Raides. 28 NOV 2019

Walvis Bay, Namíbia: Verdadeira endurance

O raide de Walvis Bay tem lugar todos os anos na importante cidade portuária de Walvis Bay, que se localiza no deserto do Namibe e onde Bartolomeu Dias também desembarcou no século XV.


Tempo de Leitura: 5 min

Extremamente cénica, com o deserto como pano de fundo e as suas dunas a perder de vista, a prova de Walvis Bay tornou-se mundialmente conhecida, sobretudo pela subida à duna número 7 (Duna 7), a imagem de marca deste raide. Com 383 metros, a Duna 7 é uma das mais altas do mundo e é assim designada por ser a sétima duna a partir do rio Tsauchab, um rio efémero que vem morrer no deserto a sul de Walvis Bay. O deserto do Namibe é único pela cor das suas areias mais avermelhadas e pelas suas altíssimas dunas terminarem no mar.

Todos os anos acorrem a este raide mais de uma centena de cavaleiros, a maioria proveniente da Namíbia e da África do Sul. Atraídos pela paisagem e o desafio da subida à Duna 7 são também presença frequente neste raide cavaleiros oriundos de outros continentes como a Europa, Oceânia e América do Norte.

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A par de outras provas míticas como a Tevis Cup (160 km) nos EUA, a Tom Quilty Cup (160 km) na Austrália ou Fauresmith (3x80 km) na África do Sul, o raide de Walvis Bay distingue-se destas por ser uma prova FEI. Tendo sido durante vários anos um raide de 160 km, as sucessivas organizações decidiram-se por uma fórmula mais equilibrada de 120 km devido ao esforço que representa para os cavalos.

Com apenas dois milhões de habitantes para uma área de 825.615 km² a Namíbia é, após a Mongólia, o segundo país com menor densidade populacional do Mundo e o 34.º em área. Sendo o país mais árido da África subsariana, já que parcialmente ocupada por dois dos desertos mais antigos do Mundo, o Namibe e o Kalahri, a Namíbia foi até à Primeira Guerra Mundial um protectorado alemão. Foi depois absorvida pela África do Sul, tendo alcançado a independência apenas em 1990.

A endurance tem uma grande e antiga tradição na África do Sul e na Namíbia. Segundo dados da Arab Horse Breeders Society of South Africa, fundada em 1961, as suas linhas de puro-sangue árabe são de origem inglesa, egípcia, russa, espanhola e polaca. A riqueza gerada pelo comércio da lã no início do século XX terá permitido a importação de reprodutores de grande qualidade de Inglaterra, Europa e EUA.

O isolamento no sul do continente africano e as condições climatéricas da região levaram ao desenvolvimento de um cavalo de endurance resistente, robusto e sólido "com osso", bons cascos e com um perfil pouco arabizado em muitos casos. Apesar da quarentena forçada de três meses na lhas Maurícias ainda em vigor por causa da Peste Africana, os cavalos sul-africanos e namibianos constituem cerca de um quarto dos cavalos exportados para os Emirados Árabes Unidos.

Membro da WAHO (World Arab Horse Organization) desde 2002, a Arab Horse Breeders Society of Namibia, formada por 98 criadores, relatou o registo de 1400 cavalos árabes, com 65 poldros nascidos em 2018. Os criadores do cavalo árabe de endurance mais relevantes na Namíbia e os que mais exportam são, entre outros, os Kalaharabi, Edl Aghbar, Barakah e Hurst (mais informações em www.waho.org/namibia-2/).

A endurance na Namíbia, à semelhança de outros países como os EUA, a Austrália ou a África do Sul, onde a tradição já existia antes de se tornar uma modalidade federada internacionalmente, é gerida pela NERA (National Endurance Ride Association). A NERA conta com cerca de 628 cavaleiros, dos quais 48 também são FEI, e cerca de 420 cavalos registados (www.namibiaendurance.org). Uma modalidade ligada tradicionalmente a abastados agricultores brancos, na Namíbia têm lugar cerca de 25 provas, das quais apenas quatro são FEI.

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O raide de Walvis Bay surgiu em 1996 e é também sede do Campeonato Africano, onde competem as equipas da Namíbia e África do Sul e, outrora, também do Botswana. As equipas são compostas pelas classes de peso: peso-leve, peso-médio e peso-pesado e sem peso (FEI) e pelos Juniores. Cada equipa é constituída por cinco cavaleiros e cada uma tem um Team Manager. Existe também uma classe de Children que compete em provas mais pequenas. Com uma clara sobre-representação feminina estiveram este ano em Walvis Bay 94 cavaleiros para a prova rainha de 120 km. A melhor velocidade em prova foi de 17,8 Km/h com a Namíbia a arrecadar o primeiro lugar em todas as classes, excepto o peso-pesado que foi para a África do Sul. A taxa de eliminação foi baixa com 72% dos cavaleiros a conseguirem classificar-se e sem acidentes maiores nos cavalos e nenhum na categoria FEI, o que nos faz pensar que o futuro da endurance está neste tipo de provas mais técnicas e menos rápidas, com taxas de sucesso muito mais elevadas.

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Animais com maior contribuição genética para o cavalo árabe na África do Sul
(in: Population Report For The Arab Horse Society Of South Africa, 2018)

Autor:

Mónica Mira

equitacao@invesporte.pt

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