Equitação Natural. 28 AGO 2019

O Trauma (parte 2)

Dessensibilização para resolver e prevenir o trauma.


Tempo de Leitura: 8 min

Para resolver e prevenir trauma psicológico nos cavalos, podemos usar técnicas de dessensibilização, de modo a aumentar de forma lenta e sustentável a zona de conforto. Devemos saber ler as reacções de stress do cavalo, mesmo as mais subtis formas de dissociação.

FOTOS: FREYA VOIGT VON MUNZERT

 

Na última edição da revista, explorámos o conceito de trauma e como reconhecê-lo. Entende-se por trauma quando um acontecimento provoca uma experiência dolorosa, devido à sua imprevisibilidade, intensidade ou gravidade, tornando o sujeito particularmente sensível em situações similares. Por isso, podemos assumir que estamos perante um cavalo traumatizado quando este reage de forma particularmente sensível em algumas situações. Para efeitos práticos, podemos assumir que existe trauma quando o cavalo reage de forma muito mais sensível do que nos parece razoável. Para resolver a situação, podemos então pensar em dessensibilizar o cavalo contra o estímulo que lhe está a causar stress.

A mesma técnica de dessensibilização pode ser usada para prevenir trauma. Qualquer situação nova pode causar medo no cavalo e se esse medo for muito intenso, pode tornar-se traumático. Usando técnicas de dessensibilização, podemos introduzir situações ou objectos novos ao cavalo para evitar trauma.

Tradicionalmente, a forma mais comum de habituar cavalos a objectos novos é o flooding, que consiste em “inundar” o cavalo com a experiência nova sem lhe deixar a possibilidade de fugir. Exemplos comuns encontram-se facilmente no processo de desbaste, por exemplo, quando se coloca a sela pela primeira vez, apertando logo a cilha e se deixa o cavalo correr com ela até desistir. O que acontece nesse caso não é que o cavalo tenha deixado de ter medo da sela, mas aprendeu que não consegue fugir dela. O resultado chama-se desamparo aprendido, um fenómeno que causa depressão clínica e outras doenças mentais nos seres humanos. Nos cavalos resulta na criação de uma espécie de cavalo-robot, que aprendeu a fugir para dentro, em dissociação. A maioria dos cavalos de escola funciona assim. Normalmente não é uma solução muito estável, porque num animal sensível ao stress acaba por se fazer sentir de outras formas, resultando em comportamentos agressivos ou de fuga, ou em doença.

gua com medo de deixar colocar a cabeçada

Se realmente queremos ensinar ao cavalo que ele não precisa de ter medo, seja de um objecto novo, seja de uma situação que o traumatizou no passado, então temos que proceder mais devagar. Em vez de ir até além do limite e causar uma reacção de fuga, devemos tentar ficar dentro da zona de conforto. Quando vemos os primeiros sinais de stress, sabemos que estamos a chegar ao limite. Classicamente pensa-se que não há aprendizagem sem dor, que não se pode aprender a lidar com coisas que estão além da nossa zona de conforto sem enfrentar o medo, mas novos estudos afirmam que podemos fazer crescer a nossa zona de conforto, simplesmente chegando perto do seu limite, reforçando as zonas fronteiriças e fazendo assim crescer a zona de conforto de forma lenta e sustentável.

Os passos para fazer crescer a zona de conforto lentamente são simples na teoria mas complicados na prática (ver caixa em baixo).

As formas como o cavalo mostra o desconforto são sempre as mesmas três: fight (lutar), flight (fugir) ou freeze (congelar, i.e. dissociar). Na maioria das vezes, o freeze surge primeiro e é tão subtil que frequentemente é ignorado. Quando o cavalo morde sem aviso prévio ou explode em cangochas “do nada”, provavelmente esteve em freeze algum tempo antes e os humanos não perceberam. Um cavalo com a cabeça bem alta, com as orelhas para a frente e com os olhos bem abertos pode parecer feliz, mas na realidade pode estar em alerta máxima e freeze e, no próximo segundo, decidir fugir. Se queremos evitar causar essas reacções mais fortes e ficar mais perto do limite da zona de conforto, temos que saber ler as reacções, principalmente as do freeze.

gua com receio de apertar a cilha

Quando vemos então os primeiros sinais de desconforto, não devemos parar e pedir desculpa ao cavalo, mas sim, continuar o que estamos a fazer de forma cuidadosa e lenta, para não causar mais reacções. O cavalo que estava a começar a ter algum receio, tem assim tempo para avaliar a situação e voltar a relaxar. O relaxamento pode-se mostrar de forma clara e óbvia ou pode ser subtil. No mínimo, podemos ver um tipo de descongelamento, quando o cavalo volta a mexer as orelhas e relaxa os músculos. Sinais mais fortes de relaxamento são o mastigar e lamber, um suspiro fundo, o soprar ou um bocejar (esses sinais foram descritos no artigo “Como ler o cavalo”, na edição de Setembro/ Outubro de 2018 desta revista).

Ao ver um sinal de relaxamento, podemos então retirar o estímulo, ou seja parar de fazer o que estávamos a fazer e que causou desconforto ao cavalo. Dando um momento para apreciar o relaxamento, voltamos então a apresentar o estímulo e repetimos o exercício. Com cada repetição, o cavalo habitua-se um bocadinho mais ao estímulo e aprende a não ter medo dele. Quando chegamos a um momento de relaxamento mais profundo do que os anteriores, podemos parar a sessão.

É sempre bom parar em momentos positivos, porque os últimos momentos de cada experiência ficam gravados na memória de uma forma mais forte do que todos os momentos anteriores. Por isso mesmo, devemos ter o cuidado de não parar quando o cavalo está mesmo assustado. Devemos tentar reduzir o estímulo até um ponto onde conseguimos esperar uma reacção de relaxamento e só parar depois disso. Se conseguirmos realmente identificar o limite da zona de desconforto, normalmente, chega-se ao relaxamento. Contudo, por vezes, isso não é suficiente. Nesses casos, pode ajudar permitir ou causar algum movimento, pois o movimento reduz o stress. Dar umas voltas a passo pode diminuir de forma substancial o medo que o cavalo sente.

Poldra a resistir a ser tocada no rosto

Algumas precauções são necessárias quando tentamos resolver traumas nos cavalos. Em primeiro lugar, devemos reconhecer as nossas próprias limitações e não tentar resolver um caso que seja demasiado difícil. Há traumas e traumas. Um cavalo que tem algum receio do bridão talvez seja um caso que podemos tentar resolver em casa. O caso da égua que descrevi no último artigo, que empinava e caia para trás logo que alguém tentasse simplesmente colocar um dedo na sua boca, possivelmente ninguém vai conseguir resolver. Alguns traumas podem ser tão profundos, pela intensidade ou exposição repetitiva à situação, que nunca será possível recuperar. Mesmo nos seres humanos, com muito mais estudos e com a possibilidade de terapias cognitivas, há traumas que são difíceis de resolver.

Também é importante não assumir imediatamente um trauma psicológico. Antes de tentar dessensibilizar o cavalo, devemos procurar excluir que ele tem alguma razão física para reagir da forma como reage. Por exemplo, o “medo” do bridão pode ser causado por problemas dentários. Ou a reacção agressiva contra a cilha pode ser causada por dores nas costas. Uma visita do veterinário ou de um osteopata equino pode despistar essas razões físicas.

 

Passos para fazer crescer a zona de conforto lentamente:

1 - Reconhecer os primeiros sinais de desconforto ao estímulo

2 - Continuar a expor o cavalo ao estímulo de forma cuidadosa

3 - Remover o estímulo quando o cavalo mostra sinais de relaxamento

4 - Voltar a expor o cavalo ao estímulo até ele mostrar os primeiros sinais de desconforto.

5 - Repetir até encontrar um momento particularmente bom, que escolhemos para terminar a sessão.

 

Artigos relacionados:

- O Trauma (parte 1)

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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