artigo. 27 ABR 2020

César Luís Pitta: Uma vida dedicada ao mundo equestre

César Pitta possui uma longa história com o meio equestre e a criação cavalar já há quase 60 anos. Foi desde cedo que se entregou a este mundo, começando a montar regularmente em criança. Durante 35 anos foi o responsável pela Coudelaria Xavier de Lima e agora, já reformado, abraça um novo projecto.


Tempo de Leitura: 8 min

A paixão de César Pitta pelo mundo hípico iniciou-se quando aos 11 anos quando começou a montar regularmente pelas mãos de Manuel dos Reis, na Sociedade Hípica Portuguesa, no Hipódromo do Campo Grande. “Quase toda a minha vida morei em Benfica e o senhor Manuel dos Reis também morava na zona, e como demonstrava interesse pelos cavalos um dia convidou-me para ir aprender a montar e por lá fiquei. Aos 18 anos fui convidado pelo meu Mestre a trabalhar para ele” recordou César, o momento em que começou o seu percurso profissional.

As principais modalidades equestres que trabalhou foram o Ensino e os Saltos de Obstáculos, “desbastava e ensinava os cavalos com o senhor Manuel dos Reis, no entanto, identificava-me mais com a Alta Escola. Sempre tive um interesse particular pela escola de Baucher”, referiu.

Apesar de ter ficado pela Sociedade Hípica até aos 32 anos chegou-lhe ao conhecimento que António Xavier de Lima estava à procura de alguém para desbastar e ensinar os seus cavalos, César Pitta aproveitou a oportunidade e decidiu ir trabalhar para a coudelaria como cavaleiro. “Ao fim de um ano foi-me feito o convite para ser o responsável pela coudelaria, cargo esse que desempenhei até ao mês de Maio do ano passado quando me reformei, foram perto de 35 anos”, confidenciou César Pitta.

César Luís Pitta (3)

César Pitta com Xadrez (ferro Menezes), na Sociedade Hípica Portuguesa

A Coudelaria Xavier de Lima, localizada em Azeitão, Setúbal, foi fundada em 1982 e foi neste mesmo ano que começou a selecção com a aquisição de vários exemplares descendentes das melhores linhagens de cavalos Puro Sangue Lusitano, tais como Ufano, Oeste, Dominó e Dardo.

O ensino dos cavalos e a criação ocuparam a maior parte do seu percurso profissional, que recorda, que onde foi mais bem sucedido foi na “criação de cavalos de cavalos lusitanos, porque no início na coudelaria Xavier de Lima havia muitos Luso-árabes, Luso-anglo-árabes e Anglo-lusos, e ao fim de 10 anos o Lusitano passou a ter uma maior expressão e focamos os nossos recursos e conhecimentos nesta raça.”

Inicialmente, existiu um projecto de melhoramento da eguada original, substituição e aquisições de éguas e garanhões, com a melhor genética disponível. “Os cavalos escolhidos tinham que demonstrar melhor cabeça, tamanho e elasticidade. Tentei fazer um cavalo desportivo, versátil e sobretudo que tivesse boa cabeça”, contou, acrescentando que se sentiu realizado também com o facto de ter tido a oportunidade de ser “um embaixador do cavalo Lusitano. Durante os dois anos em que estive na Bélgica ao serviço da Coudelaria Xavier de Lima visitei os países mais próximos, onde fiz inúmeras demonstrações do cavalo Lusitano em Alta Escola.” Relembra também que, nessa altura, teve sempre consigo um cavalo muito especial ou como o próprio disse “um elemento da minha família”, que era o Cantador XL, um Luso-árabe filho de Magic Count, e por o considerar um membro da família é que talvez tenha sido por essa razão que um dos momentos mais tristes da sua vida tivesse sido aquando do seu falecimento.

César Luís Pitta (2)

César Pitta com o Luso-árabe Cantador (XL)

Uma vez que a raça Lusitana tem vindo a ganhar a cada vez mais sucesso e César Pitta, sendo um criador de cavalos, a EQUITAÇÃO quis perceber qual a sua opinião sobre o actual momento da raça. “Obviamente que a criação de cavalos Lusitanos está melhor do que no passado. Antigamente o Lusitano servia para pouco mais do que engatar e passear. Hoje temos mais tamanho, andamentos, é muito mais produtivo, em alguns casos até se pode comparar às raças modernas Europeias”, comentou o criador.

E então enquanto ao seu futuro? A resposta foi bem directa: “Vejo a possibilidade de continuar a progredir, embora não tanto quanto é de esperar, por responsabilidade da Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano (APSL), pois os juízes da raça têm ideias diferentes da dos criadores. O actual sistema de admissão ao Livro de Adultos não serve à Raça, mas isso é uma discussão recorrente entre criadores.”

O novo projecto de César Pitta

Apesar de já se encontrar reformado César Pitta abraçou um novo projecto em parceria com Rui Salero Viegas, que conhece há mais de 25 anos, e ambos partilham a mesma visão sobre os cavalos e a criação.

“Juntámos as éguas e os reprodutores que tínhamos, já contamos com 30 animais, e são produtos de primeira qualidade apurados ao longo dos últimos 35 anos da minha experiência enquanto criador. A coudelaria chama-se Quinta das Hortas e Moinhos e está sediada em São Brás de Alportel, no Algarve, com vista a um mercado internacional muito exigente”, explicou César.

Neste novo projecto, a eguada é predominantemente oriunda de descendentes de grandes cavalos ícones da raça Lusitana, como por exemplo o “Quimono (ferro Alcobia); o Zorro (ferro Francisco Ribeiro, neto do garanhão Berber MV); o Maravilha (Ferro Manuel Veiga, que toureou com o Mestre David Ribeiro Teles e com o seu filho António); o Novilheiro, o Nilo e o Neptuno (todos Ferro Manuel Veiga que dispensam apresentações); o Umbaba (Ferro Juliano Teixeira Gomes, descendente do Fonteiro III (MV) e que era irmão da égua Toleirona (MV), que se distinguiu pela sua beleza e funcionalidade na década de 80, nos concursos de Modelo e Andamentos); o Urque e o Zaquiro (ferro Quina, que foram grandes cavalos de Toureio) e, por fim, o Dardo (ferro Manuel Coimbra, que era um cavalo com grande finura e que transmitia um carácter fenomenal aos filhos).”

O principal padreador escolhido foi “o garanhão Timoneiro (ferro Xavier de Lima, que se deixou ensinar ao mais alto nível, sob a monte de um cavaleiro da Escola Portuguesa de Arte Equestre), este garanhão é filho do Dardo (MAC) e neto do Oeste (ferro Ortigão Costa, que por sua vez é filho do Elmo, ambos cavalos de toureio de Manuel Jorge de Oliveira, o Elmo era também ele neto do Berber MV)”, explicou César Pitta.

Mas neste momento os dois sócios já tem vários cavalos em fase de desbaste e ensino como “o Lazuli que é filho do Zamumo (OC) X Traineira(XL) por Dardo(MAC), o Mafarrico (Que-alado (XL) X Cinderela (CCR)) e o Nobel (Don Juan(HSL) X Nudista (HAB) por Uranio (MAC)), que esperamos que evoluam e ganhem visibilidade nas modalidades de Ensino e Equitação de Trabalho.” Durante este ano já nasceram até ao momento três animais, duas poldras e um poldro.

Inicialmente, os objectivos para cada um dos animais, nascidos na coudelaria Quinta das Hortas e Moinhos, já parecem claros para César Pitta e Rui Salero Viegas. “Uma vez que têm muita qualidade (os animais), esperamos que tenham visibilidade nas modalidades de Ensino, Equitação de Trabalho ou Toureio, por se tratarem de cavalos seleccionados a partir da melhor genética e com provas dadas e comprovadas nas várias vertentes mencionadas”, referiu o criador.

Os dois sócios tinham como objectivo apresentar os “produtos na Expoégua e na Feira Nacional da Agricultura em Santarém, mas os eventos foram adiados. Portanto, assim que for possível iremos dar a conhecer os cavalos a todos.”

Autor:

Ana Rita Moura

anaritamoura@invesporte.pt

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