Corridas. 10 OUT 2017

Corrida de cavalos de lutos

Manuel Armando Oliveira deixará para sempre o seu legado humano e técnico. Por Victor Malheiro


Tempo de Leitura: 17 min

Manuel Armando, desde criança, "alimentava-se" de corridas de cavalos, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Tive a honra de ser seu amigo, para além do meio equestre, por mais de vinte e cinco anos e por isso vou tentar deixar de parte a questão emocional e concentrar-me nas inúmeras aventuras, árduas lutas com sucesso e inúmeros momentos passados ao longo dos anos neste difícil mundo que são as corridas de cavalos em Portugal. Para mim é bastante difícil, depois do sucedido, assistir a uma corrida de cavalos e não ver Manuel Armando, sempre stressado para que tudo corresse pelo melhor, tenho a sensação que falta algo. Não existem pessoas perfeitas, como todos cometeu os seus erros, mas o seu trabalho em prol das corridas de cavalos em Portugal é impressionante e essencial para se chegar aos dias de hoje, se separadamente existem pessoas que podem assegurar o seu papel, até porque a maioria aprendeu com ele, no seu conjunto não existe ninguém em Portugal que tivesse todos os conhecimentos em todas as áreas das corridas de cavalos. Há algum tempo que me encontrava a preparar com ele a escrita de um livro sobre as corridas de cavalos em Portugal, para que a obra relatasse com o maior rigor tudo que foi feito no mundo das corridas de cavalos. Pessoalmente defendo a justiça, o mérito deve ser dado a quem realmente fez as coisas, a escrita deste livro não morreu, é uma forma de imortalizar quem foi Manuel Armando e outros companheiros de luta.

Desde a década de 90, o mundo das corridas de cavalos ficou mais pobre com a perda de três pessoas com quem tive o prazer de conviver de perto durante anos e que são históricos das corridas: Furtado Mendonça, proprietário do Hipódromo de Ponte de Lima, sempre afável, foi traído por um sonho que não se realizou, as apostas hípicas mútuas; José Canelas, um profundo apaixonado e conhecedor do mundo das corridas de cavalos a nível nacional e internacional, responsável pela Legislação das Apostas Hípicas de 1955, uma vida multifacetada, com quem partilhava o gosto pelas motas e os automóveis e agora Manuel Armando Oliveira, Director Técnico Nacional de Corridas de Cavalos, Vice-Presidente e co-Fundador da Liga, uma vida dedicada às corridas de cavalos e uma enorme obra. Todas três tinham em comum a simpatia, a disponibilidade em ajudar e um carácter forte e ficarão para sempre ligados à história das corridas de cavalos em Portugal.

A Homenagem de Bragança Fernandes, Presidente da Câmara Municipal da Maia e dos Jóqueis a Manuel Armando

A nível técnico o desaparecimento prematuro e trágico de Manuel Armando não significou que houvesse perda de qualidade nas corridas. A Liga já providenciou alguns substitutos à altura de desempenhar as suas tarefas, mas tem que formar novas pessoas em certas áreas, até porque a maioria da comissão técnica beneficiou ao longo dos anos dos conhecimentos de Manuel Armando e foi formada por ele que, recorde-se, tinha sido nomeado pelo Governo Director Técnico Nacional das Corridas de Cavalos. O papel de Director Técnico de Corridas dentro da Liga passou a ser assegurado por Augusto Abreu, uma pessoa de carácter e à altura da tarefa, com todas as capacidades técnicas, formado por Manuel Armando e que também era amigo pessoal de longa data: "Isto foi um choque que ainda é difícil de acreditar, quando vou a um hipódromo sinto a presença de Manuel Armando velando por tudo, foi com ele que aprendi tudo que sei, a minha amizade ultrapassava o mundo das corridas e comecei a conviver com ele antes da fundação da Liga, foram muitos anos e é uma perda muito grande, no seu todo insubstituível".

Acerca da época de corridas das apostas hípicas e, inevitavelmente, porque os dois assuntos são inseparáveis, a partida prematura de Manuel Armando que era uma figura incontornável deste meio e por isso marcou de forma indelével muita gente, aqui ficam algumas declarações de notáveis de várias áreas equestres e políticas.

 

- Fernando Bernardo, Director-Geral da Direcção Geral de Alimentação e Veterinária:

"Em termos institucionais, actualmente o papel da Direcção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) no que diz respeito às corridas de cavalos e apostas hípicas é ser o organismo responsável por propor, por exemplo, ao Ministro da Agricultura, o futuro projecto de adjudicação dos hipódromos de corridas com apostas a nível nacional e temos a responsabilidade do cuidar da saúde dos animais, da sua identificação e no trânsito a nível nacional e internacional destes. A Legislação sobre os hipódromos é uma questão que está resolvida, o assunto sobre as apostas hípicas territoriais é que ainda não está resolvido. Em Portugal a única instituição que tem a concessão das apostas mútuas desportivas é a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), portanto é à SCML que compete criar os mecanismos que permitam fazer as apostas hípicas, no momento em que estes estejam criados, poder-se-á imediatamente abrir-se os concursos para a adjudicação dos hipódromos que estão previstos na Lei e que podem ir de um a três, é apenas isto que está a bloquear esta situação. Penso que há uma necessidade da SCML articular todas as entidades ligadas às corridas de cavalos e às apostas a nível nacional e internacional como ocorrem por esse mundo fora, enquanto uma questão não estiver resolvida, o resto fica emperrado. Logo que se resolver o problema de como será gerida a questão das apostas hípicas, depois de estar montado esse sistema, nós, a DGAV, temos montado um grupo de trabalho que pode apresentar propostas à Tutela, neste caso ao Ministério da Agricultura, para o Concurso da Adjudicação dos Hipódromos Nacionais. A nós compete-nos apresentar a proposta do ponto vista técnico, espaços, áreas, todas as estruturas anexas, que têm que estar contempladas e depois de tecnicamente estarem criados esses Cadernos de Encargos, quantos hipódromos e onde vão ser postos a concurso já não depende de nós mas sim da parte política. Vocês, a Liga Portuguesa de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida, como organizadores efectivos de corridas de cavalos também podem reforçar esse trabalho junto de todas as entidades envolvidas, pois o que vi aqui hoje foi um espectáculo de alto nível, a rapidez com que este processo se pode desenrolar também passa por vocês ao juntarem e pressionarem todas as entidades envolvidas. Os portugueses são uma população pequena, se houver uma possibilidade das corridas terem acesso ao mercado internacional, obviamente que o mercado das apostas hípicas terá uma dimensão difícil de calcular, de qualquer modo, para nós, a dinamização do hipismo e de todas as actividades equestres, incluindo as corridas de cavalos, é uma questão muito relevante porque sendo nós um país de prestação de serviços, principalmente um país que recebe muitos turistas e sabendo nós o gosto que grande parte desses turistas tem pelas apostas hípicas, existe obviamente um mercado enorme que urge explorar e mesmo para a DGAV seria importante, pois parte da receita das apostas reverteria para nós o que é bastante importante para o nosso orçamento e para esta direcção. Para mim é a primeira vez que estou a assistir a uma corrida de cavalos em Portugal e é um espectáculo que me marcou pela qualidade do espaço, organização, ausência de falhas, pelo entusiasmo geral e pelo elevado número de público."

O último Grande Prémio entregue por Manuel Armando naquela que era a sua casa

- Nuno Vieira e Brito, ex-Secretário de Estado da Alimentação e Investigação Agro-Alimentar do anterior Governo e um dos responsáveis pela elaboração da actual Legislação:

"Nós deixámos a Legislação pronta, com a mudança de Governo e a mudança de protagonistas, não se considerou prioritário este sector e todo o trabalho que estava em fase terminal foi suspenso. Tanto quanto sei, a SCML apercebeu-se da importância tanto económica como social para o país, espero que agora se avance mais rapidamente, é o meu desejo muito sincero apesar de ser de outra cor política mas para mim está acima de tudo o interesse nacional. Quero prestar uma homenagem a Manuel Armando, estabeleci uma relação muito boa e cordial no tempo em que trabalhamos em conjunto na área da Legislação das corridas de cavalos, é um fato que o contributo que ele deu para um bom desenrolar deste processo é enorme e invaliável, ele sensibilizava toda a gente e era incansável para o desenvolvimento de todo este sector. Tive sempre manifestações de elevadíssimo respeito e amizade que era recíproco, sempre me pareceu uma pessoa íntegra e o meu pesar pelo seu falecimento é muito grande."

 

- Bragança Fernandes, ex-Presidente da Câmara Municipal da Maia:

"O Hipódromo Municipal da Maia é um exemplo de dinamismo e isso deve-se a um maiato de gema, um grande homem que foi o Manuel Armando que contou sempre com o apoio da Câmara Municipal da Maia. O Centro Equestre da Maia fez uma bonita e merecida homenagem ao seu Presidente, acho que por essa razão todo o prestígio que o Manuel Armando conseguiu dar à Maia e pelas características técnicas deste projecto, pela qualidade e disponibilidade que a Maia tem em termos de terrenos, pelas boas acessibilidades, pelo aeroporto perto e também pela curta distância da segunda maior cidade do país, grande parte de tudo isto e ao nível a que as corridas alcançaram presentemente deve-se ao Manuel Armando. Acho que o Governo devia eleger o Hipódromo Municipal da Maia como um dos hipódromos que está previsto para as apostas hípicas territoriais aqui para o Norte, é uma questão de honra e uma excelente forma de homenagear todo o trabalho feito pelo Manuel Armando, se não fosse ele nada disto existia. Sinto-me feliz por ele ter sido meu amigo e eu ter sido amigo dele, tenho muitas saudades dele e fiquei sensibilizado com a bonita homenagem que o Centro Equestre da Maia fez ao Manuel Armando que prova que uma colectividade com memória é uma colectividade com futuro."

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- Ricardo Carvalho, Presidente da Liga Portuguesa de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida:

"É uma grande perda o desaparecimento do Manuel Armando, as corridas a nível nacional estão num nível tão elevado tecnicamente e irão continuar, sempre com a sua memória, porque foi uma das pessoas que mais trabalhava na Liga. Iremos continuar o nosso trabalho no desenvolvimento das corridas de cavalos em Portugal com as apostas hípicas e os Hipódromos de nível internacional.

Esta época adivinhava-se difícil por causa da falta de financiamento, voltamos a realizar uma prova no Hipódromo da Coudelaria de Alter do Chão, com o apoio da Câmara Municipal de Alter do Chão o que foi um sucesso. Qualquer Câmara Municipal ou entidade que queira realizar corridas respeitando os regulamentos da Liga e com o devido apoio financeiro, será sempre uma honra para nós e estamos sempre disponíveis para a sua realização.

As corridas de cavalos voltaram a Celorico de Basto ao Hipódromo Municipal de Carvalho, que teve um investimento muito grande por parte da Câmara Municipal de Celorico de Basto, com o empenho do seu Presidente, Joaquim Monteiro da Mota e Silva, a câmara gastou cerca de cento e vinte mil euros para concretizar este hipódromo municipal, neste momento tem os mínimos exigidos a nível técnico e promete desenvolver-se. Quanto à realização das corridas de cavalos na Golegã é uma possibilidade mas ainda nada está decidido.

Nesta época o Hipódromo Municipal da Maia colocou iluminação o que lhe permitiu pela primeira a realização de corridas nocturnas na Maia, realizadas pela primeira vez no Hipódromo de Felgueiras/Quinta da Granja em épocas anteriores sempre com um grande sucesso porque são uma forma de evitar o excesso de calor das tardes de verão, foram um sucesso na Maia.

Desportivamente o Campeonato Nacional de Galope e Trote Atrelado tem corrido bem, com muitos concorrentes e muitas mangas quase sempre cheias. O Grande Prémio de Portugal a Galope foi uma prova que mostrou a maturidade da Liga, ganho por SKY BELLE, montado por  Ricardo Sousa, cavalo que já tinha ganho no ano passado, no Trote Atrelado deu-se um épico duelo Ibérico com os Portugueses a vencerem com VENDREDI DE LOISEL, conduzido por Sérgio Oliveira. Em Felgueiras irão ser realizadas até ao fim da época mais quatro provas, e mais uma prova na Maia.

Perspectiva-se o lançamento das apostas mútuas hípicas de base territorial, exploradas em regime de exclusividade pela SCML, para o ano de 2018, ao que se seguirá o lançamento da concessão dos Hipódromos."

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- José da Silva Freitas, co-Fundador e 1.º Presidente da Liga:

"O Manuel Armando era um pilar das corridas de cavalos, trabalhou toda a vida para elas, foi um dos Fundadores da Liga e foi sempre o homem quem mais trabalhou dentro da Liga e nas corridas de cavalos em geral. Se havia pessoa que merecesse comandar as corridas em Portugal, era o Manuel Armando, nunca conheci ninguém que tivesse feito tanto pelas corridas em Portugal. O facto de ter nascido na Maia e aí ter começado a correr desde criança, a sua simpatia natural e dinamismo que cativava quem o conheceu levou a que conseguisse o apoio da Câmara Municipal da Maia, acabando por ser o responsável pela melhor pista de corridas de cavalos actualmente. Foi um grande homem e é uma pena muito grande a sua perda ainda por cima de forma trágica e demasiado cedo sem ver o seu sonho das apostas hípicas em Portugal realizado."

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- Rose-Marie Portela, Assistente do Departamento Internacional da "Le Trot":

"Continuamos a apoiar Portugal porque assinamos um acordo de criação do Trotador Francês em Portugal já em 2007, já foi há alguns anos e desde então há corridas em Portugal, estamos a esperar que o Governo resolva a questão das apostas hípicas. Continuamos a acreditar que Portugal tem potencial para ter corridas com apostas com sucesso, estamos a trabalhar e já trabalhamos no passado com outros países em processos idênticos ao de Portugal e foi demorado e difícil, mas hoje em dia a maioria são casos de sucesso, há países que evoluem de modo mais fácil que outros. Apesar de lidar com o Manuel Armando só quando vinha a Portugal, para mim foi sempre uma pessoa muito simpática e pelo que testemunhei essencial para as corridas em Portugal, fico muito triste com o que aconteceu."

 

Fotos: Victor Malheiro

Autor:

Victor Malheiro

equitacao@invesporte.pt

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