Artigos. 04 OUT 2019

Particularidades da Endurance (Parte 2)

Na última edição falámos de algumas das tendências mais actuais da disciplina na forma de montar, vestir e material equestre usado. Nesta edição falaremos sobretudo do cavalo de endurance, da sua gestão e da sustentabilidade da disciplina.


Tempo de Leitura: 13 min

O cavalo de endurance é tipicamente o cavalo puro-sangue árabe (PSA), cruzado de árabe ou anglo-árabe, com predominância de sangue árabe. Raça adaptada a percorrer longas distâncias, dentro do cavalo PSA encontramos três linhas de criação: cavalos de «show», de corrida de galope e de endurance. O cavalo de «show», destinado apenas a ser apresentado em concursos de beleza, é criado com o fim de elevar as características morfológicas do cavalo árabe ao máximo, tais como a concavidade do chanfro, a fineza da pele, porte da cauda em trompa e uma estrutura óssea leve. Embora cavalos de linhas de show possam, ocasionalmente, dar bons cavalos de resistência equestre, algumas destas características nem sempre “casam” bem com o rendimento desportivo.

Uma concavidade extrema do chanfro pode comprometer o fluxo de ar, assim como uma estrutura óssea fina, numa moldura relativamente pequena e curta pode prejudicar o rendimento e a longevidade desportivas. Já as linhas de galope, com as “más-línguas” a questionar a pureza da raça dizendo que houve interferência do puro-sangue inglês, desenvolveram cavalos com mais massa muscular e óssea, chanfros rectos e cavidades torácicas profundas e longas. Embora possam carecer de resistência, têm vindo a ser cada vez mais utilizadas por conferirem velocidade e demonstrarem bons resultados no deserto. Em Portugal, encontramos alguns concursos morfológicos da raça árabe, mas não existem nem concursos de show e as corridas de galope não têm o mesmo impacto/importância que noutros países. O cavalo árabe de endurance é talvez a linha com maior variação morfológica, geralmente mais ditada pela sua funcionalidade e pelos resultados que os seus antecessores tenham demonstrado. No entanto, alguns criadores fazem questão que os traços árabes se mantenham definidos nos seus produtos.

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O cavalo de «show» é destinado apenas a ser apresentado em concursos de beleza

Características físicas e fisiológicas

A resistência de um cavalo vai ser determinada pela suas capacidades de auto-termorregulação e cardiorrespiratória, composição muscular, e economia do movimento. A termorregulação é a capacidade que um organismo tem de eliminar o calor produzido pelo trabalho muscular e assim manter uma temperatura corporal que não afecte as reacções químicas do metabolismo. Depende, essencialmente, de um rácio superfície/massa corporal elevado, isto é, cavalos pequenos e com pouca massa, como aliás os maratonistas humanos. A pele fina, com vasos sanguíneos visíveis à superfície e pêlo curto também vai facilitar a eliminação de calor.

A capacidade cardiorrespiratória vai depender do tamanho da silhueta cardíaca (característica com elevada heritabilidade) e da cavidade torácica que permite a expansão pulmonar. Para isto o tórax tem que ser profundo (alto) e comprido, conferindo ao cavalo um aspecto por vezes quase “barrigudo”.

A composição muscular é genética. Os cavalos árabes nascem com uma predominância de fibras musculares de contracção lenta e do tipo oxidativo (tipo I), o que quer dizer que têm músculos pouco desenvolvidos em volume, mas altamente vascularizados, pois o seu metabolismo assenta no transporte de oxigénio pelo sangue. Este tipo de metabolismo designado por oxidativo ou aeróbio, é o único que permite a utilização das gorduras como combustível, fonte inesgotável de energia no organismo. A presença de oxigénio nas fibras musculares também permite a utilização de hidratos de carbono de forma mais eficiente, só que os depósitos na forma de glicogénio são limitados e só se encontram no músculo e no fígado. Quando o glicogénio se esgota, o organismo entra em fadiga. Assim, a resistência do atleta de fundo advém da capacidade de poupar no glicogénio à custa da utilização de gordura como combustível e de um volume circulatório grande para trazer o oxigénio necessário às fibras musculares.

O cavalo de endurance quer-se com movimentos económicos e rasantes, isto é, deve ganhar terreno a partir de uma forte impulsão dos posteriores que vão permitir uma maior passada, assim os ângulos articulares o permitam, mas sem induzir uma elevada amplitude de movimentos que levem a perdas desnecessárias de energia.

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Chip Chase Sadaqa, outros dos garanhões (australiano) com melhores resultados

O cavalo de endurance moderno (do deserto)

Talvez dos primeiros criadores a perceber o que o cavalo do deserto precisava foi a australiana, e então cavaleira, Meg Glenn Wade, ao produzir especificamente para o Dubai os Magic Glenn e Castlebar. Altos e com estrutura, quase todos com uma pequena percentagem de inglês, aprumos irrepreensíveis e galopadores natos. Sendo o médio-oriente determinante para o mercado do cavalo de endurance, os criadores tiveram, mundialmente, que se adaptar aos requisitos do deserto. Cavalos maiores vão, inevitavelmente, ter um tranco maior no galope e por isso há, hoje em dia, uma tendência generalizada em criar PSA maiores (com mais de 1,55m) ou com outro sangue que lhes confira tamanho.

O seu desenvolvimento ainda que tardio é, por isso, cada vez mais acompanhado pelos profissionais,pois é sabido que se abandonados nos primeiros dois anos e, em particular, no primeiro ano de vida, as variações ambientais do campo poderão nunca desenvolver o seu potencial genético.

Características mal-advindas no deserto são cavalos pretos ou castanho-pezenhos, por se acreditar que estas cores absorvem mais calor e afectam a termorregulação, cavalos lazões “muito pintados” e principalmente os alto-calçados e das quatro, por se acreditarem mais predispostos ao desenvolvimento de arestins.

Os ruços rodados, por algum tipo de superstição, são também frequentemente recusados, embora este tipo de pelagem seja de carácter evolutivo e os círculos acabem por desaparecer. Desvios angulares (desaprumos visto de frente), em particular ao nível dos carpos (joelhos) nos membros anteriores, tipicamente no árabe de valgus (joelho de boi) e off-set, que induzam movimentos parasitas como “de ceifar” e propiciem ao desenvolvimento de sobrecanas são perentoriamente recusados pelo mercado a não ser com provas dadas.

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Persik, um dos garanhões com mais resultados em endurance

Égua ou castrado?

Os cavalos castrados são os que estatisticamente apresentam melhores resultados, seguidos de pertopelas éguas, cujas variações hormonais durante a época de ciclos podem afectar o seu rendimento, sendo estas também mais propensas a episódios de rabdomiólise (miosites). Os cavalos inteiros, ainda que alguns de boa índole, tendem a desgastar-se mais durante as provas pelo seu temperamento nervoso e possuem um maior instinto de preservação com maior tendência para “se parar” durante as provas, ainda que metabolicamente sãos. A utilização de cavalos inteiros apenas se justifica com o intuito de valorizar um potencial garanhão.

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Magro? Não. Fit

Enquanto assistimos nos países desenvolvidos a um pouco saudável aumento do peso da população equina, principalmente em cavalos de ensino de cavaleiros amadores, o mesmo não acontece nos cavalos de endurance. Estes querem-se secos e fit. Se talvez há cerca de uns dez anos se acreditava que para uma boa performance as costelas se tinham que “adivinhar” na avaliação visual destes cavalos, tal como aliás em muitos corredores de maratona, este conceito foi abandonado. Seja pela exigência das performances actuais, seja porque cavalos demasiado magros não apresentavam o rendimento desejado no final das provas, o que é certo é que este conceito foi totalmente abandonado, tendo-se assistido a um aumento generalizado da condição corporal. Um cavalo muito magro vai estar privado, à partida, de reservas de glicogénio e gordura.

Início da vida desportiva

Os cavalos de endurance são, por norma, pouco precoces. A maioria dos criadores não vão iniciar o desbaste antes dos 4 anos e alguns mesmo aos 5 ou 6 anos, mantendo-os na manada para aprenderem “maneiras” com os congéneres. Alguns criadores aproveitam mesmo para tirar uma cria às éguas dos 3 para os 4 anos. A sua saúde locomotora e longevidade desportiva vão ser determinadas pelos seus ângulos e conformação óssea. Numa modalidade que associa quilometragem, longas horas de treino e de prova, terrenos desnivelados e, agora, velocidade, é imperativo que os cavalos tenham aprumos sem desvios que permitam um apoio correcto e uma distribuição de forças uniforme nos membros.

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Treino em piscina

 

Gestão do dia-a-dia

Sendo uma modalidade associada a uma população predominantemente rural, os cavalos de endurance sempre foram mantidos em cercas ou paddocks. Mesmo em estruturas que possam ter boxes, considera-se deletério para a sua forma física e saúde articular, como aliás, actualmente já para outras modalidades equestres, mantê-los encerrados.

Relativamente à dieta, está interiorizado para a maioria dos cavaleiros de endurance que um bom feno é essencial para um bom desempenho. A maioria dos cavalos vai receber apenas entre três a quatro quilogramas de ração por dia, rica ou suplementada com 200ml ou mais de óleo, já que esta é a sua principal fonte de energia. A suplementação de base destes cavalos é sobretudo a vitamina E em elevadas quantidades e selénio para proteger as membranas celulares das fibras musculares dos radicais livres produzidos durante a oxidação inerente ao trabalho aeróbio. A maioria é também suplementada com sal para repor as perdas no suor.

Gestão desportiva

Conseguir condicionar o cavalo em termos cardiorrespiratórios sem lesionar o aparelho locomotor é a pedra basilar da modalidade. Com as provas qualificativas a começar aos cinco anos, o trabalho de endurance requer treino progressivo, de forma a explorar o verdadeiro potencial do atleta equino. Anos de trabalho de baixa intensidade vão permitir condicionar os seus tendões e estrutura óssea.

Os cavalos endurecidos, mas sãos do ponto de vista locomotor, são os que vão dar melhores performances, normalmente entre os 9 e os 14 anos. Ao contrário do que aqueles não familiarizados com a modalidade pensam, a maior parte do treino faz-se em saídas a passo de duas a três horas, com momentos de trote e galope.

Os verdadeiros treinos de galope são espaçados de semanas e/ou feitos em subidas ou em pisos de hipódromo, se acessível, para minimizar as lesões. Todos os cavaleiros profissionais montam com GPS e a maioria utiliza eléctrodos que permitem monitorizar a frequência cardíaca do cavalo. A guia eléctrica é o instrumento mais utilizado nos dias em que os cavalos não saiam em treino ou estejam a recuperar de lesões. Centros de treino com maior capacidade financeira vão ter tapetes rolantes, tapetes rolantes aquáticos e piscinas em corredor.

Sustentabilidade dos profissionais

Sem dotação nos concursos, a modalidade assenta essencialmente na venda de cavalos para o Médio Oriente, ainda em pequena escala para a China e ocasionalmente Malásia. Infelizmente para os profissionais da endurance em Portugal, os escassos resultados internacionais dos cavalos de linhas nacionais nos últimos anos, salvo raras excepções, não tem favorecido o comércio de alto nível em Portugal. Por isso o aluguer de cavalos a cavaleiros de outros continentes que queiram, por exemplo, competir num campeonato do Mundo na Europa e cujo valor para o transporte de cavalo próprio seja proibitivo, pode ser uma importante fonte de rendimento. Finalmente, o rendimento dos profissionais é completado pelo penso pelo treino e qualificação de cavalos para outros proprietários, cuja venda se acontecer pode resultar na atribuição de uma percentagem ao treinador.

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A disciplina “vive” muito da venda de cavalos, em particular para o Médio Oriente

Centros de treino em Portugal

Inicialmente uma modalidade associada a estruturas rurais de grande dimensão, a maioria localizada no Alentejo, nos últimos anos surgiram em Portugal centros de treino direccionados para treinar cavalos de outros proprietários. Fruto dos tempos, dois destes centros de treino mais recentes são encabeçados por jovens cavaleiras, como o caso da Team PL gerida pela catalã Cristina Lobera Sales, na herdade do seu parceiro João Pereira Lopes e os Al Jasmin Stables geridos pela luso-francesa Leatitia Gonçalves, campeã de França em várias ocasiões, e o seu parceiro José Luís Balsinhas.

Estes centros de treino, classificam e preparam cavalos para os seus respectivos contactos, espanhóis e franceses. Outros centros de cavaleiros, já com história na modalidade, são a VB Team da cavaleira Ana Barbas e do seu marido Filipe Cacheirinha e do cavaleiro Rui Pereira, ambos a treinar para proprietários chineses, os quais, a par da Iberica Stables, situados entre Portugal e a Catalunha, são também os principais contactos para exportação de cavalos para o Médio Oriente. A Ameira Endurance Stables em Sines do actual Campeão de Portugal Pedro Godinho, treina tradicionalmente para o Brasil, que graças ao excepcional investimento dos proprietários brasileiros possui, neste momento, dos melhores cavalos de linhas francesas da Europa.

Autor:

Mónica Mira

equitacao@invesporte.pt

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