O Cavalo e a Arte. 17 DEZ 2019

O Cavalo e a Atrelagem na Arte Romana

A presença da imagem de cavalo, e do cavalo ligado à atrelagem, é uma constante significativa na arte romana durante séculos.


Tempo de Leitura: 9 min

No último artigo sobre este tema, que temos feito acompanhar os artigos sobre a atrelagem na antiguidade e que saiu no n.º 137 da “Equitação”, focámos um excelente exemplo de mosaico existente no território nacional, nomeadamente o da vila da Herdade de Torre de Palma, no norte do Alentejo.

Os cincos cavalos aí representados ligados às corridas de atrelagem são apenas um exemplo dos muitos mosaicos que na Península Ibérica e no norte de África têm como base a temática das corridas e verificamos que é das mais recorrentes no trabalho dos mosaicistas em todo o império romano durante séculos. A peça que trazemos agora à atenção dos leitores não é, no entanto, uma representação de um cavalo ou de uma equipagem como tantas que já aqui mostrámos. No entanto ela está ligada à atrelagem e o seu interesse justifica a sua inclusão neste artigo.

Figura 1

Fig. 1 - Peça romana encontrada em território nacional, perto de Estremoz, em Santa Vitória do Ameixial

Na reprodução fotográfica apresentada na Fig. 1 voltamos a focar um exemplo de uma peça romana, encontrada em território nacional, perto de Estremoz, em Santa Vitória do Ameixial. Como refere o catálogo elaborado em 1994 para uma exposição no Museu Nacional de Arqueologia, esta peça em bronze deveria pertencer ao topo de uma “lança”, ou seja, do timão central de um veículo de dois animais a par (no mínimo), lança essa que normalmente estava ligada ao dorso dos animais por um jugo (mais ou menos acolchoado) para efeitos de tracção. O jugo e demais enredeamento não estão presentes e não acompanham a peça já que estes arreios eram normalmente constituídos por couro (e, ou, cordame), não resistindo à passagem do tempo com a mesma facilidade das peças de bronze. Esta peça pertencia à colecção privada do Sr. Francisco Barros e Sá que a deixou, bem como uma grande colecção de peças artísticas e arqueológicas ao Museu Nacional de Arqueologia.

Esta colecção de objectos bem como outras duas colecções semelhantes, pertencentes aos senhores D. Luís Bramão e António Júdice Bustorff Silva, foram doadas aos Museus do Estado e foi elaborado um circunstanciado catálogo com imagens das principais peças, colecções essas que pertencem hoje ao espólio do Museu Nacional de Arqueologia desde 1995, e que foram expostas em conjunto ao público, nesse ano.

A peça em causa conforme refere o catálogo na sua página 215, representa "busto de homem idoso adossado a um plinto cúbico, com rebordo saliente em duas das suas faces. Como já referimos, o busto é de bronze com um patine esverdeada e pesa cerca de meio kg. Deveria estar no topo do timão central do veículo, timão esse de madeira e de secção quadrangular (mas de arestas levemente boleadas)". Para fixação diz-nos o texto do catálogo que "o plinto é oco e possui dois orifícios diametralmente opostos, ao centro das paredes laterais. A forma pressupõe encaixar-se numa peça de madeira […], fixa por cavilhas colocadas nos agulheiros abertos para o efeito". 

É curioso verificar que, ainda nos dias de hoje, a fixação traseira das lanças (ou timões) na atrelagem se faz de forma semelhante ao modo como aqui se pratica para a peça dianteira. Refere este mesmo texto do catálogo que existem "peças tipologicamente idênticas" no Museu de Rabat, e outra no Museu Arqueológico de Sevilha. Antes da colecção Barros e Sá ser transferida para o Museu Nacional de Arqueologia, ela foi doada ao Estado e esteve inclusa nas colecções do Museu das Janelas Verdes. A Dra. Maria Alice Beaummont, que era sua directora e que tivemos a honra e o prazer de conhecer pessoalmente, refere-se a Francisco de Barros e Sá como um verdadeiro amigo do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) e era consultado regularmente produzindo pareceres técnicos qualificados, sobretudo na sua área de maior especialidade ("prataria… marcas e punções"). Legou toda a sua colecção ao MNAA por disposição testamentária de 1969 e, tratando-se de material de contexto arqueológico, pertence hoje ao espólio do Museu Nacional de Arqueologia.

Não deixa de ser significativo que peças como estas sejam encontradas em território nacional, o que poderá significar que as ornamentações dos veículos de qualidade não seriam menores neste recanto lusitano do que em outro qualquer local da Península Ibérica ou do Império.

Figura 2

Fig. 2 - Peça em terracota, datada do século II ou III d.C., decorada com uma cena de quatro quadrigas em plena prova de uma corrida num hipódromo romano

A segunda peça (Fig. 2) que neste artigo se apresenta é também muito curiosa, pois, sendo apenas uma lucerna de reduzidas dimensões é decorada com uma cena de quatro quadrigas em plena prova de uma corrida num hipódromo romano. A peça, em terracota (barro cozido) datada do século II ou III d.C., para além das equipagens em disputa procura ser tão completa quanto possível, pois, para além da presença do público espectador, inclui, no seu conjunto, as portas de quatro cárceres (de onde as quadrigas saem para a pista), e ainda inclui o desenho em relevo das metas que se situavam normalmente na extremidade do separador central do hipódromo ("metae") e as esculturas, obeliscos e outras peças ornamentais que os romanos apreciavam contemplar no separador central da pista.

Figura 3

Fig. 3 - Copo cerâmico encontrado em Colchester, no Essex, em Inglaterra

Temos repetidamente recordado que o fenómeno da realização de corridas de bigas e quadrigas era uma constante por todo o império romano e encontramos vestígios desse facto até em locais em que a romanização não foi tão estabelecida e consolidada como o foi na Península Ibérica. É disso exemplo o copo cerâmico (Fig. 3) encontrado em Colchester, no Essex, em Inglaterra. Pertence às colecções do Museu Britânico e, em relevo, está representada uma corrida em que várias quadrigas galopam a toda a velocidade em volta da face redonda e bojuda do recipiente. Este tipo de peças era muitas vezes produzido para venda aos muitos espectadores e aficionados presentes onde quer que se realizassem competições deste género. Em Inglaterra não se conhecem vestígios arqueológicos de hipódromos construídos em pedra ou pistas com limites claramente visíveis que possam constituir indicação segura de ter aí havido pista de competição. No entanto, como bastava um campo nivelado com piso e dimensões adequadas para a realização de provas, é fácil compreender que dois mil anos depois seja difícil ou impossível encontrar um exemplo concreto de hipódromo. Tal não quer dizer que não se tenham realizado as competições, da mesma forma como eram realizadas no resto do império. Até em Colchester foram encontrados copos de vidro importados da Alemanha e dedicados à mesma temática e que até ostentam os nomes de Cresces Hierax, Olympaeus e Antilochus, celebrando as vitórias destes aurigas, cuja fama era tão notável que mereciam ser honrados desta forma. Apresenta-se reprodução fotográfica deste recipiente na Fig. 4, recipiente esse que consta também das colecções do Museu Britânico em Londres. Nesta peça, para além dos nomes dos aurigas já citados, temos a representação das quadrigas em competição e, no meio, os adornos usuais do separador central da pista, em hipódromos de primeira qualidade.

Figura 4

Fig. 4 - Copo de vidro com representação das quadrigas em competição

Finalmente, na Fig. 5 apresentamos uma representação de cavalos e cavaleiros romanos triunfando na sua luta contra os bárbaros.

Escolheu-se esta peça pois julgámo-la menos conhecida mas bastante representativa de uma certa decadência do império romano do Ocidente. Ela data de cerca de 325 e é tida como sendo o Mausoléu de Santa Helena, mãe do imperador Constantino. O enorme bloco é de pórfirio (pedra duríssima e difícil de trabalhar) e encontra-se actualmente no Museu do Vaticano. Helena, canonizada pela igreja católica pela sua acção em prol do cristianismo e da sua instauração como religião do Estado pelo imperador Constantino, mesmo após a sua morte teve história agitada e nos parece bem estranho que o seu túmulo/mausoléu seja decorado com cenas de batalha tão pouco consentâneas com a sua piedosa história de procura e recolha de vestígios da crucificação de Cristo na terra Santa.  

As dificuldades de concepção e execução da anatomia dos animais face à dureza do pórfiro estão patentes no resultado final, patente na reprodução fotográfica.

Figura 5

Fig. 5 - Representação de cavalos e cavaleiros romanos triunfando na sua luta contra os bárbaros

Autor:

JP Magalhães Silva

equitacao@invesporte.pt

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