Na opinião de. 13 JAN 2020

Do treino à alta competição

Na opinião de... Daniel Pinto #6


Tempo de Leitura: 16 min

Neste último artigo em colaboração com a Revista Equitação tenho como objectivo resumir as ideias chave que tentei transmitir ao longo dos artigos deste ano.

A Dressage é uma ciência: a arte consiste em saber aplicá-la de forma metódica e sempre adaptada especificamente a cada binómio. Porque não há um cavalo ou um cavaleiro igual, todos os passos são críticos, devendo ser percorridos metodicamente e de acordo com objectivos pré-estabelecidos. Desde a escolha do coach, à construção de um plano de trabalho, passando pela definição de metas ambiciosas, mas sempre realistas – todos os elementos vão ditar a forma como cavalo e cavaleiro vão percorrer este caminho em conjunto, seja em casa, seja na realidade do desporto de alta competição.

Vamos então rever os principais conselhos e opiniões que fui partilhando ao longo do último ano?

1. O ponto de partida: definir objectivo e escolher um coach!

Um dos marcos mais importantes e com maior impacto na minha carreira desportiva foi quando tomei consciência que a vontade de aprender e continuar a crescer superou a minha capacidade de auto-didatismo e auto-aprendizagem. Precisava de alguém que acompanhasse a minha evolução e que me apoiasse para crescer, definir objectivos concretos e definir a melhor estratégia para os alcançar. Surge a importância de definir objectivos e da escolha de um coach!

O nosso coach deve ser alguém cujo valor, mérito próprio, experiência e resultados admiramos: tem de ser uma pessoa em quem acreditamos incondicionalmente para ser possível uma relação de inteira confiança. O bom coach é aquele que sabe que o desenvolvimento do aluno não passa por uma relação de dependência, mas sim por fornecer ao seu aluno as ferramentas e input necessários para que se torne verdadeiramente autónomo e eficaz por si só.

O coach tem que procurar analisar as características e comportamentos específicos de cada aluno, bem como compreender qual o tipo de interacção que este desenvolve com o seu parceiro, o cavalo. A análise detalhada dos dois elementos do binómio, tanto a nível físico como psicológico, é fundamental para que cumpram o propósito da sua relação. É ao coach que cabe a tarefa de incluir regras e objectivos à dimensão de cada caso, criando uma dinâmica que optimize o desempenho de cada aluno, e de cada cavalo, até os levar à competição.

Estabelecida a equipa coach-cavaleiro-cavalo, será importante traçar um plano de trabalho em conjunto, tendo sempre em vista a evolução do binómio e a noção de demarcação de zonas de conforto. Entramos então numa equitação com método, em que o plano de trabalho é a ferramenta chave para alcançar, passo-a-passo, os nossos objectivos.

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2. Encare a equitação com método: defina um plano de trabalho

Embora se deva reconhecer que cada conjunto cavalo-cavaleiro é um caso particular, o plano de trabalho deve ter uma base de evolução estruturada e que permita chegar aos nossos objectivos.

Eu sigo sempre três etapas essenciais para delinear um bom plano, e que gostaria de recordar convosco:

Diagnóstico - Esta etapa passa por compreender as necessidades do conjunto e definir um plano de treino diário evolutivo, com vista a um progresso contínuo. Devemos avaliar a situação actual do cavalo; do cavaleiro e a sua eficácia actual em conjunto, tanto a nível físico como psicológico. Uma vez detectadas as dificuldades e as capacidades do binómio, iniciamos outra fase do plano de treino, que envolve o reconhecimento da «zona de conforto».

Reconhecer a zona de conforto - Cabe ao treinador clarificar «o que é» a zona de conforto, tanto para o cavalo como para o cavaleiro, sem nunca esquecer que as zonas de conforto dos dois elementos do binómio podem não coincidir! O que é então a zona de conforto? Esta é alcançada quando o atleta, seja ele humano ou equino, desempenha a actividade com elevado grau de descontracção física e psicológica, alcançando este estado de forma rápida e quase inata. Reconhecida a zona de conforto do conjunto, pode então passar-se a explorar, em cada lição, a evolução da zona de conforto de ambos enquanto equipa. Avançamos então para uma fase mais avançada do plano de trabalho, que passa por aumentar os limites da zona de conforto, conquistando espaço a uma zona de esforço.

Conquista da zona de esforço - Este passa a ser o desafio diário do conjunto. Trata-se de um estado de constante auto-superação, uma busca contínua do aumento dos limites da zona de esforço, de modo a conquistar espaço para construir, pouco a pouco, uma nova zona de conforto, mais alargada. Para esta conquista, é necessário aumentar os níveis de condição física e psicológica do cavalo. Para isto, devemos adaptar o plano de trabalho, respeitando sempre a escala de treino e as capacidades do nosso parceiro equino, mantendo presente que é necessário tempo para que os resultados se realizem.

3. O plano de trabalho continua, agora fora de casa

À medida que o conforto aumenta, novos desafios se colocam, como por exemplo as primeiras saídas de casa. Como pode a preparação da competição – nomeadamente as saídas de casa e a iniciação ao ambiente de provas – entrar no plano de treino do vosso cavalo?

O «sair de casa» pode ser encarado como uma das etapas de conquista para a zona de conforto. O facto de o conjunto ser exposto a novos factores externos, fora da sua rotina e ambiente de trabalho habitual, tornam todo o contexto de performance mais desafiante. Assim, o sair de casa em descontracção e sem «agenda» é um dos conselhos fundamentais que dou aos meus alunos: desde cedo, o atleta equino deve ser introduzido a diferentes locais, pistas, estímulos e contextos de trabalho, com o propósito de educar o cavalo e aumentar o seu nível de auto-confi ança. Normalmente, também o sair de casa pode ir sendo escalado em grau de dificuldade:

- Sair de casa… em descontracção: ir a casa de amigos; treinar em ambientes diferentes, sem stress nem pressão de objectivos específicos ou resultados;

- Introduzir o cavalo ao ambiente de prova: ir ao concurso, mas não competir poderá ser um outro ponto importante no nosso plano de trabalho;

- Iniciar a competição como parte do treino: sabendo sempre gerir a gestão da competição como parte do plano de trabalho do cavalo e também do cavaleiro.

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4. A introdução à competição

Quando o nosso cavalo já demonstra estar numa zona de conforto ao sair de casa, começamos a pensar que está na altura de iniciar a competição. A iniciação à competição é encarada, pela maioria dos cavaleiros e proprietários, como um teste à qualidade do trabalho que o binómio realiza no dia-a-dia. Assim, se o binómio tiver resultados positivos na execução diária do plano de treino, a iniciação à competição está à vista e é positiva.

Surge então uma das questões que mais vezes os meus alunos me colocam: como definir qual o nível de competição mais indicado para mim e para o meu cavalo? A escolha do nível de prova aconselhável é aquela que conseguimos executar em casa sem qualquer tipo de dificuldade. Assim, a zona de conforto do cavaleiro e do cavalo serão mais fáceis de atingir em contexto de prova e será viável iniciar uma nova experiência no plano de treino, com memórias positivas e aumento de confiança.

A competição faz parte da educação do binómio, permitindo aferir quais são os nossos pontos fortes e áreas de melhoria. Definido o nível a competir, importa também ter bem presente quais os nossos objectivos e estratégia a seguir no dia da prova. É crítico que o coach e o cavaleiro se unam na definição do que querem alcançar em prova e não se desviem desse plano. O foco será sempre conseguir repetir em prova o que conseguimos fazer em casa: pode parecer um objectivo pouco ambicioso e fácil de atingir, mas que não é assim tão linear.

Eis como faço com os meus cavalos: na fase inicial de treino do meu cavalo para competição, obrigo-me a definir três ou quatro exercícios que devem ser executados sem erros, fazendo deste objectivo o meu foco. Uma vez alcançado este objectivo inicial, escolherei outros três ou quatro exercícios diferentes, tentando alcançar novamente um resultado positivo neste objectivo, e assim sucessivamente, até verificar que sou eficaz nos exercícios obrigatórios. Só então irei focar-me em conseguir elevar o nível, sem erros, em todos os exercícios da prova.

A prova e suas aprendizagens não terminam na pista, antes pelo contrário. Terminada a prova, a análise do que aconteceu é essencial para continuar a evoluir: sempre que possível filme a sua prova e reveja-a com o seu coach e tracem um plano de melhoria para o futuro. Mantenha sempre o seu auto-controlo e espírito positivo, assumindo que a experiência em pista é fundamental para uma evolução positiva e crescimento dos atletas.

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5. Competição com objectivos

Este é o momento pelo qual muitos atletas anseiam e de enorme importância para a carreira desportiva do cavalo e cavaleiro! Quando o nosso parceiro demonstra estar já na sua zona de conforto em contexto de prova, é o momento de delinear a estratégia competitiva em si.

Mas mais do que pensar em resultados isolados, importa criar uma estratégia coerente e global que tenha em consideração a imagem que vai ser criada sobre o binómio. E é por isso que, no momento em que decidimos competir com objectivos, a primeira noção que devemos manter é a de «sermos ambiciosos, mas realistas».

Obviamente que associado à actividade de competir está inerente a vontade de vencer! Mas o auto-conhecimento é fundamental para manter os «pés assentes na terra» e não defraudar as nossas expectativas, nem da equipa que nos acompanha.

Nesta fase, volta a ser fundamental (re)definir o nível em que se vai competir. E aqui recordo um tema muitas vezes esquecido: é necessário fazer uma análise da concorrência, para situar o binómio face aos demais e só então tomar a decisão estratégica do nível em que queremos competir. Só assim podemos encontrar um ponto de referência e um objectivo a traçar, que pode ser o de obter um lugar na classif cação geral ou simplesmente alcançar uma pontuação que me dê um ponto de partida.

Estabelecido o nível a competir deve então manter-se sempre em foco a necessidade de competir com consistência. E o que significa competir com consistência? Passa por aparecer, sistematicamente, perante o painel de juízes apresentando um conjunto agradável, correcto, sem erros de pista e com uma média segura, que não oscila a cada prova. Antes de pensar na média a alcançar, é essencial garantir que, no nível escolhido, o conjunto consiga alcançar uma performance sem erros. Este deve ser o ponto de partida e o barómetro comparativo para as provas seguintes. Atingido o objectivo de uma prova limpa, mais do que alcançar excelentes notas, é fundamental procurar a consistência. A meta passa por subir a média, não apenas ter novos recordes. A regularidade e consistência do trabalho irá permitir ao próprio cavaleiro estabelecer a sua zona de conforto em pista.

Quando se dá início ao capítulo da competição e já se atingiu o nível de conforto de uma prova consistente e sem erros, inicia-se então um outro tipo de estratégia para ir buscar mais pontos: passamos a aumentar o nível de exigência até ao «Dia D». Devemos construir a nossa estratégia dentro do plano de competição com foco num objectivo último, o que normalmente chamo de «Dia D». Este pode ser a final do campeonato ou os Jogos Olímpicos – é o objectivo que me propus alcançar com o meu companheiro.

E tal só é possível se gerirmos os resultados com pragmatismo e confiança. As provas levam-nos para uma situação onde estamos expostos à opinião geral e as pessoas tendem a basear-se nos resultados. Mas nós, os atletas, temos de saber viver com o que temos e saber que, quando perdemos, não somos os piores e quando ganhamos não somos os melhores do mundo. A nossa avaliação de cada prova deve advir da combinação dos nossos objectivos, do sentimento em pista e do resultado de pontuação final. Para sermos imparciais e justos, é de extrema importância rever as provas em casa acompanhado por uma pessoa do team e analisar detalhadamente as notas e comentários dados pelos juízes.

Mas, acima de tudo, importa recordar que devemos encarar a competição como uma extraordinária oportunidade de crescimento e aprendizagem contínua – um instrumento de auto-superação. É uma oportunidade de estar entre os melhores e aprender com eles, vivendo sempre o espírito desportivo com atitude positiva e fair-play.

É uma bênção podermos fazer o que mais gostamos, formando equipa lado a lado com um animal de uma sensibilidade e nobreza formidável como é o Cavalo. É com este nosso companheiro que traçamos um caminho e é ele que nos dá tudo – e é por isso que este desporto só faz sentido quando lhe devolvemos a amizade, dedicação e carinho. Nunca olhem para o vosso cavalo como um instrumento, mas sim como o vosso companheiro e amigo fiel.

É esta a perspectiva que procuro incutir nos meus alunos e em todos os que procuram os meus conselhos. E foi essa a noção que tentei transmitir ao longo destes cinco artigos de opinião com a Revista Equitação, a quem gostaria de reiterar o agradecimento pelo convite para trabalharmos em conjunto e louvar pelo extraordinário papel que desempenha na informação e transmissão de conhecimento para a comunidade equestre portuguesa.

 

Artigo publicado in Revista Equitação n.º 140 , Novembro/Dezembro de 2019

 

Veja também:

A importância do coach

Equitação com método - a definição do plano de trabalho

O plano de trabalho continua (dentro e fora de casa)

A introdução à competição

Competição com objectivos

Autor:

Daniel Pinto

equitacao@invesporte.pt

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