Comentário. 04 OUT 2019

A difícil arte de ensinar a montar a cavalo

A frase é do Coronel Jorge Mathias e quem o conheceu sabe bem como ele era: um excepcional contador de histórias e, normalmente, bem disposto. Eu contarei apenas duas situações.


Tempo de Leitura: 16 min

Durante uma instrução de equitação falava-se de rédeas (efeito das rédeas): rédea de abertura, rédea contrária, rédea directa de oposição, rédea contrária de oposição e rédea intermediária. Um dos alunos levanta as mãos cheias de rédeas e pergunta: “Ó meu Coronel, qual destas rédeas é a intermediária?” Risota geral por causa da total ignorância do aluno.

Outra e fico por aqui: no campo relvado de Mafra e durante a entrega dos diplomas aos alunos dos cursos, de mestres e instrutores a que toda a gente compareceu, mestres e alunos, o Coronel Jorge Mathias ia dando umas «sticadas» na égua que estava ao seu lado - seria a Imperatriz. O seu cavaleiro estava visivelmente incomodado com a excitação da égua e nós difi cilmente estávamos a conseguir conter o riso.

Passando ao assunto deste escrito, devo dizer que todos os assuntos versados são o resultado do trabalho com dezenas de cavalos que montei. São opiniões pessoais que visam ajudar alguns cavaleiros a melhorar a sua performance. Alguns há que, como já sabem tudo, não irão beneficiar nada com o que digo; paciência falarei para os mais humildes, aqueles que desejam aprender.

Há anos vi em Alcochete um casal de irmãos. Ela, mais ou menos 12 anos, e ele mais ou menos 10. A ela disse-lhe que a focinheira estava por fora das faceiras o que é errado. Respondeu: “não faz mal, o cavalo está habituado a andar assim!!” O rapaz estava em frente da cabeça do cavalo – o dele, e agarrado ao freio, tentava enfiá-lo na boca do cavalo. Este, claro, não abria a boca. Peguei na cabeçada e coloquei-a na cabeça do cavalo. Fiquei convencido que o rapaz ficou a saber.

Um dia numa instrução de Equitação (óbvio) mandei montar, mas não sem antes recomendar “pé esquerdo ao estribo”. Para meu espanto, dois alunos meteram o pé direito. “E agora?” Perguntaram. “Agora montem!” Fizeram toda a aula montados de costas viradas para a cabeça dos cavalos. Julgo que nunca mais se esquecerão de qual é o pé direito e o pé esquerdo.

E, como a equitação é uma Arte, então procedamos como tal. Mas não é o que vejo. Quando autorizados pelo júri, os cavaleiros podem entrar em prova sem casaco, mas… mangas da camisa para baixo, ou mangas curtas. Já vi alguns com as mangas arregaçadas - ainda por cima mal arregaçadas - e colarinho desapertado. Nas provas de Ensino, a excelência da Equitação, julgava que nunca veria alguém sem casaca. Aconteceu em Ponte de Lima há uns anos: suspensórios, cartola e camisa branca (!!!).

As botas devem estar limpas. Claro que dizem logo que é por causa do pó do campo de aquecimento. Isso sei eu e todos nós sabemos, até os elementos do júri. Mas também vi, em Alcobaça, a mãe da Ana Varela à entrada do campo de provas com um pano a limpar as botas da filha.

Os outros cavaleiros, não têm namorados ou namoradas, ou amigos, que façam o mesmo serviço que esta mãe? É que dá muito mau aspecto ter as botas sujas, durante as provas. E ainda por cima a última nota a dar no protocolo das provas de Ensino é “a apresentação do conjunto cavalo – cavaleiro” (Fig. 2 e 3).

Fig. 02

Fig. 2 - Posição incorrecta da parte inferior da perna: o calcanhar está levantado e o loro está torcido.

Fig. 03

Fig. 3 - Como a barriga da perna deve estar encostada à sela para fazer o cavalo avançar.

E já que falo em botas vale a pena falar nas esporas ou nos esporins. Têm que ter os ramos horizontais e assentes na mosca, ao nível do tendão de aquiles. As fivelas das correias devem ficar ao meio do peito do pé ou para o lado exterior do pé, e as correias devem ter um tamanho normal, não sobrando mais que 2 cm.

Falando do arreio de cabeça ou cabeçada: as faceiras devem entrar nos passadores que os correeiros, com muito cuidado e saber, ali colocam. Se não houver passadores usar elásticos da mesma cor da cabeçada. As rédeas devem ter travincas quando se usa gamarra para que as argolas da gamarra não fi quem presas nas fivelas das rédeas.

Muitos cavaleiros se queixam que se magoam na parte interior das coxas por causa da fivela dos loros que fazem uma altura razoável por debaixo da abinha do arreio (Fig. 4).

Fig. 04

Fig. 4 - Muitos cavaleiros queixam-se de dor na parte inferior das coxas por causa da fivela dos loros que fazem uma altura razoável por debaixo da abinha do arreio. Com este método, resolve esse problema (in Revista Cheval Magazine, de Abril de 1992).

MANEIO DO CAVALO

Trabalho à guia: este trabalho não é muito complicado mas é bastante complexo. Sobre este assunto nada melhor do que consultar o livro “A Equitação Elementar – a Caminho da Complementar”, da autoria do Coronel de Cavalaria Joaquim Arnaut Pombeiro.

Comecemos pelo material. Um bom cabeção (Fig. 5), que deve ficar justo na cabeça do cavalo. Se ficar largo magoa a cabeça do animal. A guia deve ser de tecido macio, e NUNCA aquelas fitas com que se fazem subir as persianas. Se o cavalo der um puxão a nossa mão ficará queimada. Terá à volta de seis metros e numa extremidade deve ter uma argola e na outra uma fi vela ou mosquetão, para se ligar ao bridão ou ao cabeção. Deverá trabalhar-se em círculo de aproximadamente de 12/13 metros de diâmetro.

Fig. 05

Fig. 5 - Um bom cabeção

A ligação da guia ao bridão pode ser feita de várias maneiras, entre elas: ligar à argola do bridão do lado interior do círculo. Neste caso o bridão deve ser de travincas para que não passe por dentro da boca a argola do lado exterior, ou então fazer passar a focinheira por essa argola, apertando depois. Muitas vezes comete-se um erro crasso, fazer passar a guia pela argola interior do bridão para prender o mosquetão à argola exterior. Ou o bridão é de bocado inteiro e não há problema, ou, se não, o bridão articulado vai ferir o palato. Outra maneira é ligar as duas argolas do bridão com uma correia que tem ao meio uma pequena argola onde se liga a guia. O sistema é bom pois actua no bridão, interior e exteriormente (Fig. 6).

Pode também utilizar-se o sistema “colbert” em que a guia passa pelo bridão interior, vai por cima da nuca do cavalo e prende o bridão do lado exterior. Deve usar um bridão de travincas ou rodelas de borracha, para não ferir as comissuras da boca (Fig. 7).

 Fig. 06

Fig. 6 - Ligação da guia à embocadura

Fig. 07

Fig. 7 - Uso da rédea "colbert"

Se trabalharmos para a esquerda, a guia deve começar na mão direita pela argola e ir laçando pelo lado de fora e pelo lado de dentro essa nossa mão (Fig. 8). A mão esquerda deve manter a guia esticada. É um erro trabalhar com a guia larga. Além de poder ser maléfico para a boca do cavalo ou para o chanfro, se usar cabeção, uma acção do chicote, que deve ser oportuna, deixa de o ser pois vai demorar a esticar a guia.

Há um pequeno truque em que a guia passa por baixo do polegar, por cima do indicador e depois por baixo dos outros dedos. Porquê? É que se o cavalo dá um puxão a guia solta-se da mão sem esta ficar queimada.

A seguir o trabalho consiste em tomar a guia suavemente para nós e logo a seguir ceder. E de seguida, fazer o mesmo até o cavalo ceder, baixando a cabeça. Estamos então a trabalhar e não a cansar o cavalo como, infelizmente, se vê com frequência. O trabalho à guia não deve exceder meia hora, e deve ser feito para ambos os lados (Fig. 9).

Fig. 08

Fig. 8 - Maneira de pegar na guia

Fig. 09

Fig. 9 - O trabalho à guia não deve exceder 30 minutos e deve ser feito para ambos os lados.

Trabalho montado: o General L’Hotte dizia que um cavalo só estava pronto do desbaste quando estiver “calmo, ligeiro, direito e para diante”. Comecemos pela última: “para diante” – um cavalo que não esteja para diante não fará nada de jeito. Nuno de Oliveira disse que o aquecimento do cavalo é fundamental para uma boa sessão de trabalho.

Como é então? Os primeiros minutos pertencem ao cavalo. Nada se lhe pede, a não ser que ande a passo, segue-se o trote e aqui sim – vamos “puxar” por este andamento, até que o cavalo se descontraia e comece a distender os membros. Alargue e encurte o trote. Aquecer não é pô-lo ao sol. É trabalhar! O cavalo estará para diante.

Num “cavalo direito” os pés do cavalo deverão pisar as pegadas das mãos, ou melhor, os sítios por onde passam as mãos, a direito ou em curva.

Num “cavalo ligeiro”, o cavalo não pesa na mão. Como? Recuando de modo a colocar o peso nos posteriores, ou melhor, peso igual nos anteriores e nos posteriores, sem se pensar que se torna necessário uma balança. O que é preciso é que o cavalo esteja num equilíbrio, sob o peso do cavaleiro, como o estará quando em liberdade, movendo-se com graça, com facilidade e agilidade.

Quanto ao “cavalo calmo”, se o cavalo tem tendência para «desertar» pode fazê-lo por ter medo das pernas do cavaleiro. Remédio (com conhecimento de causa): a passo, ajustar bem as pernas. Só passo. Ao fim de meia hora ele estará calmo e suando das orelhas à cauda (receita do Brigadeiro Henrique Callado). Agora ele irá trabalhar bem. Não esquecer um galope curto. Apertando as pernas e fechando os dedos no terceiro tempo de galope.

Cavalo colocado: o cavalo tem que estar colocado - chanfro vertical ou o mais possível vertical. Como? Meter o cavalo em rotação inversa (círculo com garupa para fora), tipo espádua a dentro. Outra maneira: mão direita ou esquerda mais alta que a boca do cavalo. Ele irá baixar a cabeça, às vezes contrariado. Um cavalo despapado tem o dorso côncavo (para baixo) e nunca irá trabalhar bem. Deve ter o dorso convexo.

Fig. 10 - meter em grande

Fig. 10 - Acção correta da utilização do stick (desenho do Eng.º Pedro Dória

Fig. 11 - meter em grande

Fig. 11 - Acção incorrecta da utilização do stick (desenho do Eng.º Pedro Dória).

Trabalhar com stick ou chibata ou pingalim: colocando o stick na mão direita, por exemplo, a acção que se pretende é rodando o pulso e NUNCA puxar a mão atrás. Isso iria dar um puxão na boca do cavalo e o efeito que se pretendia é anulado por uma defesa do cavalo (Fig. 10 e 11).

Pretendo com estas dicas transformar uma pessoa que anda “de cavalo” (Fig. 12) numa pessoa que ande “a cavalo” com a postura como indica a Fig. 13.

Fig. 12

Fig. 12 - Pessoa a "andar" de cavalo.

Fig. 13

Fig. 13 - Cavaleira que "anda" a cavalo.

Autor:

José Miguel Cabedo

equitacao@invesporte.pt

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