Artigos. 26 NOV 2019

Tem crédito junto do seu cavalo?

A treinadora americana Elsa Sinclair esteve em Portugal em Outubro. Neste artigo ela coloca uma questão original: será que temos crédito junto dos nossos cavalos? Aqui pode ler a adaptação do texto e, se quiser saber mais, pode sempre aprender ao vivo no Sundance Ranch em Odemira.


Tempo de Leitura: 13 min

Quando olhamos para a nossa relação com o cavalo como se fosse uma conta bancária, deveríamos considerar quanto estamos a investir e quanto estamos a gastar. Existem várias maneiras de investir e várias maneiras de retirar dinheiro dessa conta. Os nossos cavalos sentem o saldo de forma instintiva e quanto mais conscientes conseguirmos estar sobre como eles se sentem, melhor conseguimos navegar qualquer situação.

Investimos na conta bancária para uso futuro. A moeda desta conta bancária é a confiança. Em qualquer altura em que a vida nos coloca desafios, o cavalo vai avaliar se confia em nós o suficiente para fazer o esforço necessário para superar o desafio.

Usamos dinheiro da conta bancária, cada vez que enfrentamos um desafio. Se organizarmos o treino de forma perfeita, em vez de gastar o dinheiro nesses desafios, investimos o dinheiro para se tornar numa forma de rendimento futuro da nossa relação.

A arte reside na capacidade de ler e entender o cavalo e, com base nessa informação, de usar o nosso “feel” e “timing” para criar uma relação que faz crescer a conta bancária.

De forma muito simples, os quatro pontos fundamentais para fazer crescer a conta bancária são:

Ponto 1: Sim ou não?

Quando confrontado com um desafio de qualquer tipo, o cavalo responde “sim” ou “não”.

Pode ser um desafio que o ambiente apresenta, como por exemplo um saco de plástico a voar na nossa direcção, um cão a ladrar atrás do portão que estamos a passar, ou as ondas do mar que mudam de tamanho quando batem contra as pernas do cavalo. Ou pode ser um desafio que nós próprios apresentamos, como por exemplo o pedido de andar do ponto A para o ponto B, ou de levar com segurança uma criança nas costas, ou de deixar o ferrador aparar os cascos.

Se o cavalo responder de forma afirmativa a esses desafios, vamos ver isso no comportamento dele: na forma de pensar, ceder ou brincar. Se o cavalo responder de forma negativa, o comportamento assumirá a forma de congelar, fugir ou lutar.

Quando o cavalo diz “sim”, isso significa que temos dinheiro suficiente na nossa conta bancária para enfrentar o desafio. Quando o cavalo diz “não”, significa que o dinheiro disponível na conta bancária não foi suficiente para o desafio actual.

Sempre que pedimos algo ao cavalo e sempre que nos deparamos com um evento ambiental em que o cavalo pode dizer “sim”, existe o potencial de colocar mais dinheiro na conta bancária.

Sempre que o cavalo diz “não” a um pedido nosso ou a um evento ambiental é gasto dinheiro da conta bancária.

Deve existir um equilíbrio entre as respostas “sim” e “não” a cada momento em que estamos juntos. Seria bom termos consciência em cada sessão de treino, se estamos a conseguir investir dinheiro ou, pelo contrário, se estamos a gastar dinheiro da conta.

Quanto mais respostas afirmativas o cavalo oferecer, mais potencial temos para investir na conta bancária, mais dinheiro temos disponível na conta e maiores são os desafios aos quais o cavalo estará disposto a dizer “sim” no futuro!

Ponto 2: Tornar dinheiro em potencial em dinheiro investido

Existem três fases de desenvolvimento quando estamos a enfrentar algum desafio ou uma situação nova:

  • Tolerância
  • Aceitação
  • Prazer

A primeira resposta a qualquer desafio novo será tolerância ou, aliás, intolerância. Intolerância é o cavalo dizer “não”. Tolerância é o cavalo dizer “sim”, mas apenas temporariamente. Quando um cavalo diz “sim” a um desafio, mostra comportamentos de pensar, ceder e brincar. Pensar, ceder, brincar de maneira provisória ou temporária mostra que o cavalo está na fase de tolerância.

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Se nada correr mal e o cavalo aprender a confiar na situação, o seu nível de “sim” vai evoluir para a fase seguinte: a aceitação. Esta é a fase em que os cavalos estão dispostos a aceitar o desafio por longos períodos de tempo, mas ainda vemos os comportamentos de pensar, ceder e brincar misturados com momentos de “congelamento”. Por exemplo, vemos as orelhas a mexer, mostrando que o cavalo está a pensar, mas depois voltam a ficar imóveis e “congelados”. Ou vemos movimentos onde o cavalo cede espaço aos amigos, sejam eles humanos ou equinos, intercalados com momentos onde ele se sente preso, sem querer ceder espaço. Ou vemos uma atitude alegre e de curiosidade face ao ambiente, intercalada por momentos de desinteresse.

Se nada correr mal enquanto o cavalo está na fase de aceitação, se ele se começar a sentir bem durante o desafio, o seu nível de “sim” vai melhorar para a fase de prazer.

O prazer é onde começamos a ver mais consistência e ritmo nos comportamentos de pensar, ceder e brincar.

Quando o cavalo está na fase de tolerância é como se tivéssemos retirado dinheiro do banco, mas ainda não o tivéssemos gasto. Se o cavalo mudar de ideias sobre o desafio, e o sentimento mudar para intolerância, o cavalo vai dizer “não” (mostrando luta ou fuga) e esse dinheiro será gasto.

Se o cavalo decide que a situação é de confiança, a resposta “sim” ganha força. O dinheiro retirado do banco na fase de tolerância (mas ainda não gasto) é devolvido ao banco na fase de aceitação em que o cavalo vacila entre pensar, ceder, brincar, por um lado, e congelar, por outro.

Quando o cavalo percebe que a situação é confortável e confiável, ele desenvolve para a fase de prazer e vemos cada vez mais comportamentos de pensar, ceder e brincar. É aqui que começamos a colocar dinheiro no banco para uso futuro.

Quanto mais nós e o cavalo sentimos prazer na relação, mais a conta bancária cresce!

Ponto 3: Diversificar os investimentos

Prazer partilhado é um investimento na conta bancária do relacionamento. No entanto, o grau de diversidade de situações em que o prazer ocorre, determina a velocidade com que a conta bancária cresce.

Se a pessoa e o cavalo gostam de simplesmente estar juntos no pasto enquanto o cavalo come, é provável que seja uma experiência agradável e será sempre adicionada à sua conta bancária. No entanto, devido à simplicidade e foco único da situação, é como colocar um cêntimo de cada vez na conta bancária. Sempre faz crescer a conta bancária, mas o seu tamanho e o tamanho dos desafios a que o cavalo sente que pode dizer “sim”, crescerão muito lentamente.

Se queremos conseguir um saldo mais alto mais rapidamente na conta bancária, precisamos de investir numa variedade de actividades que podemos fazer juntos. Pode ser uma variedade de experiências ambientais de que desfrutamos juntos ou uma variedade de actividades que executamos juntos e que trazem prazer à relação.

Quanto maior a variedade de actividades que desfrutamos em conjunto com o cavalo, mais conseguimos fazer crescer a conta.

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Ponto 4: Usar crédito de forma sensata

Frequentemente, os desafios que apresentamos aos cavalos são mais ambiciosos e usamos um motivador extrínseco para conseguir um “sim”. O motivador extrínseco pode ser uma recompensa alimentar, a pressão da corda no cabeção, um redondel ou qualquer outra ferramenta. Usamos essas ferramentas para transformar possíveis respostas “não” em respostas “sim”.

Quando usamos motivadores extrínsecos para fazer com que o cavalo diga “sim” a um desafio, é como ter uma linha de crédito junto da conta bancária. Não há nada de errado em trabalhar com crédito, desde que possamos pagá-lo a tempo antes de precisar dele novamente.

A forma como pagamos o crédito é com momentos de prazer que o cavalo sinta. Vemos que o cavalo está a sentir prazer quando vemos, de maneira rítmica e consistente, comportamentos de pensar, ceder ou brincar.

Usar crédito de forma sensata significa que temos consciência de estar a usar motivadores extrínsecos para levar o cavalo da fase de tolerância à fase de aceitação e a momentos de prazer.

É assim que construímos confiança entre a pessoa e o cavalo. Quando o cavalo sentir que diversos desafios trazem prazer, ele confia cada vez mais na pessoa e vai tentar enfrentar uma variedade cada vez maior de desafios.

Quando escolhemos trabalhar sem ferramentas ou recompensa, tudo depende da motivação intrínseca do cavalo. A motivação intrínseca de um cavalo indica quanto está no saldo bancário, sem utilizar a linha de crédito.

Quando trabalhamos sem essa linha de crédito, sem as ferramentas ou as recompensas, temos que reduzir os nossos desafios a um nível em que os cavalos se sintam naturalmente motivados a dizer que “sim”.

Nos cursos de “Freedom Based Training®” ensino a arte de desenvolver motivação intrínseca. Motivação intrínseca é a motivação que vem de dentro. Fazer algo apenas porque parece certo, e não por qualquer motivo externo.

Treino cavalos usando a motivação intrínseca porque assim desenvolvo o meu “feel” e “timing” com um nível de precisão que está para além de tudo o que desenvolvi quando usava a motivação extrínseca.

Vejo o mesmo tipo de desenvolvimento exponencial no “feel” e “timing” noutras pessoas quando aceitam o desafio de treinar sem ferramentas. O desenvolvimento de motivação intrínseca nos cavalos ensina-nos um elevado nível de entendimento sobre “feel” e “timing”.

Mesmo acreditando apaixonadamente em “Freedom Based Training®” e sentindo que esse método ajuda qualquer treinador de cavalos que invista o seu tempo trabalhando assim, também quero que todos saibam que não há nada errado em usar crédito.

Usar crédito (motivadores extrínsecos) é, na verdade, uma maneira inteligente de desenvolver muitas variedades de prazer com o cavalo, desenvolvendo assim o relacionamento mais rapidamente.

Os melhores treinadores de cavalos têm uma compreensão brilhante dos gastos e investimentos na conta bancária. Usam linhas de crédito com habilidade e sabem aproveitar ao máximo cada momento, desenvolvendo uma grande variedade de prazeres com o cavalo, sem nunca esgotar o crédito.

No entanto, sei que também existem treinadores que não sabem gerir tão bem as finanças do relacionamento. Com demasiada frequência, ouço falar de cavalos bem treinados que “inesperadamente” explodem e magoam alguém. Penso que geralmente é um caso em que alguém ou algum factor ambiental pede demais ao cavalo. Se não há dinheiro suficiente na conta e se o crédito se esgotar pelas circunstâncias, um cavalo pode tornar-se emocionalmente falido e o resultado é o caos da luta ou fuga.

Para melhorar as minhas finanças emocionais com os cavalos, descobri que o lento caminho do “Freedom Based Training®” é uma excelente educação.

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Como trabalho mais com motivação intrínseca do que com motivação extrínseca, fiquei muito mais consciente de como tudo isto funciona. Adicionar alguns cêntimos à minha conta bancária de relacionamento de uma maneira lenta e consistente, sem a necessidade de trabalhar com crédito, é muito educador. Desde que comecei a trabalhar dessa maneira, o meu “feel” e “timing” com os cavalos melhoraram dramaticamente.

Num mundo ideal podemos ter o objectivo de ser ricos tanto na conta bancária quanto na linha de crédito. Num mundo ideal, o cavalo é rápido a dizer “sim” a uma ampla variedade de experiências connosco. Confiança entre cavalo e humano é uma coisa bonita. Quando a confiança leva a mais prazer em mais experiências, a qualidade de vida melhora para todos.

Como aprender mais sobre Freedom Based Training®:

  • Ler o blog da Elsa: www.tamingwild.com
  • Ver o documentário “Taming Wild” disponível online
  • Participar no curso intensivo online de oito semanas
  • Assistir a um workshop (ver datas no site em “Clinics”)
  • Aprender ao vivo no Sundance Ranch em Odemira

 

Autoras: Sandia Dias da Cunha e Elsa Sinclair

Fotos: Kevin Smith e Bruno Barata

 

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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