Comentário. 21 NOV 2019

Acertar a batida, é fácil

Estudar os cavalos é fundamental


Tempo de Leitura: 10 min

No último artigo que escrevi para a nossa Revista falei de alguns assuntos que entendo úteis para quem quer aprender algo que melhore a sua performance. Referi no entanto que tudo o que ia dizer se baseava na prática que obtive durante toda a minha vida ligada ao cavalo. Algumas coisas, como as que vou dizer neste artigo, foram e são de minha inteira criação.

Li alguns livros mas podem ter a certeza que não foram os de Xenofonte, Philys, Baucher ou outros mestres da Arte Equestre, porque de outro modo ainda não tinha conseguido escrever sequer uma linha. Só alguém superiormente dotado pode falar sobre cada um e disso tirar proveito para si e,afinal, para todos nós, se quiser ensinar-nos o que aprendeu. Bem haja por isso e agradeço aos nossos mestres Cor. Jorge Mathias, Cor. Netto de Almeida, Brigadeiro Henrique Callado, Cap. Serôdio, Nuno Oliveira e poucos mais.

Este artigo vai dividir-se em duas partes: primeira sobre como acertar a batida quando formos saltar e outra sobre os cavalos com que iremos saltar.

Devo dizer que posso ser contestado pelos processos que sugiro. A verdade é que em nenhum livro, dos poucos que li, se fala exactamente sobre esse assunto. Procurei, desde sempre, encontrar um processo que me levasse a fazer boas provas. E fiz! Como? Sem réguas nem esquadros, nem medições de todo o percurso, devo dizer que acho difícil, mas não impossível, que cavaleiros que medem todas as distâncias do percurso se lembrem delas quando entram em prova. A propósito julgo poder sugerir que, tanto os instrutores como familiares dos concorrentes, principalmente crianças, podem ensiná-las que não é preciso esticarem as pernas como muitas vezes se vê. Um passo normal de uma criança mede, por exemplo, 50 cm. Multiplique o número de passos normais que deu para cobrir a distância por 50 e terá em cm a distância. Deu 20 passos – são 10 metros. Escusam de quase fazer a espargata. É fácil!

Voltando ao assunto digo que é preciso sentir a distância aos saltos e depois transmitir o que sentimos ao cavalo. Como? Como fiz, e ainda hoje o faço, embora não entre em provas. Penso sempre que, ao atravessar uma rua, se não acertamos o passo podemos tropeçar no passeio e entrar na loja de cabeça. Para não tropeçar alargamos ou encurtamos ou até mantemos a amplitude do passo. Se em vez da borda do passeio houver varas de obstáculos no chão, em qualquer lado, e formos, a pé, passar ao meio delas, sem as pisar, então estamos a sentir a distância. Agora é preciso levar o cavalo a proceder como nós. Se sentimos a passada certa devemos, logo, transmitir ao cavalo o que queremos que ele faça.

No prédio onde moro, em Lisboa, há uma galeria que vai de uma ponta à outra. As placas do chão estão ligadas por juntas. Quando percorro a galeria não piso as juntas; encurto ou alongo o passo ou até mantenho para que isso não aconteça.

Agora que sentimos a distância, vamos montar e acertar a batida com o cavalo. Vão ver que dá resultado. Sempre que encontrem um pau, um risco no chão, pratiquem como digo. Vão ver que, até sem estarem a pensar no assunto, vão acertar o passo para chegar bem. Claro que a cavalo tudo depende da passada dele.

Se for um dos nossos Lusitanos de passada curta, normalmente e sem esforço chegaremos bem; se for um Puro Sangue Inglês, de grande passada, o caso é mais difícil. Neste caso terá que praticar mais, até porque estes não aceitam facilmente uma redução.

É possível que o processo que utilizei possa ser contestado. Então se houver alguém que sugira outro, que não pinchar os cavalos, o melhor é divulgá-lo para que todos nós possamos aprender.

Recomendações e ou sugestões: as nossas mãos pertencem à boca dos cavalos; no aquecimento antes das provas não podem gastar todo o crédito de saltos que têm para a época toda; se o salto for um vertical de varas, saltar com cuidado e optar por reduzir, se for de barras pode arriscar crescer; se for uma ria nunca saltar em perda; se tiverem hipótese de verem no Google vejam “concurso de saltos de obstáculos com o cavalo Huaso”. Verão como o cavalo salta 2,47m, recorde do mundo desde 1947, fazendo um autêntica subida de frente, quase na vertical.

Vou entrar agora na segunda parte do artigo. Quando nos dão ou nos distribuem um cavalo para trabalhar, antes de tudo, é preciso estudá-lo. O cavalo pode ter adquirido males. Temos que os conhecer e procurar curá-los.

Darei alguns exemplos. Quando montei o cavalo “Nageur”, muito próximo do PSI, como não conseguia reduzir, tal a velocidade que levava, eu optava por crescer. Assim fizemos óptimos percursos e alguns até ganhámos. Uma vez um cavaleiro comentou comigo: “a essa velocidade, ainda empurras para o salto”. “Como não consigo reduzir opto por acertar a batida a crescer”, respondi. Com o mesmo cavalo, na Penina, no concurso de saltos em altura, tinha que aguardar a reposição do obstáculo derrubado pelo concorrente anterior, de costas para o obstáculo, porque o Nageur, quando soava a campainha, disparava que nem um foguete. Chegou sempre bem ao salto! Fiquei em 1.º, ex-aequo com o Cansado Pais.

Quando recebi a Suzelein, eu estava na Academia Militar. Nunca a tinha visto, nem ela a mim. Pedi ao tratador para a aparelhar. Entretanto fui ao carro buscar as luvas e o stick. Quando a égua passou por mim, começou a disparar coices, sem parar. Ao chegar ao picadeiro resolvi, por segurança, entrar mais pela frente, do que de lado, como seria normal. Recebeu-me à dentada e à patada. Só vi uma solução: um pano para pôr na cabeça da égua e assim poder montar em segurança. Assim passou a ser, sempre que a montava. Um dia apareceu na Academia Militar o Sr. Coronel Fernando Paes porque eu montava a Suzelein de forma pouco ortodoxa (palavras do Sr. Coronel). Mandei vir a égua ao picadeiro. Tudo se passou como nos outros dias – com coices, patadas, dentadas. Pensei que se algum dia a tivesse montado, poderia ter queixas, mas eu nunca a tinha visto. O Sr. Coronel viu, desceu a escada da tribuna do picadeiro e foi-se embora sem uma palavra!

Um dia, com carta de recomendação do Sr. Coronel Jorge Mathias, recebi o Napalm filho do Prince Paul (PSI). Quando o montei no picadeiro do Regimento de Lanceiros 2, o cavalo baixou o dorso. Pensei que teria alguma ferida. Não tinha. Passei a aquecê-lo a trote sem vir ao arreio. Comecei a sentir o dorso a subir (parece estranho, mas é verdade). Só a partir daí podia começar a trabalhar. E foi sempre assim. Um dia fui a um concurso em Matosinhos. Prova – “Escolha os seus pontos”. Fui saltando os baixinhos, era um cavalo que estava na 3.ª categoria.

Mas… ao dar uma volta apareceu-me pela frente uma tríplice azul e branca – 150 pontos. Apontei e o Napalm deu um salto monumental. Voltei e fiz o salto outra vez. Igual. Então avistei uma ria também 150 pontos e fiz duas vezes, sempre fantástico. E a partir daí o Napalm passou às provas grandes até chegar ao 2.º lugar numa prova do Jumping Internacional de Lisboa em 1978. E com ele ganhei inúmeras provas. Mais uma vez foi preciso estudar o cavalo, assim como quando recebi a Okie Paul. Esta égua só começava a trabalhar bem quando fazia ouvir a respiração cadenciada.

 Napalm no concurso internacional na Penina

 

Quando recebi o Dominó, que eu tinha pedido havia dois anos, começou mais um desafio. O cavalo não acabava uma prova. Mas para mim era um ponto de honra conseguir que o Dominó voltasse a fazer provas. Levei-o a Matosinhos, e… desgraça a minha - não consegui passar a linha dos visores! E agora? Fui autorizado a fazer, fora de prémio, as provas mais baixas. Estudei a embocadura a utilizar: de bridão, ele fugia; freio e bridão, não queria andar. Passei a utilizar um freio pelham com francaletes para usar só uma rédea. Assim foi sempre enquanto esteve comigo, excepto no Grande Prémio do Jumping Internacional de Lisboa de 1978, em que o aparelhei com bridão. Ouvi comentários que o cavalo fugia de bridão, etc. Respondi que os saltos eram tão próximos que ele não tinha oportunidade de fugir. Fiquei em 5.º.

Na prova de potência o Dominó mostrou “quem era”. Ficámos em 2.º, só vencidos pelo cavaleiro olímpico italiano Piero d’Inzeo. O Dominó voltava a ser “um senhor em pista”.

Estudando os cavalos que vamos montar, conseguiremos chegar ao topo das provas, como se vê. Insistir é a alternativa dos fortes. Desistir é a dos fracos.

Autor:

José Miguel Cabedo

equitacao@invesporte.pt

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