Mónica Mira. 04 OUT 2019

Particularidades da Disciplina Endurance (Parte 1)

As provas de endurance oferecem hoje em dia ao público um verdadeiro espectáculo de fitness de cavalos e cavaleiros, natureza, cor e água, muita água.


Tempo de Leitura: 7 min

Muito diferente de outras modalidades equestres, ficam aqui algumas das particularidades e tendências mais actuais desta fascinante disciplina com cada vez mais adeptos em todo o mundo, as quais reflectem também a forte influência do Médio Oriente.

Desert-Style Riding

A forma de montar do deserto, também designada por estilo “Harley-Davidson” em virtude da posição que o cavaleiro assume, generalizou-se e tem sido adoptada até pelos cavaleiros mais clássicos. Embora incerta a sua origem, se do deserto, importada dos gaúchos da América do Sul ou dos dois, caracteriza-se por estribos extremamente longos, que mal permitem o trote levantado e a ponta dos pés claramente à frente da vertical e do joelho, por vezes mesmo juntos às espáduas do cavalo e costas inclinadas para trás de forma a acompanhar o tranco do cavalo sentado. Esta posição permite velocidades de 40Km/h exigindo uma perfeita coordenação entre a bacia do cavaleiro e o movimento do cavalo. Desenganem-se os que pensam que é só má equitação. Os resultados preliminares de um estudo realizado por uma investigadora francesa (Viry, 2014), revelaram que era possível com esta posição manter o galope mais tempo e até aumentar a velocidade média em 5,6%. Inaceitável para outras disciplinas equestres, o que é certo é que, se bem executado, poupa o antemão do cavalo e o esforço muscular do cavaleiro.

Fashion Made in Desert

Se há uns anos se olhava “de lado” para os cavaleiros árabes que montavam de calças de fato de treino, hoje em dia a moda foi importada para todos os cantos do mundo pelo seu pragmatismo. As polainas foram abandonadas pela maioria. Mesmo in são as ligaduras tipo vetrap, de preferência a condizer com as cores da equipa ou do equipamento do cavalo, ou mesmo a prateada fita americana a segurar as calças à volta dos tornozelos.

A maioria também monta de ténis, sem meias até ao joelho e com os tornozelos à mostra. Outra moda importada foram as golas usadas sobre a boca e/ou o nariz, indispensáveis no deserto por causa do pó gerado pela areia. Muitas cavaleiras copiam o estilo das cavaleiras árabes usando também uma fita ou gola à volta da cabeça,que obviamente no ocidente não são usadas para tapar o cabelo, mas que protegem as orelhas e a testa, e que aumentam o conforto do toque. A este look juntam-se os óculos escuros, de preferência espelhados. Elas e eles nas equipas de apoio usam também as calças finas de fato de treino e os inevitáveis ténis coloridos. As fitas à volta das orelhas e rabo de cavalo alto. Pouco convencional no mundo equestre, mas extremamente confortável!

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É inegável as infl uências do Médio Oriente nos looks dos cavaleiros, um pouco por todo o mundo. Desde a roupa, aos materiais equestres, ou mesmo nos membros tingidos de cor (henna)

As Assistências e as Teams

Normalmente numerosas, compostas entre, pelo menos, duas a mais pessoas por cavalo, ocupam-se de dar assistência (molhar e dar água a beber) aos cavalos durante o percurso nos pontos de apoio. Também preparam a zona de recuperação para que quando o conjunto chegue de determinada fase do percurso, recupere o mais rapidamente possível e entre o quanto antes na grelha veterinária. Aqui são preparados baldes grandes cheios de água com gelo e baldes pequenos (identificados) organizados em corredores que se reabastecem para continuar a molhar o cavalo sem precisar de o parar. Também importado do médio oriente são os uniformes das equipas. Assim uma “team” terá cor(es), logótipo e um nome que as identifica e cujos membros trarão com orgulho.

Material de Endurance

Biotano e muita cor são o apanágio da modalidade. Colorido, resistente, impermeável, leve e lavável o biotano veio para substituir integralmente o couro das cabeçadas, rédeas, peitorais gamarras e loros . Em cores mais ou menos berrantes, podem ser escolhidas “à vontade do freguês” e normalmente de acordo com a cor da equipa, do país, dos cavalos ou simplesmente por preferência própria. Nos arreios, embora muitos cavaleiros continuem a preferir uma sela de pele, pelo conforto ou porque não têm o peso regulamentar para as provas de 3*, actualmente os mais populares são em plástico e absolutamente minimalistas. Sem abas, nem abinhas são arreios particularmente leves e adaptados ao “desert-style riding” e também podem ter as mais variadas cores. As cilhas e os protectores de membros são igualmente sintéticos e laváveis. Os estribos são de apoio largo e com caixa, já que a maioria dos cavaleiros monta de ténis e por isso sem salto. Um sistema de argolas e mosquetões permite desaparelhar o cavalo em menos de nada. As cabeçadas permitem a remoção rápida da embocadura, já que os cavalos se apresentam geralmente sem a mesma no controlo veterinário.

Foto 04

Biotano e muita cor são o apanágio da modalidade no que toca a material equestre

 

Foto 03

Os pulsómetros são um instrumento indispensável para saber se o cavalo está apto para entrar na
grelha veterinária

Peso e Suadouros

Os suadouros podem ser de pêlo sintético ou tecido e pêlo sintético ou borracha e tecido, sempre lavável. Como para as provas de 3* os cavaleiros têm que ter um peso mínimo regulamentar obrigatório de 75Kg com o material, os mais leves vão adicionar um gel de dorso com chumbo até perfazerem esse peso.

Água e mais Água

Molhar é indispensável para recuperar rapidamente um cavalo. Entende-se por recuperar um cavalo, conseguir que a sua frequência cardíaca desça aos 64bpm, critério indispensável para passar na inspecção veterinária. O tempo entre a passagem da linha da meta do final da fase e a entrada na grelha veterinária denomina-se tempo de recuperação. Este tempo, que conta como tempo de prova, excepto na meta final, é um indicador fundamental da gestão do esforço do cavalo. Os cavalos com baixos tempos de recuperação, característica com elevada heritabilidade, são mais valorizados. Os pulsómetros são um instrumento indispensável para saber se o cavalo está apto para entrar na grelha veterinária.

foto 05 - Longines Euston Park Endurance Ride

É indispensável molhar um cavalo para o recuperar rapidamente

Henna e Arestins

É frequente verem-se cavalos de endurance com os membros tingidos de cor-de-laranja. Isto deve-se à aplicação de henna, um pigmento natural obtido de uma planta, conhecido por ser utilizado no oriente para tingir o cabelo e fazer pinturas na mão. Utilizado historicamente nos membros dos cavalos, acredita-se que tem um efeito protector da pele despigmentada dos cavalos calçados, mais sensível ao desenvolvimento de arestins. Esta dermatite da parte posterior das quartelas tem uma importância acrescida no endurance pelos movimentos repetidos que o cavalo executa ao longo de horas, que pode levar ao surgimento de fissuras bastante dolorosas, potenciadas pela humidade, areia e terra das pistas.

Autor:

Mónica Mira

equitacao@invesporte.pt

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