Raides. 09 MAR 2020

Endurance: o que muda nos regulamentos FEI em 2020

Entraram em vigor os novos regulamentos para 2020. Com uma primeira versão publicada após o Verão, a FEI publica agora um novo regulamento com as alterações decididas na Assembleia Geral em Moscovo, no passado mês de Novembro. Algumas dessas alterações só têm lugar a partir de 1 de Julho de 2020.


Tempo de Leitura: 8 min

Rodeados de controvérsia, os novos regulamentos da FEI têm como objectivo preservar a integridade dos cavalos de endurance. Em profundo desacordo com a FEI, a generalidade da comunidade equestre da endurance pensa que o novo regulamento, não só não protege os cavalos, como os prejudica pelo número de quilómetros a que obriga os cavalos a percorrer para se classificarem. A maioria também julga que as alterações visam as polémicas provas do Médio Oriente, que invariavelmente as saberão contornar recorrendo a mais provas nacionais, onde se plica o regulamento nacional de cada país. Mas, só o futuro nos dirá o verdadeiro impacto destas novas regras.

Com dois regulamentos publicados, um válido até 30 de Junho e o outro a partir de 1 de Julho, para já a FEI espera reduzir a incidência de lesões graves e o aumento da longevidade desportiva, com novas medidas que assentam:

- na redução indirecta da velocidade, que se sabe por evidência científica ser proporcional à incidência de lesões, através da diminuição do tempo de recuperação para entrar na grelha veterinária, e penalizações especiais para eliminações a mais de 20Kmph;

- na maior maturidade dos cavalos em competição, conseguida pelo aumento da idade dos cavalos permitida para participar nos 2*/3* e campeonatos, e pela maior dificuldade em progredir de classe de competição com mais tempo no mesmo nível;

- na prevenção do desenvolvimento de lesões graves, dando uma maior oportunidade de regeneração às inevitáveis micro-lesões da alta competição, através do incremento do tempo entre provas, particularmente em cavalo com eliminações sucessivas, e o controlo de membros bloqueados com neurolíticos (para evitar eliminações por claudicação), através do Teste de Hipossensibilidade, já em vigor.

- na maior idoneidade dos oficiais com a FEI a nomear os oficiais ao invés das Comissões Organizadoras (CO) a partir dos nível 3*.

Passam ainda a ser proibidas a utilização da henna nos membros e os cavalos deixam de se poder apresentar na grelha veterinária com creme ou qualquer corante nas quartelas ou na pele (Art. 824).

O que muda em 2020

Categorias de provas (Art. 802)

  • Data da implementação: 1 Janeiro 2020

  • Alteração:

Categorias de Provas

2020

2019

CEI1*

100-119 Km em 3 fases

80-119 em 3 fases

CEI2*

120–139 Km em 4 fases

120-139Km em 4 fases

CEI3*

140-160 Km em 5 fases

140-160Km em 6 fases

Campeonatos

160Km em 6 fases

160Km em 6 fases

  • Raciocínio: Reduzir o salto de 1 para 2*, fomentar a profissionalização da disciplina e, eventualmente reduzir a velocidade do 1*adicionando mais Km.

  • O que diz por aí: Este ponto não levantou grandes ondas, embora a maioria não compreenda o porquê dos 100Km, já que significa um salto significativo na passagem da qualificação nacional, com uma velocidade controlada de 16Km/hora, para uma prova de velocidade livre e com mais 20Km.

     

Peso obrigatório (Art.805):

  • Data da implementação: 1 de Janeiro de 2020

  • Alteração:

Categoria de Provas

2020

2019

Provas e Campeonatos Y/R

60Kg

Sem peso mínimo

CEI 1 e 2*

70Kg

Sem peso mínimo

3* e Campeonatos

75Kg

75Kg

  • Raciocínio: Reduzir a velocidade

  • O que se diz por aí: Esta medida divide a comunidade. Muitos contestam que o peso morto que é necessário adicionar não é equivalente ao peso humano e que tem efeitos deletérios para o cavalo. Para além disso os cavaleiros de endurance tendem a ser relativamente magros e pequenos, com penalização óbvia para as mulheres. Também os arreios de endurance desenvolveram o seu design para serem mais leves. Outros estão de acordo e concordam que a medida é um obstáculo a que se pratiquem velocidades elevadas.


Idade dos cavalos (Art.827):

  • Data da implementação: 1 Janeiro de 2020

  • Alteração: Os cavalos passam a ter que ter um mínimo de 7 anos (antes 6 anos) para participar num CEI2* e 8 anos (antes 7 anos) num CEI3*. Os campeonatos de Cavalos Novos passam a disputar-se aos 8 anos e os Campeonatos Regionais e do Mundo só aos 9 anos.

  • Raciocínio: Prolongar a longevidade desportiva

  • O que se diz por aí: Não houve oposição maior.

 

Novo esquema de qualificações e consequências das eliminações (FTQ e DSQ) nas provas (Art. 833 e 837)

  • Data da implementação: 1 de Julho 2020

  • Alteração: O esquema 1, 2, 3* é completamente alterado. Os cavalos, não só têm que fazer mais provas, como têm que realizar pelo menos uma em conjunto a partir dos 2* para progredirem para 3*. Os cavalos desclassificados também passam a estar abrangidos. (por ex. um cavalo que não termina o percurso)

Processo classificação

Notas:

1, 2: - As duas classificações têm que ser consecutivas ou alternadas com uma eliminação em pelo três raides; não há limite de velocidade, mas se houver duas eliminações (FTQ ou DSQ) consecutivas a mais de 20Km/h, a prova seguinte (em qualquer nível de *) fica limitada a 18Km/h; se se classificar em uma prova a esta velocidade a restrição da velocidade é levantada;

- Se for eliminado (FTQ ou DSQ) em 3 raides, consecutivos ou não, a mais de 20Km/h, o cavalo tem que ser classifcado a 18Km/h nas duas provas seguintes seguinte (em qualquer nível de *) para que a restrição de velocidade seja levantada

- Se for eliminado em 4 raides (FTQ ou DSQ), consecutivos ou não, a mais de 20Km/h, é despromovido em 1*; tem de recomeçar a classificação no nível abaixo, mas restringido à velocidade de 18 Km/h.

1: Classificações não obrigam a que seja o conjunto cavalo-cavaleiro

2: Uma das provas tem que ser obrigatoriamente completada pelo conjunto cavalo-cavaleiro para passar para o nível 3*

  • Raciocínio: Dificultar a qualificação dos cavalos tida até agora como demasiado fácil, principalmente em comparação com outras disciplinas equestres. Também vai dificultar a classificação de cavaleiros, muitas vezes inexperientes, de países com pouca tradição na disciplina. Não há restrições de velocidade per se, mas introduz-se um sistema autolimitante, que vai fazer com que os cavaleiros arrisquem menos

  • O que se diz por aí: Sem dúvida a medida que mais controvérsia gerou, com os profissionais dos países mais competitivos, quase em uníssono, a reclamar o novo esquema de classificações. Esta medida é vista pela Europa, como desnecessária, já que a incidência de lesões é muito menor que no médio oriente, onde a velocidades são muito mais elevadas. Ou seja, para os cavaleiros europeus, por uns pagam os outros.

Tempo de recuperação

  • Data da implementação: 1 de Janeiro de 2020

  • Medida: O tempo de recuperação entre a linha da chegada e a entrada na grelha veterinária, até atingir o critério da frequência cardíaca de 64bpm, vê-se reduzido dos 20 para os 15 minutos e na grelha final dos 30 para os 20 minutos.

A frequência cardíaca é a mesma, mas cavalos que façam uma primeira passagem com ≥ 68bpm na grelha, mesmo que na segunda tenham 64bpm, têm obrigatoriamente uma reinspecção nos 15 minutos antes da saída para a próxima fase. (Art.816.6.5)

  • Raciocínio: Sabe-se que há um risco acrescido de lesão em cavalos que demoram mais do 10 minutos a recuperar. Se a maioria dos cavaleiros já retira os cavalos de prova com tempo é na última fase que esta medida pode ter mais impacto, já que aqui o tempo de recuperação não entra na equação da velocidade e porque é nesta fase em que se praticam as velocidades mais elevadas. Com menos 10 minutos, muitos cavaleiros vão hesitar se sprintam ou não à meta.

 

Em breve, abordaremos o Teste de hiposensibilidade (Annex VIII, Vet Rules) e a Rotação e escolha dos oficiais (Art. 848, 849 e 851).

Autor:

Mónica Mira

equitacao@invesporte.pt

QUER SABER MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO?

Insira o seu e-mail e receba todas as novidades