Criação. 06 DEZ 2019

Haras de La Gesse

Uma referência mundial na Criação do Cavalo Lusitano


Tempo de Leitura: 15 min

A imagem idílica de uma coudelaria onde os cavalos são “felizes” em verdes prados e em comunhão com a natureza, com outros animais e com os seres humanos não existe apenas nos filmes. O Haras de La Gesse, no Sudoeste de França, é a prova de que este é o cenário ideal para, com uma equipa multidisciplinar altamente diferenciada, criar cavalos de desporto de excelência. Os resultados falam por si, mas o Haras merece ser visitado.

Em 2012, Helen Burgess apaixonou-se pelo Puro Sangue Lusitano (PSL) e quis mostrar ao mundo todas as suas potencialidades, principalmente no desporto. Rodeou-se dos melhores especialistas e tornou o sonho de criar cavalos de desporto de excelência numa realidade. Mas foi mais além: criou uma espécie de “paraíso na Terra” para os cavalos PSL, warmblood, mas também para outros animais, como Miniature Horse, burros autóctones franceses e ainda patos, perus, galinhas, gansos, ovelhas, porcos, pavões, cães e gatos. Foi assim que o Haras de La Gesse (HDLG) se tornou uma referência na criação e está muito perto da excelência no desporto. Tudo isto em cerca de dez anos, o correspondente a uma geração equina.

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Isabel Pinto e Hot Chocolat de La Gesse

“O Haras de La Gesse tem desenvolvido, nos últimos anos, fruto de um trabalho rigoroso e altamente especializado, a selecção e produção de cavalos lusitanos e warmblood com vocação desportiva, mas no caso do PSL sem perder as suas características raciais tão particulares e que o tornam único no mundo”, apresenta António Vicente, consultor do HDLG na área da genética. E acrescenta: “Para isso muito tem contribuído uma equipa multidisciplinar, com especialistas de várias áreas de actuação, com recurso a técnicas de reprodução assistida para permitir encurtar os longos intervalos de geração que normalmente existem em equinos.”

Este é, de resto, um dos principais desafios antecipados por esta equipa. Foi assim que surgiu a aposta na transferência embrionária para poderem obter mais produtos das éguas que melhor servem os seus objectivos produtivos (ver “Uma referência na criação”). “A criação e a selecção metódica que temos praticado tem-nos permitido obter produtos de qualidade crescente, mantendo a fidelidade ao padrão racial do cavalo lusitano. Prova disso é a obtenção do título de melhor criador de França da raça lusitana nos últimos quatro anos”, exemplifica António Vicente.

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Bruno Miranda e Scotch de La Gesse

Excelência e resultados da avaliação morfológica à Dressage

Este reconhecimento levou a coudelaria a apostar em apresentar também animais montados para demonstrar a funcionalidade do cavalo lusitano. O consultor destaca os seguintes resultados: “O Loki de La Gesse foi campeão de campeões da raça com um ano, apresentado à mão, e este ano repetiu a proeza, desta vez apresentado montado na classe de quatro anos. Adicionalmente ganhámos também a classe de éguas montadas, com Líbia de La Gesse, e várias classes de poldros apresentados à mão, como foram os casos de Organza de La Gesse (campeã fêmea), de Nikita de La Gesse ou de Oural de La Gesse, com a obtenção de diversas medalhas de ouro e de prata e de melhores andamentos em várias classes do campeonato (Organza, na classe de fêmeas de um ano, Líbia nas éguas montadas, Oural em poldros de um ano e Loulou na classe de quatro anos montados).”

Mas falar de resultados é “chamar à conversa” os cavaleiros “da casa”, Miguel Marques e Luís Butes, orientados pelo gestor e cavaleiro chefe, Bruno Miranda, que, como Helen Burgess refere, “apresentaram exemplarmente as suas montadas com comentários muito elogiosos”. E é preciso igualmente falar de José Miguel Vinagre, responsável pela apresentação de todos os animais à mão, que “potenciou e evidenciou a grande qualidade dos animais em competição, com resultados notáveis”, destaca a criadora.

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Mado Pinto e Rafale du Coussoul de La Gesse

Mas o objectivo principal da coudelaria é a produção de cavalos atletas para competição desportiva de Dressage, daí o director técnico ser o cavaleiro olímpico Carlos Pinto, que comanda e treina uma

equipa de cavaleiros e de profi ssionais no Haras, com estágios mensais de acompanhamento da evolução dos cavalos, para além de ter vários animais em treino e em competições nacionais e internacionais. “Tem sido crescente a participação de animais da criação e da propriedade do Haras de La Gesse em provas de Dressage, com várias vitórias de Carlos Pinto e de sua esposa Isabel Pinto em provas de Grande Prémio com os cavalos Sultão Menezes de La Gesse e Hot Chocolat de La Gesse, não esquecendo a prestação notável de sua filha Mado com Rafale du Coussoul de La Gesse. A equipa de competição do Haras de La Gesse tem ganho várias etapas do Campeonato de França de Dressage (Grand National de Dressage), ocupando provisoriamente o primeiro lugar da geral, e o cavaleiro residente, Bruno Miranda, foi recentemente quarto classificado na mesma competição, com o cavalo Temível Menezes de La Gesse”, releva Helen Burgess.

Também o treino tem os seus “segredos” no HDLG. “O treino dos nossos animais começa no primeiro dia de vida!”, enfatiza a proprietária do HDLG. E acrescenta: “Todos os poldros são manuseados desde o nascimento, com um contacto frequente e positivo com o Homem. Deste modo estão perfeitamente sociáveis e habituados ao contacto com todos os funcionários do Haras. Desde o nascimento, e com uma periodicidade de 15 dias, todos os poldros são pesados e medidos (altura ao garrote, perímetro torácico e perímetro da canela).”

Bruno Miranda e loulou de la gesse

Bruno Miranda montando Loulou de La Gesse

Tratar os cavalos como atletas

É graças a este trabalho que António Vicente afirma que “quando chega a altura do trabalho de desbaste, todos os animais estão perfeitamente sociáveis e capazes de iniciar um trabalho sem reacções adversas ou grandes protestos”. Para que se perceba melhor, o sistema de trabalho baseia-se principalmente em seguir as orientações da escala de treino, de forma sistematizada e metódica, adequada a cada nível de equitação e consoante a idade dos cavalos, desde a iniciação até ao nível de Grande Prémio. “Trabalhamos os cavalos dando prioridade sobretudo à calma, sabendo esperar pelos animais, pois nem todos se ensinam ao mesmo ritmo. O mais importante será o trabalho de ginástica, apresentando os cavalos sempre muito flexíveis, bem musculados e descontraídos, sendo que, uma vez por mês, temos a ajuda de Carlos Pinto, com estágio no Haras, onde corrigimos detalhes e técnica, abordagem a novos exercícios, entre outras questões”, explica Bruno Miranda, gestor e cavaleiro do HDLG.

Mas a preparação vai muito além do treino. Além dos pontos focados anteriormente, a preocupação com uma alimentação adequada é outro dos pontos-chave na produção dos cavalos da coudelaria. Há um acompanhamento geral de todos os animais que é transversal a todo o ciclo de produção, “com um grande cuidado na gestão do pastoreio, no sentido de preservar a qualidade e a persistência da pastagem, que é a base da alimentação da maioria dos grupos”, salienta Maria João Fradinho, especialista e consultora em Nutrição e Alimentação de Equinos. Por outro lado, o Haras de la Gesse produz também uma parte dos fenos utilizados na coudelaria. “O feno, quer seja o da casa ou o adquirido ao exterior, é sempre analisado para aferir o seu valor nutritivo, o que permite ter um controlo mais eficiente das dietas, sendo que cada grupo é acompanhado em função das suas necessidades”, adianta a especialista em nutrição.

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Miguel Marques e Líbia de La Gesse

Os planos alimentares são estabelecidos para cada fase específica e há também um controlo da condição corporal dos animais. Assim, “podemos dizer que o acompanhamento nutricional se inicia logo na barriga das mães, embora se deva realçar também, a importância que damos ao acompanhamento do crescimento dos poldros. Este tipo de controlo, evita que se caia em exageros, tão prejudiciais nas primeiras fases do desenvolvimento”, esclarece Maria João Fradinho.

No caso dos cavalos estabulados e já em trabalho, os regimes alimentares estão ajustados de forma individual, em função do seu escalão de peso, do tipo e intensidade do trabalho que executam, da sua condição corporal e não menos importante, como lembra a especialista, “do feedback dado pelo cavaleiro em relação à performance do seu cavalo”.

Líbia de La Gesse e Rafale du Coussoul de La Gesse

 

Chegar a Grande Prémio e mais além

Conhecida a realidade do HDLG, é hora de falar de futuro, mais uma vez, nas palavras de Helen Burgess: “pretendemos ser cada vez mais uma referência mundial na criação do cavalo lusitano, produzindo animais típicos, mas com potencial desportivo de atletas de alta competição; e continuar a ser uma referência na nossa região no apoio a todos os criadores com o Polo de Reprodução e, assim, potenciar o aumento da criação cavalar no sul de França, ganhando, com isto, mais rigor e precisão na nossa criação, não descurando a possível implementação de novas tecnologias reprodutivas, como é o caso da congelação de embriões ou outras técnicas ainda mais evoluídas. Vamos continuar a treinar arduamente, com metodologia, técnica e rigor, superiormente orientados por Carlos Pinto, e assim aumentar o número de animais ensinados do nosso ferro para potenciar a participação em competição desportiva, quiçá com presença em futuros campeonatos da Europa, do Mundo, nos Jogos Olímpicos.”

Daktari de La Gesse, Nikita de La Gesse e Diamante Negro do Juliana

Até lá, o próximo passo é ter animais do ferro do HDLG em Grande Prémio. “Pretendemos elevar o nível de competição dos nossos jovens cavalos, que já competiram em provas de cavalos novos com excelentes resultados, alguns em treino na coudelaria e outros com o cavaleiro Carlos Pinto, e num futuro próximo apresentá-los num nível internacional, como são os casos do Licor de La Gesse, Lancelot de La Gesse, Hot Bit de La Gesse ou Loulou de La Gesse. O treino de um jovem cavalo até ao nível de Grande Prémio é algo muito moroso e gradual e nós somos muito jovens na criação, mas esperamos num futuro próximo poder atingi-lo. Adicionalmente temos vendido alguns jovens cavalos com enorme potencial para a Dressage e que esperamos brevemente também possam apresentar um bom desempenho no desporto equestre e com isso elevar ainda mais o nome da nossa criação”, conclui Helen Burgess.

 

Uma referência na Criação

Com o objectivo inicial de criar uma estrutura altamente profissional que pudesse dar suporte ao maneio reprodutivo da coudelaria, o Haras de La Gesse desenvolveu o Polo de Reprodução, liderado por Miguel Bliebernicht, da Embriovet, com as mais avançadas técnicas de reprodução assistida de modo a multiplicar a qualidade e encurtar o intervalo entre gerações. Com o intuito de oferecer um serviço de excelência e de estar sempre na vanguarda do conhecimento, foram criados laços e parcerias, por exemplo, com universidades portuguesas. “Esta estreita parceria entre o mundo empresarial e as universidades permite-nos o conhecimento mais aprofundado da raça Lusitana, a elaboração de trabalhos científicos e estar em constante actualização, principalmente na aplicação das tecnologias reprodutivas de vanguarda adaptadas a cada individuo”, sublinha Miguel Bliebernicht, director clínico do centro de reprodução.

Adicionalmente, dada a experiência, metodologias e rotinas desenvolvidas, o HDLG começou a providenciar esses serviços aos criadores da região. “De momento somos uma referência na nossa zona, com a recepção de várias dezenas de éguas de clientes para trabalhos de reprodução assistida, para além de todo o trabalho com as da nossa coudelaria. Realizamos, em cada época reprodutiva, algumas dezenas de transferências de embriões e de inseminações com sémen fresco (de garanhões do Haras de La Gesse), refrigerado e congelado, para além de exames e testes reprodutivos vários. Estamos igualmente em fase de implementação de novas técnicas inovadoras como o ovum pick up e a congelação de embriões, que nos permitirão, entre outras vantagens, a exportação de material genético além-fronteiras, sem os condicionalismos sanitários e traumáticos que a exportação de um animal vivo acarreta”, resume o director clínico do centro de reprodução.

 

O Haras De La Gesse em Números

  • Mais de 300 animais na coudelaria;
  • Organza de La Gesse, Oural de La Gesse, Nitro de La Gesse e Tejo CC60 cavalos em trabalho (desbaste, manutenção, treino de Dressage, competição);
  • 6 cavalos em treino e competição de endurance em Portugal;
  • 6 garanhões aprovados de raças diferentes;
  • 64 éguas de ventre;
  • 60 éguas receptoras;
  • 75 poldros de 1 e 2 anos de idade;
  • 47 poldros de mama;
  • 54 é o número de nascimentos previsto para 2020;
  • 40 foi o número de éguas recebidas na temporada passada do exterior, de clientes da região, para inseminações e transferência de embriões com vocação desportiva em Saltos de Obstáculos, Dressage e western ou para lazer.

 

Os produtos do Hara De La Gesse à lupa

Loki, Líbia, Organza, Oklahoma, Nikita, Oural e Nitro evidenciaram-se nos concurso de Modelo e Andamentos em 2019, no entanto, muitos outros se têm destacado como Jaguar de La Gesse, Lirica  de La Gesse, Lucie de La Gesse, Lisboa de La Gesse, Loulou de La Gesse, Malásia de La Gesse, Modi de La Gesse, Lavagante de La Gesse, Luxo de La Gesse ou Lancelot de La Gesse.

O garanhão Fugaz da Lagoalva foi adquirido com dois anos em Portugal e fez todo o seu percurso no Haras, com um trabalho notável de ensino do cavaleiro Bruno Miranda e está actualmente no nível São Jorge, com o objectivo de chegar rapidamente ao Grande Prémio. É um cavalo com muito potencial para o desporto e igualmente um excelente pai, com vários filhos na coudelaria e até mesmo noutros criadores medalhados em morfologia e com muito potencial desportivo.

Diamante Negro do Juliana, criado no Brasil, foi recentemente adquirido como garanhão reprodutor e tem-se revelado um excelente progenitor, com vários descendentes campeões de morfologia no Brasil e na Bélgica e no qual o HDLG deposita muita esperança como um melhorador do seu efectivo, em especial na linhagem que têm do Escorial, propriedade de Luís Bastos, e que provou ser um grande melhorador na sua eguada.

Como garanhão residente há vários anos o HDLG tem o cavalo Tejo, um lusitano criado pela Casa Cadaval e que tem produzido animais de grande porte atlético e com muito potencial para o desporto, não só no Haras, mas em vários criadores de fora.

Como garanhões warmblood o HDLG destaca Scotch de La Gesse, Jools de La Gesse e Daktari de La Gesse, todos em treino com o cavaleiro Carlos Pinto, para os quais se adivinha um futuro não só na competição, mas igualmente como progenitores.

 

 

Autor:

Vanessa Pais

vanessapais@invesporte.pt

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