largamente para a projecção do Cavalo Lusitano–Alter Real na Europa, principalmente em Wembley, Inglaterra. Ao largo de uma vida dedicada ao Cavalo Lusitano-Alter Real e sua constante promoção, apresenta, em 1975, com grande sucesso em Paris, os cavalos Paz, Projecto, Pijou e Plebeu.

Em finais da década de setenta (re)nasce a Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE). D. José Athayde será o seu primeiro Director e Mestre Picador Chefe. Por essa razão regressa a Lisboa e, paralelamente, inicia a actividade de Juiz de Ensino e de treinador de cavaleiros de Ensino entre os quais se vem a destacar Margaretta Lima Garcia, a qual, sob sua orientação, foi por diversas vezes Campeã Nacional ou, mais tarde, Nuno Manta, também ele se consagrando Campeão Nacional.

Vinte anos depois, em 2004, a convite de José Manuel de Mello, veio a integrar a equipa da Herdade do Monte da Ravasqueira, no período em que Félix Brasseur se consagrou Campeão do Mundo com quatro cavalos Lusitanos.

Ao longo de quase oito décadas “vividas” para o Cavalo e, com especial atenção, ao Lusitano-Alter Real. D. José Athayde, cujo lema é “sempre com o cavalo, nunca contra ele”, procurou desenvolver uma Equitação ao serviço da personalidade de cada cavalo.

São suas as palavras “ninguém pode ser um grande cavaleiro se não colocar o cavalo em primeiro lugar porque, cada cavalo, tal como o cavaleiro, tem personalidade própria, única. Se não se respeita essa mesma personalidade o máximo que se consegue é o tal escravo que, na ponta do chicote, vai remando na galé mas nunca um colaborador e um amigo […] com vivacidade e orgulhoso”.

É nessa procura e na memória de um “Amor” ao Cavalo que se manifesta – claro está – logo pelo seu bem-estar e respeito pela sua integridade física e psíquica; como, sobretudo – e porque de um cavaleiro de excepção nos referimos – de o montar como este merece, desse mesmo Amor que também Mestre Nuno Oliveira falava quando dizia “A Arte não existe sem Amor” pois esta é “a sublimação da Técnica pelo Amor”.

É aqui que encontramos não só o ideal da Equitação – da Arte – de D. José Athayde como a essência do que é para si o Cavalo Lusitano: sofredor, mas sensível e fino; o mesmo que “cheio de sangue na barriga, [se] deixa sempre controlar”, […] “com crista, pomposo [e] com facilidade em se concentrar, […] com bons andamentos, [..] um bom alargamento do trote”, mas sem nunca perder essa característica única que define o Cavalo de Sela, o Galope.

Pelo que aqui se foi enumerando de uma vida – em todos os planos da mesma – intensamente vivida, com paixão, temperamento e coragem, D. José Athayde tem vindo a recolher inúmeros prémios e distinções. Entre estes, ser o Patrono da Corrida de Touros que se realiza anualmente em Alter do Chão, no dia 25 de Abril, bem como o de ser o Presidente de Honra do Concurso do Cavalo de Sela na presente edição da Feira Nacional do Cavalo, têm seguramente um significado muito especial.

(…)

Verdadeiro aristocrata da Arte Equestre, da Equitação e do Cavalo – em particular o nosso Cavalo Lusitano – D. José d’Athayde é não só para todos nós uma referência incontornável, encerrando em si próprio e pelo seu legado, o testemunho de que Portugal foi, é; – e estamos seguros de que o continuará a ser sempre – um país de Cavalos, Cavaleiros e Homens de Cavalos; mas também que aspiramos a que os dois, Homem e Cavalo, formem – através da prática da mais sublimada e idealizada Equitação, e nesta de sobremaneira a nossa já lendária Arte Equestre de raiz portuguesa – essa criatura mítica e lendária que é o Centauro. Sonho perseguido por muitos e alcançado por tão poucos. Entre esses, no Olimpo da Arte Equestre, seguramente que figura e figurará o nosso excepcional homenageado: D. José d’Athayde.

Novembro de 2014

Bruno Caseirão

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