Feiras. 23 DEZ 2019

FNC - Celebrar a tradição

Para muitos daqueles ligados ao mundo equestre passa-se um ano inteiro à espera da Feira Nacional do Cavalo, na Golegã, para conviver, relembrar histórias, criar novas memórias e celebrar o Cavalo.


Tempo de Leitura: 8 min

Apesar da chuva, que foi uma constante nesta edição, foram milhares as pessoas que passaram pela Capital do Cavalo entre 1 e 11 de Novembro.

O Largo do Arneiro, ponto central da Feira Nacional do Cavalo (FNC), e o espaço em redor voltaram a receber criadores, cavaleiros, profissionais do meio equestre e simples curiosos. Entre a chuva, o cheiro e fumo das castanhas assadas e cavalos e cavaleiros que encheram as ruas, a azáfama foi uma constante nos onze dias em que a tradição regressou à Golegã.

Todos os que montam a cavalo fazem questão, na FNC, de passear na Manga, sendo visível o orgulho que cavaleiros e amazonas demonstram quando por ali desfilam. Exemplo disso é Christine Jacoberger, que todos os anos leva Rubi até à Feira. A proprietária do Lusitano de 21 anos garante que “assim que começam os preparativos, ele sabe que vai haver um evento e recupera logo o vigor, ficando contente por sair de casa”. Acrescentou que “é sempre um prazer vir à Golegã e se um dia já não trouxer o Rubi, não será por causa dele, mas por minha causa, porque já não o conseguirei montar e controlar”.

Quanto aos que não levam animais ou que simplesmente estão ali pela curiosidade, ficam do lado de fora da Manga, a assistir e a admirar os cavalos ou então observam, do interior das casetas, aquele que é o ambiente tão característico da FNC.

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Este ano foi impossível não reparar na grande afluência de estrangeiros, com conversas a chegarem aos nossos ouvidos nas mais diversas línguas. Cruzámo-nos com vários espanhóis, entre os quais Jose Lorenzo, que se referiu à Feira da Golegã como “a feira das feiras, devido ao ambiente, ao respeito pelos cavalos”. Tendo Lusitanos, afirmou que “um dia gostaria de ter aqui cavalos meus”. Também da vizinha Espanha veio Jesus Vicente, um apaixonado por cavalos que vimos a passear-se na Manga. Esta foi a 8.ª vez que esteve na FNC, frisando que “é muito diferente daquilo que se faz em Espanha”.

Durante o tempo que passámos na Golegã encontrámos também Suzanne Rochat, criadora suíça que veio pela primeira vez à Feira de São Martinho. “Vive-se um ambiente muito amigável, toda a gente dá a salvação e podemos aproximar-nos dos cavalos”, explicou. Quanto ao Lusitano, referiu-se a ele como “um cavalo de sonho”, brincando ainda que “ao vê-los assim, dá-nos vontade de ir embora com um”. Esta opinião é também partilhada pela sueca Marie Carlsson, que nos disse que “todas as pessoas deviam ter um cavalo Lusitano”. Esta cavaleira, que montou um Lusitano no Swedish International Horse Show, já esteve na FNC várias vezes e descreve a experiência como sendo um “regresso ao passado, com tantos cavalos, em todo o lado”.

É também normal vermos famílias inteiras a percorrer as ruas da vila Ribatejana durante os dias da Feira. Se num caso são os filhos que incentivam os pais a vir, como é o caso de Celeste Menezes, cuja filha pratica Horseball, outros há em que são os pais a incutir as tradições nas gerações mais novas, como acontece com o cavaleiro Ângelo Seco, que se fez acompanhar dos dois filhos na Manga.

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A tradição é algo que tem sido uma constante nesta feira mas a verdade é que há uma necessidade do meio em se adaptar a uma nova realidade. Enquanto antigamente a FNC era um dos principais momentos para se comercializar cavalos, nos dias de hoje essa tendência tem-se perdido. Fazendo uso das novas tecnologias, Tiago Tomé e Sandra Naujouks deram a conhecer no certame o projecto LusoLove, que consiste numa aplicação móvel para comercializar Lusitanos. Tiago Tomé revelou “que os visitantes demonstraram curiosidade, embora a aplicação não esteja ainda a funcionar, já apresentámos aqui cavalos de clientes”.

O programa do certame voltou a ter uma componente cultural, com exposições de pintura, escultura, aguarelas e cerâmica e fotografia a decorrerem no Equuspolis, no Clube do Criador (Picadeiro Lusitanus) e na Casa-Estúdio Carlos Relvas. Foi ainda lançado o álbum “Da Golegã”, de Rui Santos Barreiros.

O Largo do Arneiro foi também palco das homenagens a Filipe Figueiredo Graciosa, que faleceu no início deste ano, e a Joaquim Bastinhas, que nos deixou no final de 2018. Também os Campeões Nacionais das diversas disciplinas equestres foram chamados à pista para os Prémios Golegã – Distinção à Excelência Equestre.

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Quanto às noites da última quinta e sexta-feira do certame, foram animadas pelos espectáculos equestres do Centro Equestre da Lezíria Grande e “Ibéria”. Este último foi uma apresentação comemorativa da assinatura do Protocolo de Cooperação entre a FNC e a Feira Equestre de Badajoz e o Município da Golegã e o Ayuntamento de Almonte.

Por falar em colaboração, graças a um intercâmbio entre França, Espanha e Portugal, os militares da GNR fizeram-se acompanhar, nesta edição da FNC, por elementos da Gendarmerie francesa e a Guardia Civil espanhola.

De destacar ainda mais uma edição do Baile da Jaqueta que juntou, na Quinta dos Álamos, 170 pessoas e onde foi homenageado o cavaleiro tauromáquico colombiano Jacobo Botero e a cavaleira tauromáquica portuguesa Soraia Costa.

A FNC terminou no dia de São Martinho com a tradicional Bênção e Cortejo dos Romeiros de São Martinho, que começou na Porta Fernão Lourenço e terminou no Largo do Arneiro.

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“Queríamos que a Feira decorresse com nível, dignidade e segundo os critérios que tínhamos já estabelecido no ano passado, em termos de horários. Podemos afirmar com regozijo que esta foi uma edição que decorreu com nível e categoria”, adiantou José Veiga Maltez, presidente da Câmara Municipal da Golegã e da FNC. Explicou ainda que um dos objectivos “é tornar a Golegã num destino turístico internacional”. “A Feira está sempre a crescer, mas não deve evoluir de forma a que se anule”, rematou.

Enquanto feira franca e, por isso, sem forma de apresentar um número exacto, durante os onze dias do certame passaram pela vila ribatejana milhares de visitantes, entre os quais esteve a Ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque.

Quanto aos cavalos, foram inscritos mais de 2300 animais, aos quais se juntaram mais de 500 equídeos que participaram nas várias provas.

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Palco de finais

A FNC tem sido o local escolhido, nos últimos anos, como palco para finais de Campeonatos Nacionais e Taças de Portugal, nas mais diversas disciplinas.

No caso da Equitação de Trabalho, conheceram-se os campeões nos dois circuitos. Começando pelo Campeonato Nacional, o destaque vai para Gilberto Filipe, que revalidou o título de campeão no escalão de Masters, novamente com Zinque das Lezírias, enquanto em Cavalos Debutantes subiu ao 1.º lugar do pódio montando Irânio Ferraria.

Em Consagrados a medalha de ouro foi conquistada por Mafalda Galiza Mendes, na sela de Isco. Em Sub-20 a vitória esteve a cargo de Diogo Duarte Oliveira, em Heros, enquanto nos Sub-16 foi melhor Carolina Mendes Mariani, que competiu com Faial.

Na Taça de Portugal foi Mafalda Galiza Mendes a garantir a vitória em dois escalões: com Gambrino em Masters e com Isco em Consagrados. Em Cavalos Debutantes foi melhor Gilberto Filipe, em Irânio Ferraria. Diogo Duarte Oliveira e Heros também aqui se sagraram campeões. Já em Sub-16 terminou em 1.º Nicole Silva, na sela de Hábil de Sena.

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Na disciplina de Atrelagem disputou-se o Campeonato Nacional de Combinado de Maratona, que contou com 23 participantes nas diversas classes. Os novos campeões são: Carlos Apolinário (4 Cavalos), Hugo Frias (Parelhas), João Frias (1 Cavalo), Filipe Nunes (1 Pónei), Bernardo Losa (Juvenis) e Afonso Ribeiro (Iniciados).

No Horseball disputou-se a final da Taça de Portugal entre o Sintra Horseball Team e a Quinta de Santo António, com esta última a conquistar o título de campeã sénior.

Também no TREC se conheceram os vencedores da Taça de Portugal: Paulo Sábio (Seniores), Diogo Sousa (Jovens Cavaleiros), Natacha Nunes (Juniores) e Rita Sousa (Juvenis).

Foi também na FNC que se disputou a primeira etapa do Campeonato Nacional Inter-escolar de equitação, com a vitória a ficar a cargo da Escola Profissional de Agricultura de Marco de Canaveses (EPAMAC).

Na Dressage o vencedor do Troféu Marquês de Marialva foi Ricardo Tavares, com Baluarte da Brôa. Já nos Saltos de Obstáculos Filipe Gonçalves, com El Santo, venceu a prova de 6 barras - IV Troféu Pedro Faria. Disputaram-se ainda provas de Raides e Equitação à Portuguesa.

Fotos: José D'Oliveira e Sousa, Fernando José, Bárbara M. Da Costa/Equestrez, ABRFotografia, AUrélio Grilo, Nuno Matos/FNC

 

Artigo publicado in Revista Equitação n.º 140 , Novembro/Dezembro de 2019

 

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Autor:

Carla Laureano

carlalaureano@invesporte.pt

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