Equitação Natural. 10 SET 2020

Treino de Conexão

Há cerca de dez anos, conheci uma rapariga inglesa, Hannah Weston, que usava clicker training. Fiquei muito espantada quando, há uns meses, verifiquei que a mesma rapariga, entretanto mulher adulta, se tornou numa das referências mundiais de treino com reforço positivo.


Tempo de Leitura: 12 min

Em conjunto com a mãe, Hannah criou a marca Connection Training, que propõe formação online e publicou no final de 2019 um livro de fácil compreensão sobre o método.

Clicker training é um método desenvolvido no treino de animais selvagens em cativeiro, inicialmente para golfinhos em espectáculos aquáticos. (Nota: Clarifico que sou contra estes espectáculos). Pense num golfinho a aprender a dar um salto: é fácil perceber para o que serve o “click”, embora os treinadores de golfinhos usem apitos. Se simplesmente dermos uma sardinha ao golfinho de cada vez que ele faz o que nós queremos, ele vai sempre receber uma sardinha perto de nós. Rapidamente aprende que o reforço positivo aparece quando vai ter com o treinador. O que acabamos por ter é um golfinho colado ao treinador, mas sem dar os saltos que o público quer ver. Por isso, os treinadores marcam o comportamento (o salto) com um som (o apito) antes de dar o reforço positivo (a sardinha). Desta forma, o golfinho percebe do que é que o humano gosta tanto, a ponto de lhe dar uma sardinha.

No final dos anos 80 e nos anos 90, o clicker training começou a ganhar notoriedade no mundo canino e hoje em dia é muito usado no treino de cães. Em 1998, Alexandra Kurland publicou “Clicker Training For Your Horse” e assim ganhou relevo o treino com reforço positivo para cavalos. Em apenas 20 anos, houve uma grande evolução, mas de facto as técnicas ainda são recentes e têm que ser adaptadas aos equinos.

Quando conheci Hannah Weston, há dez anos, ela ainda seguia fielmente os métodos clássicos do clicker training, mas hoje em dia conseguiu adaptá-los para funcionarem melhor com os cavalos. As diferenças são tantas, que ela e a mãe preferem não chamar clicker training ao que fazem, tendo concebido um nome distinto, Connection Training. E quando falam do método em geral, falam de treino com reforços positivos, para evitar as conotações do clicker training tradicional. Quais são então as diferenças?

Hannah Weston 02

DIFERENÇAS FACE AO CLICKER TRAINING

Uma das grandes desvantagens do clicker training tradicional aplicado aos cavalos é o excesso de entusiasmo que estes animais desenvolvem em relação ao reforço positivo, quando este reforço toma a forma de uma recompensa alimentar. Muitos de nós já tentámos ensinar algo ao nosso cavalo com a ajuda de cenouras e acabámos com um companheiro que só consegue pensar na próxima cenoura e não está com atenção aos nossos pedidos. Ainda por cima, muitas vezes, os cavalos acabam por perder toda a formalidade e “assaltam-nos” literalmente, à procura de mais guloseimas. E quando não recebem a recompensa imediatamente, desenvolvem frustração. É essa uma das razões pelas quais se vêem muitas orelhas para trás nos espectáculos em liberdade, onde os cavalos são treinados com chicote e guloseimas.

Hannah Weston desenvolveu várias ideias para combater o entusiasmo excessivo em relação às guloseimas: em primeiro lugar, os reforços alimentares devem ter um valor relativamente baixo para o cavalo. Por exemplo, em vez de dar cenouras ou recompensas comerciais, podemos simplesmente dar feno como reforço positivo. Até podemos pensar em não dar comida, mas sim festas ou uma actividade de que o cavalo goste muito. Se dermos comida, podemos alternar entre dar algo e apenas fazer festas, para o cavalo não esperar sempre comida e ficar frustrado quando não a recebe. Destas formas podemos reduzir a dependência da recompensa alimentar e assim o entusiasmo excessivo do cavalo. Aliás, o Connection Training chama-se treino de conexão, porque a conexão com o cavalo é sempre o factor mais importante. Assim, a relação entre humano e cavalo é prioritária em comparação com o comportamento que queremos treinar. Se o cavalo dá a pata quando pedimos, mas com as orelhas para trás e com uma expressão de stress, não atingimos o objectivo proposto por Hannah e Rachel. Só se o cavalo estiver contente e relaxado, com vontade de fazer o trabalho, sabemos que o treino vai continuar a correr bem.

Justamente por darem muita importância ao estado emocional do cavalo, as autoras de Connection Training tomam uma atitude holística em relação ao treino. Se o cavalo não tiver uma qualidade de vida razoável, com amigos, liberdade e comida continua, não vai estar relaxado. Se queremos montar, o equipamento deve estar adaptado ao cavalo e à disciplina. E o cavalo tem que ter os cuidados básicos de saúde, incluindo o tratamento dos dentes e dos cascos. Essa preocupação com todos os pormenores é uma atitude desta equipa de mãe e filha, que teve origem nos anos em que elas eram simples donas de um único cavalo complicado, o Toby, e tiveram de aprender sobre todas essas áreas.

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A HISTÓRIA DE TOBY

No Natal em que tinha onze anos, concretizou-se um sonho para Hannah: recebeu de presente um cavalo, o Toby. Mas rapidamente o sonho começou a transformar-se em pesadelo, já que Toby colocava um desafio atrás do outro: não queria ser montado, tinha vários problemas físicos, não queria entrar no reboque, etc. etc. Nada corria bem. Felizmente, a mãe de Hannah, Rachel Bedingfield, montava cavalos há muitos anos e ainda para mais gostava bastante de estudar. Mãe e filha começaram assim uma viagem de aprendizagem, que passou por Monty Roberts e Pat Parelli, acabando no livro de Alexandra Kurland sobre clicker training.

Usando os métodos de Natural Horsemanship começaram por conseguir resolver muitos problemas comportamentais de Toby e com a formação da Hannah em Equine Touch conseguiram ajudá-lo fisicamente, mas foi quando usaram o treino de reforço positivo que conseguiram despertar no cavalo um entusiasmo pelo trabalho que ele nunca tinha demonstrado antes. Vinte anos depois, Toby ainda vive com Hannah, embora já não seja montado. Continua a ser a maior influência na sua vida, ainda que Hannah também dê muito crédito aos dois cavalos com os quais trabalha actualmente e aos muitos outros com os quais pôde contactar ao longo destes anos.

A equipa mãe/filha funcionou tão bem, que ainda hoje colaboram. A mãe é investigadora, estuda, lê e escreve, enquanto a filha está no campo com os cavalos, desenvolvendo métodos práticos e criativos e ensinando as outras pessoas. Trabalham muito com cavalos resgatados, Hannah maioritariamente em Inglaterra e Rachel em Espanha, onde ajudou a formar uma associação sem fins lucrativos, a Positive Horse Training Spain. Mas o maior empreendimento da equipa é o chamado Connection Club.

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CONNECTION CLUB

O Connection Club é uma plataforma online que permite aos membros aprender a metodologia do Connection Training de uma forma muito completa. A matéria está organizada em onze cursos, desde “Os fundamentos do Connection Training”, passando pelo maneio diário, pelas visitas do veterinário e do ferrador e vários temas relacionados como ginasticar e montar o cavalo.

Os cursos mostram passo a passo, através de vídeos, como treinar um comportamento específico com a ajuda dos reforços positivos. Podemos começar no primeiro curso e seguir módulo por módulo, construindo uma base sólida, ou podemos saltar para uma lição que nos interesse particularmente. Cada módulo tem pelo menos um vídeo de exemplos práticos e algum texto. No final de cada módulo podemos marcar se completámos o módulo ou não. Assim, o aluno mantém-se motivado e também consegue organizar melhor a aprendizagem.

Além do acesso a centenas de vídeos, a subscrição tem muitos outros elementos que motivam e ajudam na aprendizagem, tal como um diário de treino online, onde podemos escrever um resumo de cada sessão de treino, fazer upload de imagens ou vídeos e tomar nota de questões e ideias; e-mails regulares das autoras para motivar o aluno; sessões mensais de perguntas e respostas online com Rachel e Hannah; um fórum online para colocar perguntas ao grupo e um desafio mensal. Por um valor mensal de 30€ é um programa muito completo de formação online sobre treino de cavalos. Aproveito para esclarecer que não tenho qualquer interesse comercial nos produtos Connection Training.

Hannah Weston e mae

O LIVRO

Para os interessados mais “old school”, foi agora publicado um livro que inclui os mesmos capítulos, desde a introdução até ao montar usando reforço positivo, com muitos exemplos práticos e links para vídeos disponíveis online. O livro é fiel à filosofia, mostrando uma abordagem holística e completa, que inclui leituras sobre o sistema emocional no cérebro do cavalo, os requisitos básicos para um cavalo viver sem demasiado stress e muitas dicas sobre como combater os efeitos negativos que o treino com reforço negativo pode causar. 

É por isso mesmo que gostaria de recomendar o livro a qualquer pessoa interessada em treinar o seu cavalo, mesmo se até hoje em dia não acreditava em dar guloseimas para treinar. Pessoalmente, tive sempre a opinião de que os cavalos ficam excessivamente entusiasmados e depois frustrados. A leitura do livro permitiu-me perceber que podemos tomar medidas para prevenir esses problemas. Usar guloseimas no treino é uma ferramenta forte, tal como os esporins ou o freio, e só devemos usá-la depois de sermos devidamente instruídos. Para obter essa instrução, recomendo a leitura do livro.

Por outro lado, recomendo a leitura mesmo a quem não queira usar reforços positivos no treino, porque a maioria dos conceitos, muito bem explicados, são igualmente aplicáveis ao treino normal com reforço negativo. Dada a abordagem tão holística e completa, é um excelente livro geral sobre treino de cavalos. Porque afinal, não são apenas os profissionais que treinam cavalos! Qualquer pessoa que interage com qualquer cavalo, está sempre a treinar, porque vai deixar o cavalo com mais ou menos vontade de repetir um determinado comportamento. Se gostaria de perceber melhor esta última frase, recomendo a leitura do meu artigo “Quem vai ao mar avia-se em terra” publicado na última edição da Revista Equitação.”

In Revista Equitação, n.º 141

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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