Criação. 17 AGO 2020

«Não há lugar para amadorismos»

Confira o depoimento de Diogo Lima Mayer, Arquitecto e criador da Coudelaria Monte Velho, no âmbito do desafio lançado por Bruno Caseirão com o tema "Cavalo Lusitano: o que preservar, modificar e inovar?"


Tempo de Leitura: 12 Min

Diogo Lima Mayer

«Desde que me envolvi com o mundo do cavalo lusitano, assisti a um interessante debate sobre o processo de selecção, sendo confrontado com opiniões completamente contraditórias, dependendo da origem e dos gostos pessoais de cada interveniente. Este debate continua tão vivo como sempre e passados mais de trinta anos considero que o mesmo é importantíssimo e enriquecedor, desde que seja gerido de uma forma inteligente.

Não podemos ignorar que o cavalo lusitano que recebemos, constitui uma herança de centenas de anos de selecção, resultante da forma como ele foi sendo utilizado, quer como ferramenta de trabalho, de guerra, de lazer ou de desporto. A realidade do nosso país, sendo em muitos aspectos diferente de outros, levou à produção de um cavalo com características próprias e distintivas, quando comparado com outras raças.

A realidade que vivemos no momento actual é, por outro lado, tremendamente diferente do que era quando se fundou o stud book da raça, não apenas na forma de utilização do cavalo, mas sobretudo pelo que resulta de um mundo cada fez mais global.

Por outro lado, toda a tecnologia de reprodução equina teve um desenvolvimento enorme, disponibilizando ferramentas aos criadores que no passado não existiam, permitindo, por exemplo, a utilização em Portugal de sémen vindo dos EUA ou da Austrália e vice-versa. Igualmente no que se refere às questões de alimentação e acompanhamento veterinário hoje em dia muitíssimo evoluídas. Estes factos permitem ao homem uma manipulação sobre o processo de selecção, que no passado era inexistente. Esta realidade, se por um lado nos oferece uma maior capacidade de mudar e de inovar, implica também numa maior responsabilidade no que respeita à forma como cuidamos do nosso património genético, obrigando a uma cuidada reflexão.

Como arquiteto não posso deixar de fazer o paralelo com a nossa arquitetura: Lisboa, por exemplo, é tão apreciada e valorizada por ser diferente e ter um caracter único, comparada com as outras capitais do mundo, sendo o reflexo da sua história e da nossa cultura!

O mesmo acontece com o nosso cavalo. O Lusitano é também um reflexo de todo um processo histórico e duma cultura que não podem e não devem ser apagados. As suas características intrínsecas resultam disto e é isto que o fazem tão diferente e valorizado.

A sua morfologia, a sua expressividade, o seu carácter, a sua funcionalidade, dão-lhe um valor distintivo importantíssimo, que não se deve perder nunca.

Este facto é hoje em dia reconhecido cada vez mais internacionalmente, proporcionando um nicho de mercado com um potencial de crescimento gigante. Não esqueçamos que os Warmbloods, sendo seleccionados para alta competição, são na maioria dos casos impróprios para utilização de cavaleiros menos experientes ou mesmo amadores, que constituem na verdade a esmagadora maioria do mercado da equitação. Este nicho de mercado, quando lhe é dada a oportunidade de montar um Lusitano, tem por regra, um prazer que as outras raças não conseguem proporcionar.

Na verdade, tendo assistido à criação de cavalos e da sua selecção nos últimos trinta anos, posso afirmar que a sua evolução é notável, destacando-se os seguintes aspetos mais importantes:

• Fixação das características do padrão da raça. Quem percorre hoje em dia um grupe de diferentes Coudelarias, independentemente da qualidade de cada animal, é notória a uniformidade das características morfológicas e a aproximação generalizada com o respectivo padrão de referência.

• Melhoramento da qualidade dos andamentos que se tornou num factor de qualificação, igualmente dentro do pretendido no padrão da raça... andamentos ágeis elevados, projectando-se para diante, suaves e de grande comodidade para o cavaleiro… tendência natural para a concentração com grande disposição para os exercícios de alta escola.

• Melhoramento da qualidade de criação. Cavalos mais bem constituídos, mais fortes, sem taras ou defeitos de conformação.

Com todas as críticas apontadas aos concursos de modelo e andamentos bem como ao processo de aprovação de reprodutores, e toda a controvérsia inerente a critérios subjectivos, não posso deixar de lhes dar o mérito de contribuírem para esta desejada consolidação do modelo.

Penso que na actualidade a viabilidade económica de qualquer coudelaria depende tremendamente do mercado internacional. Este mercado é muito exigente quanto à boa saúde dos animais, nunca deixando de fazer um “vet-check” no acto de compra. Por este facto, entendo que quando se pensa em modificar, surge em primeiro lugar este aspecto que não era uma preocupação tradicional da criação.

Tendo isto em conta, deverá ser uma prioridade dos criadores na selecção das éguas reprodutoras que não tenham problemas, como OCD ou outros, transmissíveis geneticamente e que acabam por inviabilizar a venda dos produtos. O mesmo no que se refere aos garanhões, em muitos casos portadores dos mesmos problemas.

Outra modificação, já praticada em muitas coudelarias é o hábito de testar as éguas, desbastando-as e verificando a sua montabilidade. Não sendo um processo científico, não deixa de dar importantes indicações que poderão ser úteis, sobretudo no que respeita a carácter e disponibilidade para se deixar ensinar, factores esses transmissíveis geneticamente.

Todo o acompanhamento veterinário, qualidade da alimentação, cuidado no maneio, entre outros, são factores em que podem e devem haver melhorias que contribuam para criar animais de melhor qualidade.

 

joao torrao equador

O trabalho de desbaste é um momento crucial no percurso de um cavalo. Se for bem feito poderá ser a base de uma boa equitação futura, sem traumas ou vícios que podem comprometer toda a sua carreira. Sendo também o momento mais frequente em que se pratica o acto de venda é importante que se proporcione uma boa apresentação, revelando as qualidades de cavalo e a sua submissão. Esta é uma aposta também importante para viabilizar negócios no mercado internacional.

Uma das características interessantes do mundo dos criadores do lusitano é o facto de que cada casa ter o seu objectivo, o seu modelo de cavalo ideal. Existe de facto uma especialização relacionada com a forma de cada um ver o cavalo e sobretudo da funcionalidade que pretende que tenha. Sendo uma raça “fechada”, este factor oferece-lhe uma diversidade muito valiosa.

O Toureio foi sem dúvida uma das utilizações mais importantes que formataram a selecção do Lusitano e a ele se devem muito das suas características. A Equitação de Trabalho de certa forma herdou mais diretamente o seu ADN, tendo actualmente uma crescente divulgação internacional de grande sucesso.

Sem dúvida a modalidade que porventura terá maior potencial de crescimento no mercado internacional é o Ensino, do qual o Lusitano estava quase totalmente arredado, num passado recente. A alteração de regras valorizando os exercícios concentrados que se verificou, como por outro lado o esforço por parte de vários criadores no sentido de dar maior capacidade desportiva aos seus cavalos, conjugando com um movimento de oferecer uma escala de treino aos nossos cavaleiros, mais qualificada, quer trazendo a Portugal grandes cavaleiros e treinadores internacionais, quer levando vários conjuntos a treinar noutros países em centros de alto nível técnico, contribuíram para colocar o Lusitano numa posição de alto relevo no panorama internacional. Igualmente a vinda de juízes internacionais julgar em CDI’s no nosso País, fez com que estes começassem a ver o nosso cavalo já não como o “cavalinho barroco”, mas antes como um importante player no mundo da Dressage. Verifica-se de facto uma mudança radical na forma como hoje o lusitano é visto, oferecendo alguns aspectos de qualidade, que dificilmente as outras raças conseguem atingir.

A habilidade para executar os exercícios concentrados com uma enorme expressão é absolutamente inigualável. Isto acontece sem prejuízo da capacidade para execução de uma forma correcta todos os demais exercícios, talvez sem a amplitude que se verifica nos cavalos de sangue.

Julgamos que estamos a viver um momento único do nosso cavalo, tendo no último ano vários conjuntos conquistado lugares cimeiros em importantes provas internacionais, culminando com a qualificação da equipa nacional para os Jogos Olímpicos, o que acontece pela primeira vez. Esta situação não acontece por acaso mas resulta de um enorme esforço colectivo que foi feito, bem como do talento de um grupo de conjuntos que conseguiu entrar na elite mundial, com grande mérito e muito trabalho de treino e planeamento.

Este facto é importante não apenas para os próprios mas também para a projecção da raça como um todo. Aliás é significativo que os cavalos apurados para os Jogos não se restringem à equipa portuguesa, marcando presença em várias outras selecções como a de Espanha, Irlanda, França, Brasil, Luxemburgo.

Em conclusão, este momento resulta sem dúvida de um processo de inovação de forma de selecionar, alimentar, treinar, montar, planear, competir, financiar, gerir o acompanhamento veterinário, entre muitos outros factores, sem os quais é impossível estar na alta competição, como aliás acontece em todos os outros desportos. Não há lugar para amadorismos nem para “desenrascanços”, tem de haver muita consistência, trabalho, estratégia e naturalmente talento.

Tem de haver também cavalos com equilíbrio, bons andamentos, saúde e serem muito bem treinados.

Tem de ter muita força sem a qual não conseguem superar uma prova de Grande Prémio. Têm de ser montados por cavaleiros de grande talento, mas nesse aspeto o nosso País é bem servido.

Poderão todos os Lusitanos fazer Grande Prémio? Claro que não, nem isso é desejável. Mas existirem alguns que cheguem à elite mundial, dá uma visibilidade que faltava para projectar esta raça extraordinária.

Acredito que o Lusitano tem um grande futuro, para isso temos de ser ambiciosos, já que matéria-prima não nos falta!»

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