Daniel Pinto. 15 NOV 2019

Competição com objectivos

Na opinião de... Daniel Pinto #5


Tempo de Leitura: 10 min

No passado artigo abordamos a iniciação à competição como parte do plano de treino. Uma vez que o cavalo demonstre estar já na sua zona de conforto quando em contexto de prova, é então o momento de delinear uma estratégia com o objectivo da competição em si.

Este é o momento pelo qual muitos atletas anseiam e de enorme importância para a carreira desportiva do cavalo e cavaleiro. Mais do que pensar em resultados isolados, importa criar uma estratégia coerente e global que tenha em consideração a imagem que vai ser criada sobre o binómio. Quais são então os conselhos que dou aos meus alunos quando nesta fase de trabalho?

Seja ambicioso, mas realista

Obviamente que associado à actividade de competir está inerente a vontade de vencer! No entanto, um conjunto que se está a iniciar na competição e tem ainda experiência reduzida deve manter os «pés assentes na terra» e procurar definir objectivos realistas. O conhecimento do cavalo, dos seus pontos fortes e áreas de melhoria, é fundamental. Também o auto-conhecimento do cavaleiro e do seu comportamento em pista é uma grande mais-valia para que os objectivos traçados sejam alcançados. Há que partir para o desafio com determinação, mas mantendo os pés assentes na terra!

Escolha com cuidado o nível em que vai competir

Antes de mais, para definir o nível em que devo competir, é necessário fazer uma análise da concorrência. Visto que o binómio se está a iniciar na competição, é natural que tenha menos experiência em pista e que vá concorrer com atletas melhor preparados. Assim, temos que percebe como devemos chegar a contexto de prova de forma a ser competitivo. As grandes questões que normalmente coloco a mim mesmo, ou aos meus alunos, são:

"- Qual é o nível em que o meu cavalo pode garantir uma prova sem erros?", aqui temos de recordar a noção de nível de conforto, já aplicando as conclusões que retirámos da competição como parte do plano de treino.

"- Qual a média das notas dos meus concorrentes no nível em que vou sair?", situar o binómio face à concorrência é fundamental antes de tomar a decisão estratégica do nível em que quero competir. Podendo assim encontrar um ponto de referência e um objectivo a traçar, que pode ser o de obter um lugar na classificação geral ou uma pontuação que me dê um ponto de partida.

Crédito - Rita Fernandes for Lusitano World

Crédito: Rita Fernandes for Lusitano World

Competir com consistência

Uma vez estabelecido o nível a competir, então devemos traçar os objectivos a que nos queremos propor em pista. Muitos dos meus alunos pensam na marca dos 70%, um valor que está  hoje «na moda». No entanto, antes de pensar na média a alcançar, é essencial garantir que, no nível escolhido, o conjunto consegue uma performance sem erros. Este deve ser o ponto de partida e o barómetro comparativo para as provas seguintes.

Atingido o objectivo de uma prova limpa, mais do que alcançar excelentes notas, é fundamental procurar a consistência. A meta passa por subir a média, não apenas ter novos recordes. A regularidade e consistência do trabalho irá permitir ao próprio cavaleiro estabelecer a sua zona de conforto em pista.

Mesmo quando já estamos a competir com o intuito de disputar resultados, a competição continua a ser um treino per si. Quando eu compito, em primeira mão procuro superar-me a mim próprio e esta é a filosofi a que procuro incutir nos meus alunos. Quando o nosso foco passa por uma auto-superação constante, mantemos o intuito de suplantar sempre a nossa última performance, o que se traduz numa melhoria contínua. E é aqui que começamos a gerir o aumento gradual do nível de exigência e resultados de performance, sem nunca esquecer que é fundamental respeitar os limites do nosso companheiro equino.

Aumentar a exigência até ao dia “D”

Quando se dá início ao capítulo da competição e já se atingiu o nível de conforto de uma prova consistente e sem erros, inicia-se um outro tipo de estratégia para ir buscar mais pontos. É agora o momento de procurar mais e de arriscar em determinados exercícios. Tipicamente, aconselho os meus alunos a aventurarem-se nos exercícios onde sentem mais segurança. Voltamos a sair da zona de conforto, para conquistar mais espaço à zona de esforço. Prova após prova, a nossa zona de conforto irá aumentar e, consequentemente, os resultados alcançados nas provas irão sendo cada vez mais positivos.

Devemos construir a nossa estratégia dentro do plano de competição com foco num objectivo último, o que normalmente chamo de «Dia D». Este pode ser a final do campeonato ou os Jogos Olímpicos – é o objectivo que me propus alcançar com o meu companheiro.

Assim, a competição não se faz prova a prova – é sim uma estratégia integrada da gestão desportiva da carreira do cavalo e cavaleiro. As provas devem ser encaradas como uma sucessão de aprendizagens, podendo o cavaleiro aferir como melhorar e onde pode superar-se para que, no «Dia D», possa arriscar em todos os exercícios, sem erros e com segurança.

Gerir os resultados com pragmatismo e confiança

É de extrema importância, para uma correcta evolução do binómio, termos a capacidade de gerir os resultados alcançados com pragmatismo e confiança. O resultado de cada prova é o reflexo da imagem e do trabalho que acabámos de apresentar perante as cinco pessoas que estiveram a analisar imparcialmente a nossa prova – os juízes. A informação dada pelos juízes deve ser sempre respeitada e tomada com muita consideração, mesmo que possamos, por vezes, não estar de acordo com a avaliação.

É interessante pensar que, na maior parte das vezes que não estamos de acordo com os juízes, é sempre quando não nos dão muitos pontos, é raro que seja na situação contrária. Além da opinião imparcial dos juízes, é também de extrema importância ouvir atentamente a opinião e feedback de toda a nossa equipa: coach, groom, veterinários e amigos que conhecem e acompanham o trabalho do cavalo no dia-a-dia através das suas opiniões iremos tirar outras conclusões importantes para a nossa evolução. Por fim, uma auto-análise pragmática sobre o que sentimos em prova, em contraste com a opinião dos juízes e do nosso team, será sempre o modo ideal de avaliar a nossa performance.

Crédito - Rui Pedro Godinho

Crédito: Rui Pedro Godinho

Verifico, muitas vezes, que os cavaleiros ficam contentes ou tristes depois de os resultados saírem. É frequente ter de chamar os meus alunos à razão quando, depois de uma prova, se mostram descontentes por não terem «sentido» bem o cavalo mas que, quando confrontados com resultados acima do que estavam à espera, se esquecem imediatamente do que sentiram e até acabam por dizer que foi um bom resultado. Nunca nos podemos esquecer que os resultados não são uma mera percentagem!

As provas levam-nos para uma situação onde estamos expostos à opinião geral e as pessoas tendem a basear-se nos resultados. Mas nós, os atletas, temos de saber viver com o que temos e saber que quando perdemos não somos os piores e quando ganhamos não somos os melhores do mundo. A nossa avaliação de cada prova deve advir da combinação dos nossos objectivos, do sentimento em pista e do resultado de pontuação final. Para sermos imparciais e justos é de extrema importância rever as provas em casa acompanhado por uma pessoa do team e analisar detalhadamente as notas e comentários dados pelos juízes.

Recordando o primeiro artigo do ano, o coach é um elemento fundamental para apoiar a monitorização desta evolução e um apoio para que nos possamos manter na rota inicialmente definida. E acima de tudo, é de extrema importância viver o ambiente de prova com boa disposição e fair-play desportivo. A competição é uma extraordinária oportunidade de crescimento e aprendizagem contínua – um instrumento de auto-superação. É esta a lição de vida que procuro incutir no meu filho e nos meus alunos.

 

Veja também:

A Introdução à Competição

Equitação com método - A definição do plano de trabalho

A importância do Coach

 

Autor:

Daniel Pinto

equitacao@invesporte.pt

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