Actualidade. 06 OUT 2020

A outra face das eleições

Leia a carta de João Moura, ex vice-presidente da FEP, em que este relata - em exclusivo à EQUITAÇÃO - os últimos tempos de governação da Direcção de José Elias da Costa e os motivos que levaram à demissão e consequente queda dos restantes órgãos sociais.


Tempo de Leitura: 10 Min

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Intitualada "A outra face das eleições", passamos a transcrever a carta na íntegra:

 

Realizou-se no passado dia 2 de Outubro o Congresso para a eleição dos novos corpos sociais da FEP e com isso terminaram igualmente as minhas responsabilidades na Direcção anterior em que, por força de um dever de recato e respeito pela Instituição, me coibi de fazer qualquer comentário a muitas das situações vividas e que nada abonam o desporto equestre.

Aparentemente nada de anormal tem a realização de Congressos, dentro de um País que tem a democracia consolidada desde há quase cinquenta anos e onde as Associações e organizações equiparadas, seguem regras, leia-se Estatutos, aprovados, fiscalizados e apoiados pelo próprio Estado a quem compete igualmente atribuir o Estatuto de Utilidade Pública Desportiva.

No entanto, nem sempre essas regras são seguidas e alguns nostálgicos da Ditadura, tentam quebrar o caminho correcto e enveredar por atropelos aproveitando, ora algum alçapão dos Estatutos, ora a ignorância ou indiferença de outros, para que, em mágicos saltos de obstáculos, consigam aceder e permanecer no poder.

Ora a realização destas eleições são consequência de um movimento ínvio, pobre e intrínseco a um “sistema” que usufrui desde há longos anos um poder e supremacia no desporto equestre por via de um Regulamento Eleitoral que perpetua os responsáveis dos destinos do hipismo em Portugal.

Mesmo assim, e apesar desse controlo, nem sempre as decisões das Direcções agradaram ao “sistema” e daí os mandatos caírem com tanta frequência antes do seu término temporal.

De qualquer forma, para cada Congresso e sobretudo para cada eleição tudo se resumia a organizar uma reunião de amigos entre supostas grandes organizações de clubes, que já foram, e ali se dividiam as cadeiras do poder e os interesses particulares.

Ora nas eleições anteriores de Março de 2019, ganhou a lista à qual me orgulho de ter pertencido e que cedo se candidatou de forma inesperada. O “sistema” do poder instalado foi surpreendido, não conseguindo reagir de forma atempada com qualquer outra candidatura que, apesar de tentada, não chegou a ser apresentada.

A Direcção saída dessas eleições, sofria então do pecado original de não ter recebido a bênção de quem, no Campo Grande, se supunha ter o poder maior de controlar e aprovar as listas candidatas à FEP.

Ora aquela nova Direcção, completamente descomprometida com o “sistema” e disposta a pôr-lhe fim, desde o início manifestou a intenção de aumentar o numero de associados da FEP, como primeiro passo para democratizar a instituição e não voltasse a ser dominada pelo referido “sistema”, a que nós próprios tínhamos conseguido escapar.

Sabia a Direcção que iria enfrentar os interesses já instalados e não tardou a despontar a reacção que se veio a organizar logo para o primeiro Congresso da sua vigência no passado dia 28 de Julho.

Era portanto imperioso derrubar a Direcção para não permitir a entrada de 16 novos sócios, o que conseguiu através da não aprovação das contas de 2019, públicas auditadas e da não aprovação do Plano de actividades. Conhecedores desta intenção, não restou à Direcção outra saída que não fosse a apresentação da demissão.

Ora a entrada dos 16 novos sócios era na realidade a “pedra de toque” que naturalmente iria atingir os conglomerados de votos de alguns poucos clubes, e que iria obrigar a uma nova distribuição de delegados.

Com o aumento de clubes, e como tal, aumento de delegados, a distribuição passaria a ser tendencialmente de forma igualitária para todos os clubes como obriga o Regime Jurídico das Federações Desportivas. (Decreto-Lei n.º 248-B/2008)

Para angariarem votos para o seu objectivo, de tudo se valeram as altas esferas do Campo Grande, entrando por uma despudorada via de falsidades que atraiu alguns incautos, sérios e de boa fé delegados, o que também lhes serviu para ocultar a sua cada vez maior incapacidade de realização de eventos de relevo.

Melhor esclarecendo: Se esta proposta tivesse sido aprovada no Congresso, a FEP com apenas 25 sócios aceites nos últimos anos, passaria a ter 41 novos associados desaparecendo desta forma o controlo decisivo do “sistema” por menos de meia dúzia de clubes.

Ao barrar a entrada dos novos sócios, o grupo de amigos do “sistema”, conseguia assim, e uma vez demitida a Direcção, manter o seu “statu quo” para o importante Congresso eleitoral que se lhe seguiria.

Estava consumada a primeira parte da estratégia.

Pensando que a estratégia estava a ter êxito, logo se iniciaram as diligências para a apresentação, de uma lista A submissa e supostamente controlada por Lisboa e Coimbra, e preparada para combater a veleidade de alguém que se viesse a intrometer no “sistema”.

Porém, os aberrantes acontecimentos no Congresso de 28 de Julho, permitiram desmascarar o que na realidade se passava de forma encapotada no reino do nosso desporto equestre.

Tomando consciência da gravidade da situação, um grande numero de delegados individuais, de clubes de menor dimensão, “ditos” de menor representatividade e outros fora do “sistema” acordaram para a necessidade de reerguer o desporto equestre apresentando-se como alternativa.

Nasce então uma lista B com base na seriedade, competência, inovação e independência disposta a apaziguar o desporto equestre, lideradas por alguém com visão do futuro e que, em boa hora, contou com a adesão de válidas e isentas figuras recuperadas do “sistema”.

Refira-se como ironia do destino, que nunca o “sistema” tinha imaginado que ao ser desmacarado, pudesse provocar uma reviravolta de votação como veio a acontecer no Congresso eleitoral que consagrou o mérito e a victória da lista B.

Muitos delegados que apoiaram o “sistema” que barrou a entrada dos novos clubes, sentindo-se enganados e utilizados, alteraram por completo o seu sentido de voto como veio a suceder no Congresso de 2 de Outubro, onde até delegados de grandes clubes se vieram a dividir internamente.

No Congresso foi então derrotada a Lista A do “sistema”, que tendo elementos que não desmerecem, tinha também alguns outros que ali se acantonaram, não só perniciosos ao Hipismo mas até de conduta pessoal pública duvidosa.

Não surpreende a consagração a lista B que cedo se tinha disponibilizado para um debate publico com a lista A para confrontação de programas. Infelizmente a Lista A invocou sempre uma falta de agenda para o frente a frente.

A lista B, na impossibilidade de um debate, aceitou fazer uma apresentação e discussão publica do seu inovador programa, que através do “stream” alcançou 996 visualizações directas.

A partir de agora, desmascarado o “sistema”, fica aberto o caminho para a nova Direcção iniciar o processo de alteração dos Estatutos e de um novo Regulamento Eleitoral que estão ao arrepio do Regime Jurídico da Federações Desportivas e assim iniciar-se uma nova época de apaziguamento, união e esperança democrática para o Hipismo em Portugal.

João Moura

Lisboa 5 de Outubro 2020

 

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