Criação. 06 AGO 2020

«O risco compensa!»

Confira o depoimento de Rodrigo Torres, Cavaleiro Internacional de Ensino e criador da Coudelaria Torres Vaz Freire, no âmbito do desafio lançado por Bruno Caseirão com o tema "Cavalo Lusitano: o que preservar, modificar e inovar?"


Tempo de Leitura: 6 Min

Rodrigo Torres e Fogoso

«É com muito gosto que venho dar a minha opinião sobre o nosso querido cavalo Lusitano. Como muitos sabem, grande parte da minha vida tem sido dedicada a criar e ensinar cavalos. Ao longo deste longo caminho tenho também competido com os cavalos criados e ensinados por mim. Houve algumas excepções, em que competi com cavalos que não foram criados pela nossa coudelaria – a Coudelaria Torres Vaz Freire.

No início da nossa coudelaria, começámos por criar cavalos direccionados à tauromaquia, tal como a grande maioria das coudelarias de cavalos lusitanos naquela altura. Este facto foi o que nos levou a ainda hoje termos cavalos tão corajosos e com grande capacidade de enfrentar momentos difíceis, como por exemplo a entrada calma e confiante num estádio cheio de um Europeu.

Com o passar do tempo e o aparecimento da competição, incluindo Equitação à Portuguesa, Equitação de Trabalho e Dressage, na minha vida, a nossa criação foi-se naturalmente adaptando. 

Na minha opinião, um bom cavalo lusitano consegue-se destacar em qualquer disciplina, como o Toureio, a Equitação de Trabalho e também a Dressage.

Bem sei que desde há muito tempo tem havido esforço por algumas partes de fixar um fenótipo que distingue o lusitano das outras raças. No meu entender não me parece mal, no entanto considero as qualidades de montabilidade muito mais relevantes, e o principal a ser preservado na nossa raça. Perante isto, eu, como criador e cavaleiro, procuro cavalos com bom passo, trote e galope, bom equilíbrio e bom carácter.

Conforme fui evoluindo, as minhas exigências foram aumentando. Durante o ensino dos cavalos, e com os olhos postos na competição, a necessidade de ter cavalos com melhor contacto, melhor aceitação das ajudas das pernas e andamentos cada vez mais elásticos e consistentes, tornou-se essencial. Outra característica que define a minha selecção de garanhões, é que tenham bastante talento natural para os exercícios de Grande Prémio.

Sendo as características descritas anteriormente o ponto de partida, existem ainda dois factores chave para atingir novos patamares de sucesso no desporto internacional, nomeadamente a capacidade atlética e a dimensão dos cavalos. É aqui que, na minha opinião, a raça precisa de alguma modificação. É importante, no entanto, frisar que as melhoria destes dois factores não implicam de qualquer forma que se altere as características base do nosso cavalo.

A necessidade de aumentar a dimensão e capacidade atlética dos cavalos criados para o desporto, surgiu por experiência própria em pista. Foi ao montar o Quo-Vadis em Grande Prémio, um cavalo criado por nós que tinha sido já campeão nacional em Masters e campeão da Europa de Equitação de Trabalho, que me apercebi da exigência física requerida numa pista de Dressage. Não só o encadeamento dos exercícios, mas também a dimensão da pista exigem do nosso cavalo um esforço superior ao que naturalmente estão criados para dar. Foram estas sensações dentro de pista que nos levaram a introduzir na nossa criação garanhões como o Rico e o Hostil que tanto em força, com em dimensão, eram superiores à média da raça. Estes garanhões surgem de um trabalho genético de muitos anos, feito pelo Dr. Guilherme Borba, que já então procurava estas características.

Rodrigo Torres e Fogoso 1

Quanto à inovação, há na minha opinião dois factores importantes. O primeiro relaciona-se com a possibilidade de alavancar os avanços tecnológicos e biológicos na criação. Escalar a recolha e utilização de sémen de cavalos excepcionais, e a utilização de embriões das melhores éguas, vai permitir uma evolução mais rápida da raça. O segundo factor prende-se com as possibilidades de promover o nosso cavalo globalmente através do mundo digital. As redes sociais, os websites, e as aplicações online permitem-nos hoje em dia chegar mais longe de forma mais fácil.

Concluindo, na minha opinião, o risco compensa. Devemos tentar preservar a base da nossa raça, não deixando, no entanto, que isso nos prenda quanto à evolução necessária para nos mantermos uma raça competitiva no mercado e nas pistas. O mundo evoluiu, os compradores estão mais exigentes, o desporto está mais competitivo, e a utilização do nosso cavalo deve adaptar-se e acompanhar esta evolução, nunca perdendo a sua identidade.»

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