Criação. 22 JUL 2020

"Preservar não quer dizer que não possamos modificar"

Confira o depoimento de António Vicente, Juiz Internacional da Raça Lusitana e de Equitação de Trabalho, Juiz Nacional N3 de Dressage e Professor do Instituto Politécnico de Santarém, no âmbito do desafio lançado por Bruno Caseirão com o tema "Cavalo Lusitano: o que preservar, modificar e inovar?"


Tempo de Leitura: 5 Min

Antonio_Vicente

"Em 1º lugar uma palavra de agradecimento pela consulta em querer saber a minha opinião sobre um tema que me é tão querido e ao qual tenho dedicado muito do meu tempo de investigação científica mas também no terreno, pelo julgamento de provas equestres, quer sejam de morfologia da raça, de equitação de trabalho ou de dressage.

O tema é desafiante e deveras complexo mas possível e penso que as 3 palavras chave que refere «preservar, modificar e inovar» estão intimamente ligadas e, como um todo, se complementam.

Podemos e devemos preservar o cavalo Lusitano como uma raça de sangue quente, com um livro genealógico (LG) fechado e características tão particulares que fazem com que, uma população tão escassa com menos de 5 mil éguas reprodutoras no total, se espalhe por todo o mundo e assuma uma posição de relevo em diferentes actividades equestres. Mas preservar não quer dizer que não possamos modificar vários parâmetros de interesse da população em estudo, por intermédio de uma selecção e melhoramento genéticos eficazes.

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As populações animais representam grupos dinâmicos de indivíduos que, com as ferramentas correctas de gestão genética e melhoramento, nomeadamente de escolha criteriosa e mais objectiva de vários critérios de selecção, podem e devem modificar-se para melhor! E é aqui que entra a palavra “inovar”, que se relaciona perfeitamente com as restantes focadas anteriormente porque, hoje em dia, temos à nossa disposição inúmeras ferramentas de análise e gestão de suporte às decisões da associação e dos criadores como são os casos da avaliação genética para diferentes características morfológicas e funcionais, da selecção genómica para parâmetros de interesse, entre outros. Mas para isso temos de ser mais metódicos e mais organizados na compilação da informação dispersa e existente para poder ser alvo de análise, mas sobretudo os criadores terão que acreditar que existem novas ferramentas e soluções para a gestão e melhoramento dos LG eficazes e são prática corrente em zootecnia em geral e na criação cavalar em particular.

Claro que a raça Lusitana assume especificidades muito mais complexas, comparativamente a outras populações equinas dado ter um efetivo global reduzido e pertencer a um LG fechado, mas se fosse mais fácil não seria tão interessante, apaixonante e não arrastava multidões e comentários!

Antonio_Vicente_FOTO_ritaFernandes

Mesmo assim muito tem sido feito nos últimos tempos para a melhoria desta raça, com resultados visíveis e palpáveis, mas muito há a fazer, como por exemplo num curto espaço de tempo podermos analisar e usar os resultados da avaliação linear da raça gerados com a implementação da tabela padrão.

Na minha opinião pessoal a raça deverá ser seleccionada e gerida como um todo, não pensando em criar linhas ou subpopulações específicas numa área funcional dado o reduzido número de reprodutores, não deixando, no entanto, de se analisar a performance em diferentes áreas equestres e a criação de rankings de mérito genético para os animais.

Em jeito de conclusão só poderemos ser eficazes a «preservar, modificar e inovar» se todos os players envolvidos na fileira do cavalo Lusitano unirem esforços e criarem sinergias para «remarem todos no mesmo sentido»!"

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