Raides. 16 JAN 2020

A Endurance em Portugal

Embora sendo uma das principais disciplinas com cavalos e cavaleiros federados internacionalmente na Federação Equestre Portuguesa, a resistência equestre em Portugal encontra-se num momento de estagnação. O que será necessário fazer para que haja uma alteração desta realidade?


Tempo de Leitura: 8 min

A FEP e a Endurance

A resistência equestre ou endurance é, desde 2012, a segunda modalidade com mais cavalos e cavaleiros federados internacionalmente na Federação Equestre Portuguesa (FEP). Se os saltos de obstáculos dominam com dois terços, a resistência equestre tem um número de cavaleiros e cavalos federados na Federação Equestre Internacional (FEI) superior ao conjunto das outras modalidades.

Já ao nível de cavaleiros federados nacionalmente, a segunda modalidade é o ensino seguido da endurance, o que reflecte a população de cavaleiros amadores de clubes e escolas, sobretudo dos saltos de obstáculos, sem ambições internacionais que jogam apenas no circuito nacional.

Na endurance, dada a facilidade de os cavaleiros amadores passarem facilmente ao nível internacional, as provas de velocidade livre são na quase totalidade internacionais, acabando a maioria dos cavaleiros por se federar na FEI. A nível internacional a excepção ocorre em países como os EUA, a Austrália ou a África do Sul, têm um circuito nacional com associações fortes e com a maioria dos cavaleiros sem ambições internacionais, seja por tradição, seja pelo seu isolamento geográfico. Na Europa, a França é a única excepção mantendo um circuito amador importante.

Embora a resistência equestre tenha conseguido mais medalhas para Portugal do que qualquer outra disciplina, fruto da sua profissionalização mundial e do desinvestimento financeiro e humano em Portugal, os resultados têm sido não só magros na última década, mas frustrantes sobretudo para os cavaleiros portugueses.

Tradicionalmente uma disciplina estigmatizada com pouco ou nenhum interesse pelas sucessivas direcções da FEP, ligadas invariavelmente ao ensino ou saltos de obstáculos, a opção a cada nova eleição tem sido o de manter o status quo e a inércia que o caracteriza, em detrimento de uma aposta séria no desenvolvimento da resistência equestre. Assim, troca-se o consenso pela competência, que redunda na última década numa dança de cadeiras que visa proteger os interesses de alguns e excluir abusivamente qualquer oposição.

Como se contraria o desequilíbrio entre cavaleiros federados e o peso que a disciplina possa exercer na Federação? Difícil, já que com dois magros votos da associação que a representa, a Associação de Resistência Equestre Portuguesa (AREP), único clube ligado à modalidade da FEP, e por isso com poder de voto, e outro do único delegado do congresso que a representa, é difícil de contrariar o peso de uma Sociedade Hípica Portuguesa, um Sport Clube do Porto ou uma GNR nos destinos da FEP. Acontece que não há escolas de equitação de endurance, sendo essa outra forma de conseguir, por via da inscrição dos seus alunos na FEP, algum poder de decisão nos desígnios da equitação em Portugal. É disso exemplo a Academia Equestre João Cardiga que tem sabido tirar partido do seu enorme número de praticantes em prol de uma modalidade que de outra forma não teria qualquer representatividade, a paradressage.

Trocado por miúdos, o número de votos está indexado ao número de praticantes de um determinado clube ou instituição filiada, obrigatoriamente sem fins lucrativos. É por isso necessário que os praticantes de endurance se federem nestes clubes, que neste caso será a AREP ou outra associação ligada à modalidade que possa surgir.

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A AREP

A actual Associação de Resistência Equestre Portuguesa (AREP), que já foi APRE e CARE, viu-se revitalizada nas últimas eleições em que concorreram, de forma inédita, duas listas. Com o maior número de sócios dos últimos anos e declaradamente mais organizada, infelizmente continua a carecer de uma comunicação eficiente com os sócios ou divulgação dos resultados dos portugueses. Com uma página web institucional que teima em aparecer, parcas notícias pela FEP num formato de circular pouco apelativo e sem uma gestão eficiente das redes sociais, a endurance portuguesa parece condenada ao esquecimento internacional, a não ser pelas publicações individuais dos cavaleiros. Formação e estágios tão necessários para os cavaleiros portugueses, tirando algumas palestras esporádicas, são também escassas e pontuais.

A endurance e Portugal no mundo

O aumento do número de cavalos e cavaleiros em Portugal tem seguido o trend internacional assim como o número de provas. Se França ganha no número de provas, são os Emirados Unidos que mais participantes têm.

O rácio provas/cavalos é muito baixo em Portugal, à semelhança de outros países mais pequenos, o que torna a organização de provas internacionais de difícil rentabilização. Fruto de uma anarquia total em prejuízo das organizações em 2016 o rácio foi de 2,1 cavalos por prova internacional, tendo melhorado para os 6 cavalos por prova em 2018. Estes valores estão longe dos espanhóis e franceses, respectivamente com 14 e 57 e muito longe dos 285 cavalos federados por prova nos Emirados Árabes Unidos. Invariavelmente, as organizações não se sentam para discutir datas, algo que a AREP poderia facilmente promover, sendo a calendarização decidida centralmente na FEP, nem sempre de forma democrática. Ainda assim, Portugal impôs-se com algumas provas no circuito internacional como é o caso do Rio Frio que, pelos seus bons pisos e condições excepcionais como a proximidade de Lisboa e uma boa organização, entrou definitivamente no circuito internacional dos cavaleiros profissionais.

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Para sair da estagnação em que se encontra. Portugal precisa de:

- Ter um planeamento atempado com objectivos e critérios de selecção bem definidos no início da temporada para as equipas nacionais como nos outros países;

- Apostar fortemente na formação na alta competição recorrendo a profissionais estrangeiros e enviando os seus cavaleiros, sobretudo os mais jovens, para centros de treino de mérito reconhecido, estabelecendo protocolos com estes;

- Desenvolver um campeonato ou circuito nacional de cavalos jovens digno a pensar na valorização do cavalo de endurance português em articulação com a associação do árabe;

- Melhorar o nível médio da equitação dos cavaleiros de endurance por acções de formação certificadas e desenvolvimentos de um qualquer critério mínimo de certificação;

- Comunicar publicamente os critérios de selecção dos cavaleiros indicados para os convites anuais para as provas de referência no Dubai e em Abu Dhabi;

- Criar um circuito de provas de qualificação eficaz e sustentável que permita aos novos centros de treino que recebem cavalos de fora, sobretudo para qualificar, prestar um bom trabalho;

- Resolver o impasse com a federação espanhola e permitir que os cavaleiros se classifiquem dos dois lados da fronteira, promovendo o bom relacionamento com a Estremadura, apanágio da resistência equestre;

Em suma, é urgente a modernização da resistência equestre em Portugal e para isso torna-se necessário que quem a lidere tenha as necessárias competências para que isso aconteça.

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Artigo publicado in Revista Equitação n.º 140 , Novembro/Dezembro de 2019

Autor:

Mónica Mira

equitacao@invesporte.pt

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