Equitação Natural. 10 JAN 2020

Quem vai ao mar avia-se em terra

Não podemos querer treinar comportamentos dos nossos cavalos na altura que precisamos deles, diz a especialista em comportamento equino Lauren Fraser. Só quem treina antes pode estar preparado para a situação urgente quando realmente precisa que o cavalo faça algo.


Tempo de Leitura: 12 min

Neste artigo vamos explorar o significado desta regra e dar muitos exemplos concretos para a aplicação da mesma.

Um comportamento é qualquer coisa que o cavalo faz e que podemos observar. Pode ser algo tão simples como baixar a cabeça para pastar ou tão complicado como uma pirueta a galope. Pode ser algo positivo, como entrar na roulotte, ou pode ser negativo para nós, como a recusa de entrar na roulotte. Não precisamos de influenciar todos os comportamentos do nosso cavalo, mas há muitos exemplos de comportamentos negativos que queremos evitar, tal como morder, dar coices ou fugir. Há uma lista ainda muito maior de comportamentos que gostaríamos de ter disponíveis no maneio normal, mas que às vezes parecem impossíveis.

Para treinar um comportamento específico, temos que saber o que queremos. Em muitos casos, só sabemos o que não queremos, por exemplo, “quero que o meu cavalo não faça fita para entrar na roulotte”. “Quero que o meu cavalo não fuja de mim quando tento apanhá-lo”. “Quero que o meu cavalo não mexa as pernas quando o ferrador está a tentar segurar o casco”.

Quando focamos no comportamento que não queremos,Dr Manuel Lamas temos poucas opções de treino. Basicamente só nos resta o castigo. O castigo desincentiva o comportamento não desejado e diminui a frequência desse comportamento. Se o cavalo nos morder, podemos castigá-lo até ele não nos morder. Castigar até ceder é uma maneira eficaz de evitar os comportamentos não desejáveis, mas o castigo tem efeitos secundários graves. O castigo é baseado em dor ou, pelo menos, desconforto físico para o cavalo.       Às vezes não vamos tão longe, mas apenas assustamos ou ameaçamos os cavalos. de qualquer modo, o cavalo vai associar os sentimentos de dor ou medo não só à situação do comportamento indesejado, mas generalizar a associação com a pessoa ou os objectos usados no treino. Por exemplo há muitos cavalos que têm medo generalizado do chicote e/ou do stick, o que dificulta o uso dessas ferramentas para ensinar manobras avançadas.

O uso de castigo pode causar reacções fortes de stress no cavalo, que até se pode tornar agressivo ou tentar fugir a todo o custo. No mínimo, o castigo reduz a confiança que o cavalo tem na pessoa e faz piorar a relação entre humano e equino. Mesmo se conseguimos às vezes evitar um comportamento indesejado com uso de castigo, muitas vezes não conseguimos mudar as razões na origem do comportamento e assim surgem novos comportamentos indesejáveis.

Por estas razões, é importante evitar o castigo como principal método de treino comportamental do cavalo. Para abrir o leque de opções, é preferível não definir o comportamento apenas de forma negativa. Se conseguimos formular o comportamento desejado que queremos atingir, é muito mais fácil pensar em outras formas de treino que não se apoiem apenas em castigo. Por isso, o primeiro passo será definir o comportamento que quer ver no seu cavalo, como nestes exemplos: manter uma distância confortável; dar os pés de forma calma e atravessar água com confiança.

As outras opções de treino, além do castigo, são principalmente o reforço positivo e o reforço negativo. O treino do reforço positivo muitas vezes toma a forma de clicker training, quando fazemos um som e damos uma recompensa alimentar para reforçar um comportamento específico. No treino dos cavalos o mais comum é o reforço negativo, quando aplicamos uma certa pressão que tiramos quando o cavalo faz o que queremos. Por exemplo, puxar a rédea até o cavalo ceder ou ameaçar com o chicote até o cavalo entrar na roulotte. Ambas as formas de treino funcionam melhor do que o castigo.

Obstáculos

Preparação é tudo!

Qualquer treino tem como objectivo preparar o cavalo calmamente para um comportamento específico, que muitas vezes vamos querer repetir em ambientes mais difíceis, como concursos, feiras ou excursões ao exterior. Preparar o cavalo para essas situações requer planeamento, esforço e tempo.

Embora seja possível treinar um comportamento na altura em que precisamos dele, por exemplo treinar o cavalo a aceitar uma injecção quando o veterinário a quer dar, muitas vezes a pressão que sentimos para conseguir o nosso objectivo tem um impacto negativo na nossa capacidade de treinar. O cavalo vai simplesmente sentir o nosso stress e vai associar o stress à situação que queremos treinar.Treino

Um exemplo muito óbvio para um cavaleiro de Dressage será uma passagem de mão a galope. Ninguém espera de um cavalo que ele mostre uma boa passagem de mão numa prova de Dressage sem alguma vez ter treinado esse exercício em casa. Nem iríamos treinar o exercício apenas uma ou duas vezes em casa. Pelo contrário, estamos, de certeza, todos de acordo que esse exercício difícil deve ser treinado exaustivamente em casa, para o cavalo poder mostrá-lo com alguma confiança num ambiente mais difícil de concurso.

Para mudar a disciplina do exemplo, vamos aos obstáculos. Quando queremos atingir o objectivo de ganhar uma prova de obstáculos de 1,20m, não começamos logo a treinar um percurso inteiro de obstáculos dessa altura. Começamos com menos obstáculos e de menos altura e vamos progressivamente aumentar a dificuldade no treino, para não haver surpresas no dia da prova.

No mundo dos concursos esse treino preparativo e progressivo parece óbvio, mas no dia-a-dia do maneio temos numerosos exemplos onde pedimos no momento um comportamento ao cavalo que nunca antes treinámos com calma: levar uma injecção, deixar-se ferrar, aceitar a tosquia, entrar na roulotte ou andar pela mão, por exemplo para a inspecção veterinária num concurso. Se não treinamos um comportamento antes de precisar dele, pode resultar em situações onde vamos precisar de pressão excessiva para conseguir o objectivo imediato.

É nessas ocasiões que vemos cavalos a entrar na roulotte em grande stress, com várias pessoas atrás, com guias, chicotes, etc. o que acontece é que o cavalo acaba por ceder à pressão, mas vai de certeza associar a situação com medo e possivelmente dor. Por isso, na próxima vez que tentamos entrar numa roulotte, ainda vai ser mais difícil. Mesmo treinando com muito cuidado, as impressões negativas ficam gravadas para sempre na memória do cavalo e se algo lhe fizer lembrar o passado, isso vai tornar o treino mais complicado. Infelizmente é um facto que resulta da evolução de um animal de presa - ele memoriza para sempre qualquer situação onde sentiu que escapou à morte. Podemos repetir a mesma situação “n” vezes de forma positiva, sem nunca conseguir apagar completamente a memória má.

Por vezes, nem toda a pressão possível consegue resolver o caso. Tal como dizia Benjamin Franklin, “Quem não leva a sério a preparação de algo, está a preparar o fracasso”.

gua

Como preparar

Por todas estas razões, a única solução sensata é preparar! os passos para essa preparação são os seguintes.

Em primeiro lugar, defina claramente qual é o comportamento que quer treinar. Formular o comportamento de forma positiva, por exemplo: quero que o meu cavalo ande a passo e trote ao meu lado direito sem puxar nem invadir o meu espaço. Quero que o meu cavalo entre na roulotte sem stress. Quero que o meu cavalo aceite uma injecção sem se mexer.

A seguir, faça um plano de treino para o comportamento em causa, definindo tantos sub-objectivos como possível. Imagine o que é preciso para o cavalo aceitar uma injecção: o dono segura o cavalo no cabeção, enquanto o veterinário toma a posição ao lado do pescoço. É aqui que o seu cavalo fica nervoso? Só se for o veterinário ou com qualquer pessoa? A seguir, o veterinário (ou a pessoa que está a ajudar com o treino) vai tocar no pescoço à procura do sítio certo. Para uma injecção no músculo, se calhar faz uma prega na pele para o cavalo sentir menos a injecção, ou dá umas palmadas no músculo antes de injectar. O seu cavalo consegue suportar esses movimentos sem entrar em stress? A seguir, o cavalo vai sentir a picada, uma dor ligeira que podemos simular com uma seringa sem agulha.

Podemos treinar com calma todas essas etapas, e mais algumas, sem ter o veterinário de facto presente. Neste exemplo o cavalo nem tem de fazer nada, excepto ficar calmo. Por isso podemos treinar com tacto e cuidado o primeiro passo que imaginamos poder causar um nível pequeno de stress no cavalo. Se tivermos razão e o stress for apenas reduzido, podemos simplesmente esperar até o stress diminuir. Continuamos a fazer o que estamos a fazer e o que está a causar um reduzido nível de stress. Se o stress realmente for pouco, vai certamente diminuir e paramos no momento que o cavalo relaxa.

Se nos enganámos e causamos logo stress a um nível elevado que não permite simplesmente esperar, podemos reduzir o nível do estímulo, por exemplo colocar a mão perto do pescoço, mas sem tocar. não devemos parar completamente enquanto o cavalo está a mostrar medo, mas apenas quando o cavalo consegue relaxar. Quando ele relaxa, tiramos a nossa mão e damos uns momentos de harmonia e pausa para reforçar o comportamento desejado.

Roulotte

Infelizmente os nossos instintos dizem muitas vezes o contrário: quando o cavalo mostra medo, queremos parar, ou porque não gostamos de assustar o cavalo ou porque temos medo do cavalo. Mas, se paramos nesse momento, estamos a ensinar ao cavalo que o stress foi justificado. Por outro lado, quando o cavalo está calmo, queremos continuar ou porque sentimos que o treino está a correr bem ou porque realmente temos um assunto para despachar, uma injecção para dar. Mas é o intervalo em harmonia que ensina ao cavalo que manter a calma e relaxar foi a opção acertada.

Podemos treinar os nossos instintos em muitas situações pequenas do dia-a-dia. Quando aplicamos repelente de insectos devemos continuar quando o cavalo mostra medo, mas parar quando ele relaxa. Basta pararmos apenas para um intervalo de 30 segundos, porque esse intervalo é importante para reforçar o comportamento desejado.

Quando limpamos os cascos, devemos ser nós a pousar calmamente a mão do cavalo. Se o cavalo nos arrancar o casco das nossas mãos, devemos voltar a levantar a mesma perna para sermos nós a pousá-la calmamente.

Sempre que sentimos nessas práticas que não conseguimos o nosso objectivo, que precisamos de aplicar pressão excessiva, que estamos a entrar em confronto ou que o cavalo não está a conseguir relaxar, é porque estamos a proceder de forma demasiado rápida. nessas alturas, devemos dar um passo atrás, pensar como podemos treinar um sub-objectivo mais simples antes de voltar a tentar esse outro. não devemos acabar uma sessão de treino com stress e insucesso. Mesmo quando não conseguimos fazer o que queríamos, há sempre um comportamento mais fácil que podemos pedir e que o cavalo vai fazer bem.  Se não consigo entrar na roulotte hoje, posso acabar a sessão de treino com o cavalo relaxado com as mãos na rampa da roulotte. Amanhã dará outro passo em frente!

Se fizermos um bom plano de preparação podemos evitar causar traumas aos cavalos em situações que são perfeitamente possíveis planear e preparar. Há sempre imprevistos, mas a nossa sorte é que, treinando mais situações em preparação, vamos aumentar muitíssimo os níveis de confiança entre nós e o nosso cavalo e, assim, acabamos por estar preparados, mesmo para situações completamente imprevistas. e ainda por cima, esses treinos podem ser divertidos!

 

Artigo publicado in Revista Equitação n.º 140 , Novembro/Dezembro de 2019

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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