Criação. 16 JAN 2020

Coudelaria Ilha Verde - Criar para a Dressage

A completar quase três décadas de existência, a brasileira Coudelaria Ilha Verde começou por apostar na Raça Lusitana mas, desde 2010 e de forma paralela, investiu nas raças alemãs. O objectivo, no entanto, manteve-se: criar cavalos atletas para a Dressage.


Tempo de Leitura: 8 min

Sedeada em Araçoiaba da Serra, em São Paulo (Brasil), é sob os comandos de José Victor e João Victor Oliva, pai e fi lho, que o nome Coudelaria Ilha Verde está a chegar cada vez mais longe. Para os resultados positivos dos animais de ferro V.O. tem sido fundamental a aposta “na genética, o criterioso trabalho de selecção focado na criação de cavalos atletas para a Dressage, o maneio e ainda o treino direccionado”, garante o criador José Victor Oliva.

Durante mais de duas décadas o foco centrou-se exclusivamente na Raça Lusitana, com os primeiros produtos de ferro próprio a nascerem em 1994. Doze anos mais tarde, José Victor Oliva comprou todos os Lusitanos criados pelo também brasileiro Jayme Monjardim, ferro Filhos do Vento, sendo este o início da criação de animais ferro VOF.

“O aperfeiçoamento da selecção produziu animais que se destacam pela elegância, brandura, montabilidade, performance atlética e fidelidade à raça”, explica o criador, ressalvando que todos estes aspectos foram comprovados “em provas funcionais e em Concursos de Modelo e Andamentos”. Exemplo disso mesmo é Husseim V.O., que este ano, montado pelo português Nuno Chaves de Almeida, venceu com medalha de ouro a Classe de 5 anos ou mais nos Concursos de Modelo e Andamentos do Festival Internacional do Cavalo Lusitano e da Feira Nacional do Cavalo. O Lusitano de 8 anos foi “transferido para a Alemanha em 2017 para ser treinado e também para ser opção para João Victor Oliva competir no circuito europeu de Dressage”, frisa o pai do jovem cavaleiro olímpico. Filho de Almansor da Brôa e Raiz 2 Fil Vent, “Husseim V.O. representa a nova geração de reprodutores João Victor Oliva criou a Coudelaria Ilha Verde no início da década de 90 de ferro V.O., com os primeiros produtos nascidos em 2017, já com sémen disponível para venda em Portugal”, salienta José Victor.

Husseim V.O., com Nuno Matos Almeida

Husseim V.O., com Nuno Matos Almeida, no Concurso de Modelo e Andamentos da Golegã (Crédito: Nuno Matos/FNC)

Aposta paralela

Sem descurar a criação de Lusitanos, desde 2010 que a Coudelaria Ilha Verde tem apostado nas raças alemãs, por incentivo de João Victor, “principal cavaleiro do Ilha Verde Team, que desde 2016 se tornou responsável pela elaboração do programa de reprodução da quadra”, explica o pai.

A selecção dos animais foi feita no Brasil e na Alemanha, tendo como base Ornella (raça Oldenburgo), filha do campeão mundial Furst Heinrich, que tem já vários filhos premiados em campeonatos europeus, alemães e de jovens cavaleiros. “O primeiro filho de Ornella com ferro V.O. foi Toliva V.O., nascido em 2012, resultado de um cruzamento com Totilas, um dos mais importantes nomes da Dressage contemporânea”, afirma João Victor.

Logo no ano seguinte, recorda o criador, “nasceu Senhorita V.O., filha do várias vezes campeão alemão Sir Donnerhall e, hoje, consagrado como produtor de campeões e recordistas de preços como Sa Coeur - campeão mundial de cavalos novos e vendido por 2,31 milhões de euros - e um dos melhores garanhões do ranking mundial do World Breeding Championships for Sport Horses”. Senhorita V.O. estreou-se nas pistas em 2017, sendo tricampeã de Dressage em Cavalos Novos (4, 5 e 6 anos).

Florisbela V.O com Eduardo Alves de Lima

Florisbela V.O com Eduardo Alves de Lima (Crédito: Max Araújo/ABPSL)

 

Também a Oldenburgo Florisbela V.O., nascida em 2014, merece uma referência do criador, salientando, orgulhoso, que foi, “pelo segundo ano consecutivo, líder do ranking da categoria Cavalos Novos da Associação Brasileira de Criadores do Cavalo de Hipismo (ABCCH). Filha de For Romance x Jasmin Scent, Florisbela representa consagradas linhas genéticas da Dressage através dos bisavós Furst Heinrich e Donnerhall”.

João Victor é, então, o «responsável» pela introdução das linhas alemãs na Coudelaria Ilha Verde e, mesmo estando sedeado na Alemanha desde 2014, sempre que pode regressa a «casa», levando até lá aquilo que aprende na Europa. “Mantenho a missão iniciada pelo meu pai de seleccionar cavalos direccionados para o desporto ou lazer. Estamos empenhados em criar animais de elevada performance para a Dressage”, enfatiza João Victor.

Renderson Oliveira com Senhorita V.O.

Renderson Oliveira com Senhorita V.O. (Crédito: Jane Monteiro/CBH)

 

Percurso desportivo

Foi em 2003, na disciplina de Equitação de Trabalho, que a Coudelaria Ilha Verde se estreou em provas funcionais. No entanto, como explica José Victor, “foi a Dressage que conquistou o nosso coração, servindo de guia na selecção da quadra e na formação de uma equipa de atletas que soma conquistas nacionais e internacionais”.

A estreia na disciplina de Dressage remonta a 2006, pelas mãos do cavaleiro Rogério Clementino, com Nilo V.O.. Desde então os cavaleiros da Ilha Verde Team têm feito, de acordo com o criador, uma “trajectória memorável”: participação em duas Olimpíadas (Pequim/2008, e Rio de Janeiro/2016); em quatro edições dos Jogos Pan-Americanos (Rio de Janeiro/2007, Guadalajara/2011, Toronto/ 2015 e Lima/2019); em três Jogos Equestres Mundiais (Kentucky/2010, Normandia/2014 e Tryon/2018); um Sul-Americano (Chile/2014); vários Concursos de Dressage Internacionais de 3*, 5* e W no circuito europeu; mais de vinte títulos no Campeonato Brasileiro de Dressage.

Entre todas estas participações atrás mencionadas, de destacar o contributo de João Victor Oliva e Biso das Lezírias na medalha de bronze por equipas nos Jogos Pan-Americanos deste ano.

João Victor Oliva e Xiripiti

João Victor Oliva com Xiripiti TVF nos Jogos Equestres Mundiais de Tryon 2018 (Crédito: Luis Ruas/CBH)

 

A evolução de João Victor Oliva

Em 2008 o cavaleiro brasileiro estreou-se nas pistas, entrando para a equipa de Dressage brasileira seis anos mais tarde. Para além do bronze por equipas já referido, o currículo de João Victor é já composto por vários sucessos: melhor representante da equipa brasileira de Dressage nos Jogos Olímpicos de 2016; melhor brasileiro numa final da Taça do Mundo de Dressage, em 2017, em Omaha/EUA; campeão sul-americano individual e por equipas, em 2014, no Chile; melhor cavaleiro da equipa brasileira nos Jogos Equestres Mundiais de 2014 e 2018 (tendo participado nestes últimos com Xiripiti); e é ainda penta-campeão brasileiro (Amador em 2008, Miriam em 2009, Júnior em 2010 e 2011 e Jovem Cavaleiro em 2012).

Todos estes resultados fizeram com que o cavaleiro tenha conquistado, em cinco anos consecutivos (2014 a 2018), o Prémio Brasil Olímpico, descrito como “o Óscar do desporto”, promovido pelo Comité Olímpico do Brasil.

Desde 2015 que João Victor é cavaleiro militar, tendo sido condecorado pelo Exército Brasileiro, em 2017, com a Medalha do Mérito Desportivo Militar, a maior condecoração concedida pelas Forças Armadas a atletas e personalidades relacionadas com desporto.

Para além de João Victor, hoje com 23 anos, há outros atletas da Ilha Verde Team que se têm vindo a destacar, tais como Renderson Oliveira, Murilo Augusto Machado e Eduardo Alves de Lima.

Quanto ao principal cavaleiro da casa, “em 2020 irá mudar-se para Portugal para uma temporada de seis meses na Companhia das Lezírias, onde vai treinar sob orientação do Paulo Caetano e Maria Caetano, e competir em concursos internacionais, à procura de pontos qualificativos para os Jogos Olímpicos de Tóquio”, avançou o pai, José Victor.

João Victor Oliva e Faisão

 João Victor Oliva com Faisão TVF (Crédito: Rui Pedro Godinho)

 

Coudelaria Ilha Verde em números

Situada na região que é considerada o “cinturão do cavalo”, em Araçoiaba da Serra (São Paulo), a Coudelaria Ilha Verde tem uma área de 130,68 hectares, 84,7 dos quais destinados ao pastoreio.

No que diz respeito à área dedicado aos cavalos, é composta por 20 paddocks; três pavilhões de boxes com 60 baias; três pistas de Dressage, às quais se juntam mais três pistas cobertas (20m x 40m) para treinos de Equitação de Trabalho e Saltos de Obstáculos; duas guias, uma delas mecânica.

A criação direccionada para a Dressage é o principal foco da Coudelaria Ilha Verde que, no entanto, é também conhecida por organizar dois eventos importantes do calendário equestre brasileiro: o Leilão Internacional Luso Brasileiro, que se realizou pela primeira vez em 1997; e o International Riding & Dressage Meeting, criado em 2013 e que se distingue por um evento que engloba desporto, lazer e cultura.

 

Foto de abertura: José Victor Oliva (Crédito: Tupa Vídeo)

 

Artigo publicado in Revista Equitação n.º 140 , Novembro/Dezembro de 2019

Autor:

Carla Laureano

carlalaureano@invesporte.pt

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