Artigos. 04 OUT 2019

Como falar com o cavalo

Para comunicar ao cavalo o que pretendemos usamos as ajudas. A mão, a perna, o nosso assento, mas também o esporim e o stick actuam sobre o cavalo, mas como exactamente devemos usar essas ferramentas para sensibilizar cada vez mais o nosso cavalo e facilitar a comunicação?


Tempo de Leitura: 13 min

Se as ajudas são sinais de comunicação que usamos para pedir algo ao cavalo, temos de saber em primeiro lugar o que pretendemos. Pedir algo sem saber o que é que estamos a pedir é um caso perdido à partida. Nas palavras do filósofo Séneca, “Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável.” o primeiro princípio importante na aplicação das ajudas é a definição do objectivo.

Definição clara do objectivo

Um objectivo pouco definido, como “quero que o cavalo ande” pode causar vários problemas. um objectivo mais específico e claro na mesma situação será “quero que o cavalo comece a andar a passo”. Fica implícito, nesta especificação, que mesmo um passo para a frente já satisfaz o objectivo. Podeparecer pouco, mas mais à frente já vai perceber porque pode ser importante considerar queo objectivo está alcançado apenas com um passo.

Outra forma de definir o objectivo “quero que o cavalo ande” de forma mais específica será “quero que o cavalo comece e mantenha o andamento a passo médio com energia e quero que ele ande na pista do picadeiro na mão esquerda e quero que ele mantenha a cabeça colocada sem pesar nas rédeas”. Definindo o objectivo assim, fica logo claro porque é que às vezes falha uma coisa tão simples como fazer o cavalo andar. Na realidade, queremos várias coisas ao mesmo tempo, e, se não estamos a comunicá-las de forma clara, se nem as temos nitidamente definidas na nossa cabeça, estamos destinados a falhar. Tendo claro na nossa mente que o nosso objectivo é esse mais complexo, conseguimos avaliar se estamos a pedir algo que o cavalo entende e consegue fazer.

Ainda pior será quando o cavaleiro tenta dar as ajudas para algo que na realidade não quer. Por exemplo, o professor de equitação pediu galope, mas o aluno tem medo do galope e por isso dá as ajudas de forma muito ambivalente.

Um outro problema pode ser ter um objectivo negativo: “não quero que o cavalo ande tão em cima de mim quando vou buscá-lo”. Quando definimos um objectivo pela negativa, temos a imagem proibitiva na cabeça e estamos a agir na defensiva. Possivelmente o cavalo não aprendeu a andar à mão numa distância confortável ou o cavalo está com medo e por isso procura mais proximidade. O que vai ajudar em ambos os casos, será entender o que se passa com o cavalo e definir uma forma de resolver. Por exemplo, ensinar o cavalo que andar à distância do meu braço será mais confortável para ele e para mim. Ter esse objectivo definido na cabeça vai auxiliar a dar as ajudas de forma correcta para o cavalo aprender a andar assim.

Eq natural 1

Falar a mesma linguagem

O segundo princípio importante na aplicação das ajudas é saber quais são as ajudas que o cavalo entende. Há ajudas que os cavalos percebem de forma instintiva: se movimentamos o nosso corpo com mais energia para cima e para baixo no trote levantado, mantendo os músculos com alguma tensão e olhando em frente, o cavalo entende que deve manter um bom ritmo de trote de forma instintiva. Se deixo o meu olhar ir para baixo, as minhas costas redondas, não acompanho tão bem os movimentos do cavalo e falo com ele de forma calma, ele é capaz de abrandar ou parar de forma instintiva. Ninguém precisa ensinar essas ajudas ao cavalo.

Mas também há ajudas que não são instintivas. Quando montamos um cavalo ensinado por outra pessoa, convém tentar saber quais os sinais de voz que o cavalo aprendeu. Por exemplo, em Portugal às vezes assobiamos para o cavalo abrandar ou parar, enquanto na equitação Western dizemos “Woah” e na alemanha os equitadores fazem “Brrrr” para parar o cavalo.

Não saber a que ajudas o cavalo está habituado, pode causar alguma confusão. Montando um cavalo ensinado Western, pode, por exemplo, puxar as rédeas para parar, mas o cavalo vai simplesmente ceder à pressão das duas rédeas com uma flexão maior da nuca, enquanto mantém o mesmo andamento. Para parar nesse caso, é preciso saber dar a ordem com o assento e a voz tal como o cavalo foi ensinado. Quando estamos a desbastar um cavalo, podemos escolher quais as ajudas que queremos ensinar. E mesmo um cavalo ensinado, pode aprender “a falar outras línguas”.

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Forma subtil de dar a ajuda na rédea, indicando a direção apenas com um levantar
da mão sem ainda ter a rédea esticada.

Como sensibilizar e ensinar

Com o objectivo definido e a linguagem clara, damos então uma ordem ao nosso cavalo. Normalmente, quando falamos de ajudas, estamos apenas a falar de montar, mas realmente a comunicação entre o humano e o equino começa logo no momento da primeira aproximação. As ajudas como sinais de comunicação, ou pedidos, começam logo quando metemos um cabeção ao cavalo e começamos a querer que ele nos siga.

Como é que o cavalo sabe o que esperamos dele? Na dúvida, ele experimenta alguma coisa. Se o nosso sinal desaparece no momento em que o cavalo faz alguma coisa, ele vai aprender que esse sinal e essa sua acção estão ligados. Que a solução para fazer a pressão desaparecer reside nessa sua açcão. Ele aprendeu a nossa ajuda.

Por exemplo, se quero que o meu cavalo me siga, posso puxar a corda que está presa no cabeção. logo que o cavalo dá o primeiro passo, solto a tensão que estava a fazer na corda. Assim, o meu cavalo percebe que cada vez que puxo a corda, quero que ele ande. Para sensibilizar mais o cavalo, posso dar alguma pré-ordem, por exemplo, olhar em frente, endireitar as costas e iniciar a minha marcha.

Um dos maiores problemas na aplicação das ajudas é quando as pessoas não param de dar a ordem quando já atingiram o objectivo. Se o meu objectivo é pôr o cavalo a andar e puxo a corda para isso, tenho de parar de puxar logo que ele ande. Se continuo puxar, o cavalo ou vai experimentar outras coisas para fazer parar a pressão na corda ou, mais provável, vai ficar “surdo” à pressão na corda. Dessensibilizamos assim o cavalo às nossas ajudas, quando realmente queremos que ele reaja de forma fina e imediata aos nossos pedidos!

O segundo problema mais visto é começar com uma ajuda pouco fina. Se queremos um cavalo sensível não podemos aplicar logo uma ajuda forte. Por exemplo, para pedir ao cavalo que ande, não uso imediatamente pressão física, normalmente pernas, mas peço primeiro apenas com a minha intenção. Imaginando o cavalo já em andamento, o meu corpo prepara-se para o movimento e o cavalo, sendo um animal hipersensível, sente essa preparação. a seguir, uso a minha voz e só no fim uso as pernas. as ajudas das pernas ainda podem começar com um toque muito ligeiro e aumentar em força e ritmo.

Os cavalos são mestres na antecipação, como todos os que já estiveram num estábulo perto da hora de ração sabem. Se o cavalo sabe antecipar o que vai acontecer sempre que aparece o tratador com o carrinho da ração, também sabe antecipar o acréscimo das ajudas. assim, com tempo, se usamos as ajudas sempre na mesma maneira crescente, o cavalo vai reagir de maneira cada vez mais sensível ao primeiro nível de ajudas que damos.


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O momento de soltar a pressão na corda para sinalizar ao cavalo que fez o que pretendemos. O treinador abre a mão no momento em que o cavalo vira a cabeça.

E se o cavalo não obedece?

Quando o cavalo não faz o que queremos, temos várias opções: Podemos continuar a fazer a mesma pressão, podemos aumentar ou variar a pressão ou podemos desistir. Desistir não é aconselhado, porque ensina ao cavalo que as nossas ajudas não significam sempre que estamos à espera de algum resultado.

Se desistimos e ficamos a pensar no assunto, estamos a dar uma pausa ao cavalo, que ele pode sentir como recompensa. Por isso, aconselho pelo menos a repetir rapidamente o exercício ou algo parecido, para deixar claro que ainda não estamos satisfeitos. Por exemplo, se não consigo que o cavalo ande a galope, não vou desistir e ficar parado a meio do picadeiro, mas vou pelo menos dar uma volta a trote. É sempre importante acabar todas as situações de treino com algum resultado positivo. Se não consigo exactamente o que pretendia, pelo menos algo na mesma linha.

Muitas vezes é aconselhado aumentar a pressão até conseguir o que pretendemos. Por exemplo, usar o stick, se as pernas não chegam para aumentar a velocidade. Por essa lógica podemos arriscar entrar numa guerra de medir forças, que pode acabar mal para nós, dado que temos menos força do que o cavalo ou pode acabar no uso de freios e outras ferramentas cada vez mais potentes. Na minha opinião, devemos aumentar apenas até a um nível no qual ainda nos sintamos confortáveis com as nossas escolhas. Se esse nível não chega, podemos variar o tipo de pressão que fazemos ou adaptar para baixo o nosso objectivo, para conseguir algo parecido antes de parar de pedir.

Uma das razões mais frequentes para o cavalo não obedecer é porque pedimos logo de forma um bocado bruta e o cavalo está a defender-se contra essa força aplicada nele. É impressionante como os cavalos mais “teimosos” voltam a ser sensíveis quando tentamos aplicar as ajudas em ordem crescente, começando com um nível muito subtil.

Quando aumentamos a pressão das ajudas de um nível para outro, temos que deixar alguns segundos para o cavalo ter hipótese de responder. Não devemos aplicar todos os níveis ao mesmo tempo. Mas também não podemos deixar passar muito tempo porque a próxima ajuda pode parecer um pedido novo ao cavalo, em vez de ser a intensificação da ajuda anterior.

A harmonia como objectivo final

Em quase todas as disciplinas de equitação e ainda mais quando montamos apenas por lazer, harmonia é o nosso objectivo final mais importante. Quando damos uma ajuda e o cavalo cumpre o que pedimos, devemos procurar estar em harmonia com ele o máximo tempo possível. Pode ser apenas até ao próximo salto ou até ao próximo exercício de Dressage na reprise que estamos a executar, mas também pode ser o resto do passeio, porque estamos simplesmente em sintonia natural e não temos que corrigir nem mandar nele. Seja como for, lembrem-se sempre de dar uns momentos de harmonia quando conseguem o que pretendiam do vosso cavalo. assim vão aumentar cada vez mais a sensibilidade e a motivação dele para ouvir os vossos pedidos.

 

Exemplo de uma ajuda dada em ordem crescente: transição de passo ao trote:

1- Estabelecer a intenção: imaginar o ritmo do trote, olhar em frente, sentar com energia

2 - Usar um sinal sonoro (voz) para pedir o trote.

3 - Se necessário, usar uma ajuda física como pernas para pedir trote.

4 - Logo que o cavalo dá o primeiro passo de trote, parar de pedir e adaptar o nosso corpo ao trote para re-estabelecer harmonia.

 

O cavalo não faz o que quero? E o que devo fazer?

1 - Porque não percebeu. Tentar simplificar o pedido, partindo o objetivo em vários sub-objetivos e pensar quais os passos até atingir o objetivo final.

2 - Porque não consegue. Definir passos intermédios para que o cavalo ganhe forma física para fazer o que pedimos.

3 - Porque não está motivado. Criar sub-objetivos que o cavalo consegue alcançar facilmente e dar-lhe motivação através da harmonia que se estabelece quando ele faz o que pedimos. Como vêem, a abordagem é basicamente sempre a mesma. Se não conseguimos chegar ao objetivo, temos que tentar chegar lá por via de sub-objectivos.

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Fotos: Bruno Barata e Freya Voigt Von Munzert

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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