Actualidade. 19 MAR 2020

Como é que o Covid-19 está a afectar a vida dos cavaleiros?

Desde que o coronavírus atingiu o estatuto de pandemia foram muitos os eventos que acabaram por ser cancelados ou adiados, mas estas decisões afectam a época desportiva dos cavaleiros de várias partes do mundo e a EQUITAÇÃO falou com Duarte Seabra, Rodrigo Giesteira Almeida e João Maria Marquilhas.


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rodrigo almeida

O Covid-19 é o principal responsável pelo cancelamento de muitas competições nacionais, e sobretudo internacionais, como por exemplo a Taça do Mundo, que seria disputada em Las Vegas no próximo mês de Abril.

A EQUITAÇÃO quis perceber como o vírus está a afectar a época desportiva dos cavaleiros e esteve à conversa com três atletas nacionais, cujos nomes são bem conhecidos pelos nossos leitores, o Campeão Nacional Duarte Seabra, Rodrigo Giesteira Almeida e João Maria Marquilhas.

“Afecta a minha época e a época de toda a gente, não temos data prevista para o recomeço da competição e temos as nossas organizações paradas à espera que isto se resolva o mais rápido possível” referiu Duarte Seabra, ele que iria marcar presença em vários eventos que acabaram por não se realizar.

“Ia participar, nomeadamente, no Spring III MET, todos os que iriam acontecer em Portugal, possivelmente o CSIO de Lisboa, que imagino que também esteja em risco”, contou o Campeão Nacional.

Rodrigo Giesteira Almeida partilhou o mesmo pensamento referindo que “o Covid-19 é uma pandemia que não poupa ninguém. Se todos respeitarmos as medidas impostas, penso que vamos certamente ultrapassar este obstáculo. Sem dúvida que temos que reagir aos cancelamentos dos concursos, mas temos que trabalhar para tentar retirar algumas vantagens, com isto quero dizer que temos que nos aplicar e reinventarmo-nos”, afirmou o cavaleiro que já tinha no seu plano de curto prazo, vários concursos importantes agendados como o Lanaken e o S.Tropez.

Como João Maria Marquilhas refere a “pandemia apanhou-nos a todos de surpresa” e ainda mais aos que como ele já tinham feito planos. “Depois da temporada dos internacionais nos Emirados Árabes Unidos, há dois meses de muito bons concursos nacionais no Dubai e em Abu Dhabi, que foram todos cancelados. Normalmente, o meu plano seria saltar nesses concursos, com os cavalos que participaram menos na época dos internacionais, e fazer algumas provas mais pequenas e educativas com os cavalos de grande prémio.”

Acrescentou ainda que “com esta restruturação darei a todos os cavalos um descanso dos concursos, mantendo-os em boa forma para recomeçar a temporada na Europa”, contou o luso que se encontra nos Emirados Árabes Unidos, descrevendo a situação do país, relativamente ao Covid-19, como “mais controlada do que em Portugal, visto que o número de afectados ainda está abaixo de uma centena e não há mortes.”

João Maria Marquilhas

A rotina diária dos cavaleiros nacionais que se encontram agora em isolamento social passa sobretudo por montarem e trabalharem com outros cavalos. “Estas semanas que vamos ficar por casa, vão ser a oportunidade de alguns cavalos com muita qualidade, aos quais nunca lhes foi dado tempo suficiente, de serem agora bem interpretados e melhorarem a sua condição física e mental”, explicou Rodrigo Giesteira Almeida.

Duarte Seabra também está a seguir o mesmo caminho. “Agora a minha rotina passa sobretudo por sair de casa para montar, monto só de manhã, e depois vou directo para casa, sem passar por nenhum estabelecimento público. Neste momento, estamos a aproveitar para trabalhar em casa com outros cavalos, que requerem mais tempo, e às vezes não é possível porque participamos em muitos concursos e não temos esse tempo”, explicou.

Recorde-se que Rodrigo Giesteira Almeida juntou-se em Fevereiro ao Team Audi, de Eric Berkhof, e encontra-se actualmente nos Países Paixos e descreve o cenário do país como “calmo embora preocupante”, esclarecendo que na sua zona “a vida decorre com normalidade uma vez que estou fora dos aglomerados sociais das grandes cidades.” Mas apesar de estar longe, deixou uma mensagem para os portugueses.

“Espero que tanto em Portugal como no Mundo em geral, todos respeitem as indicações dos Governos e aproveitem estes dias difíceis de isolamento para se prepararem para novos desafios, que certamente vão chegar. A situação é igual para todos e não podemos baixar os braços. Estou confiante que, se seguirmos as medidas correctas, sairemos deste pesadelo rapidamente. Vamos torcer para que tudo se resolva e possamos recomeçar ainda com mais motivação”, afirmou o cavaleiro.

Duarte Seabra apelou aos portugueses concentrando-se na crise económica e social, que irá certamente abalar o mundo. “Neste momento não nos podemos esquecer que vamos atravessar um período de crise muito grande, social e económica, e todos os portugueses devem tomar todas as precauções devidas, mas acho que não devem abandonar os seus trabalhos e devem apoiar ao máximo as empresas, de forma a minimizar o estrago que o vírus vai causar na economia do nosso país”, rematou.

Duarte seabra

 

João Maria Marquilhas concluiu também com uma mensagem motivacional. “É nos momentos difíceis que percebemos do que realmente somos feitos e não há melhor momento do que este para o demonstrarmos. Eu só posso aconselhar que tomem as precauções que são pedidas para ultrapassar esta situação o mais rápido possível e nunca perder a racionalidade.”

Como são as reacções internacionais?

Internacionalmente também já foram várias as figuras que partilharam a sua opinião acerca do novo coronavírus. O chefe da equipa sueca, Henrik Ankarcrona, entrevistado pelo World of Showjumping, explicou como o vírus está a afectar todo o trabalho neste que é um ano olímpico.

“Vemos competições após competições a serem canceladas, portanto não podemos pensar muito, acho que o melhor é sermos pacientes. Acredito que dentro de três a quatro semanas já possamos perceber qual será o nosso rumo. Estive em contacto com os meus cavaleiros e eles estão a treinar em casa, para quando regressarem aos eventos estarem preparados, mas é difícil perceber quando iremos voltar”, disse Henrik Ankarcrona.

Na terça-feira, 17 de março, o Comité Olímpico Internacional (COI) anunciou que não vai cancelar os Jogos Olímpicos de Tóquio e que irá realizar-se conforme planeado. “Ficamos felizes com a decisão e acho que se voltarmos às competições pelo menos em Maio, penso que ainda haverá tempo suficiente para nos prepararmos para um campeonato. Tenho a certeza de que os melhores cavaleiros do mundo sabem fazer isso e de como manterem os seus cavalos em forma”, revelou o chefe de equipa sueco.

O World of Showjumping também conversou com o cavaleiro olímpico sueco Rolf-Göran Bengtsson, para perceber como ele e a sua equipa estão a lidar com a situação actual e qual o plano para as próximas semanas.

“Não podemos planear nada agora, mas vamos manter os nossos cavalos em movimento, para que estejam preparados ao máximo quando retomarem as competições. Nunca é um bom momento para que isto aconteça, mas por outro lado, agora temos tempo para começarmos a temporada em casa ao ar livre”, contou o cavaleiro sueco, acrescentando que “como os cavalos foram montados em ambientes fechados a maior parte do inverno, isto irá dar-lhes uma energia diferente.”

Em declarações ao site hippomundo, Niels Bruynseels também mostrou a sua visão sobre a pandemia. "Talvez não seja assim tão mau para o sector equino que todos tenham que ficar em casa durante algumas semanas. Isto pode parecer estranho, mas estou a aproveitar para passar algum tempo com a minha família agora”, começou por dizer o cavaleiro belga. "Mas não me interpretem mal, tenho medo das consequências que a economia, o comércio e a vida humana, estão a sofrer. Eu tento seguir as medidas de prevenção impostas pelo governo belga.”

Recorde-se que o Dutch Masters, um dos eventos que integra o Rolex Grand Slam, que se realiza habitualmente em 's-Hertogenbosch, nos Países Baixos, foi cancelado uma hora antes do Grande Prémio começar, e um dos participantes era Niels Bruynseels.

“Quando tomaram a decisão de cancelar a competição, os meus cavalos tinham acabado de chegar. Ainda assim, a decisão não me surpreendeu, porque li notícias sobre um máximo de 1000 visitantes, depois sobre nenhum público... Então havia uma grande probabilidade do evento ser cancelado. Não fiquei muito chocado, mas quando soube que as três próximas épocas do Global Champions (Cidade do México, Miami e Xangai) iam a ser adiadas, assim como o cancelamento do CSI5 * de Paris, então aí sim, fiquei em silêncio” contou Niels Bruynseels.

 

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Autor:

Ana Rita Moura

anaritamoura@invesporte.pt

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