Equitação Natural. 27 AGO 2019

O Trauma (parte 1)

Perceber o trauma em cavalos


Tempo de Leitura: 11 min

Quando falamos das nossas dificuldades ao treinar cavalos, o trauma é uma causa muito mais comum do que geralmente é assumido. É fundamental entender as causas de trauma, saber reconhecê-lo e aprender formas de resolver os traumas do passado. Ainda mais importante é aprender a não causar traumas no processo do treino. O estudo de trauma em humanos ainda não está muito avançado e em cavalos ainda menos, mas podemos tentar perceber os mecanismos básicos.

FOTOS: BRUNO BARATA, FREYA VOIGT VON MUNZERT E SANDRA DIAS DA CUNHA

 

Raramente encontramos cavalos que não apresentem algum problema no treino, como por exemplo:

• Ansiedade enquanto estão a trabalhar no picadeiro,

• Ansiedade ao sair do recinto normal para um passeio,

• Problemas na aceitação da sela ou da cabeçada,

• Sensibilidade excessiva no maneio (limpeza do corpo ou cascos),

•  Sintomas de stress como “engolir ar” ou “marcha de urso”,

• Recusa em entrar na roulotte...

A lista podia continuar e, certamente, todos nós nos lembramos de muitos exemplos específicos de problemas deste tipo. Porquê? Será que um cavalo desenvolve uma dessas atitudes negativas face aos nossos desejos? Por exemplo, porque é que será que um cavalo não gosta do bridão?

Ansiedade

Grande ansiedade durante uma prova de ensino

 

UMA HISTÓRIA VERDADEIRA

Há uns anos, recebi um telefonema de uma senhora que tinha um problema com a sua égua. O animal não aceitava o bridão e a senhora queria saber como resolver a situação. Ela já tinha tentado colocar mel no bridão, porque alguém lhe tinha sugerido essa ideia, mas isso não resolveu o medo da égua. Antes de dar mais dicas, perguntei quando tinha surgido o medo pela primeira vez. “Foi no dia em que veio o rapaz para desbastar a égua.” Aparentemente, o plano tinha sido pegar numa égua de três anos, que só estava habituada ao campo e eventualmente ao cabeção, e desbastá-la num só dia. Quer dizer, habituá-la à sela, à cabeçada, ao bridão, ao contacto das rédeas, ao peso do cavaleiro, parado e em andamento, etc.. Tudo num único dia.

Respirei fundo e perguntei como correu. Não fiquei surpreendida com a resposta: não correu nada bem. Ao tentar forçar o animal a aceitar o bridão na boca, a égua, que já devia estar muito stressada e cansada nessa altura, não aguentou mais e começou a empinar. Em vez de reavaliar a situação, o “rapaz” decidiu “não deixar ganhar a égua” e usou cada vez mais força. No meio do processo, a égua empinou-se tanto que chegou a cair para trás, mas no fim, os humanos ganharam a luta e a égua tinha o bridão na boca.

Boca

Linhas na boca que podem mostrar tensão

A história é um exemplo espectacular de como conseguir o resultado pretendido sem qualquer consideração pelos níveis de stress do cavalo e, desta forma, causando um trauma. A égua obviamente estava muito assustada com o processo e, a partir daí, nunca mais deixou ninguém mexer na boca.

Não só foi impossível, mesmo usando toda a força possível, voltar a colocar um bridão, como a égua passou a recusar outras situações. Por exemplo, já não conseguiam desparasitar a égua, porque ela empinava logo, caindo para trás quando tentavam colocar o desparasitante na boca. Não sei o que aconteceu à égua, mas não tenho grandes esperanças, porque um trauma destes é muito complicado de resolver. Teria aceitado trabalhar com a égua para tentar resolver o trauma, mas não era essa a intenção da chamada. O que queriam era uma dica para, em pouco tempo, ultrapassar o problema. Felizmente, há vários graus de traumas e nem todos são tão profundos. E, melhor ainda, podemos todos aprender a não causar trauma no processo do desbaste ou em geral no treino dos nossos cavalos.

Coices

Égua a reagir com agressão

 

O QUE É O TRAUMA

Geralmente, o trauma acontece quando [uma experiência é traumática, ou porque] um evento traumático se repete muitas vezes ou porque [quando] um único evento é tão assustador que causa logo trauma, como no exemplo da égua relatado a cima. Um exemplo de trauma causado por repetição de eventos traumáticos é, por exemplo, usarmos todos os dias durante um ano uma sela que magoa o garrote do cavalo. No final do ano, vamos ter um cavalo que não aceita bema sela, mesmo se compramos uma nova que esteja mais adaptada às costas do animal. O cavalo ficou traumatizado pela repetição da experiência de dor e associa qualquer sela a sofrimento. De facto, não é sempre fácil perceber se é a sela actual que causa problemas ou se é o trauma anterior que causa o problema. Nesse caso, é sempre importante pedir ao veterinário, osteopata, especialista em sela, etc., para avaliar o caso e excluir que existe dor actualmente.

A causa mais comum dos traumas nos cavalos é a pressa ou a falta de técnica no desbaste, por uma razão simples: se a primeira vez que sentimos uma experiência nova, ela é negativa, isso é muito mais relevante do que se algo correr mal quando já estamos habituados. Imagine que a primeira vez que uma criança vai ao dentista, tem logo uma cárie grande e o processo de a tratar é doloroso e muito stressante: o mais certo é essa pessoa fi car com muito medo de ir ao dentista, possivelmente para a vida inteira. Se já estivemos no dentista dezenas de vezes e um dia, há uma cárie, sabemos que foi uma excepção e, em princípio, não ganhamos tanto medo. Para um cavalo, isso pode acontecer em todos os passos do desbaste mas também, por exemplo, na primeira vez que entra numa roulotte, na primeira vez que vai ao ferrador, etc. Por isso, é fundamental que a primeira vez de qualquer experiência corra bem, sem acidentes, sem medos, sem grande stress. Mais vale tomar mais tempo na introdução de uma nova experiência do que ter sempre problemas para o resto da vida do cavalo.

Devemos assumir que existiu um trauma no passado do cavalo, sempre que não conseguimos perceber a reacção negativa do animal. Se não há razão nenhuma para ele ter medo, em vez de fi carmos frustrados e impacientes, devemos lembrar-nos que é possível que exista um trauma. Um dos factores que torna o trauma difícil de entender e frustrante é que os cavalos são mestres de associação. Muitas vezes associam algum aspecto visual com a experiência traumatizante e reagem de forma muito stressada ao ver o “gatilho” novamente. A grande autora Temple Gradin conta uma história no seu livro “Animals in Translation” sobre um cavalo que foi abusado por um homem com chapéu preto. A partir daí, o cavalo nunca mais conseguia ver um chapéu preto sem entrar em pânico. É preciso perceber esse mecanismo de associação visual para entender que o comportamento do nosso cavalo pode ter pouco ou nada a ver com o que estamos a pedir dele num momento específico.

 

RECONHECER STRESS

Tanto para não causar trauma, como para resolver traumas antigos, precisamos de saber “ler” o cavalo, principalmente as suas reacções de stress. Se conseguimos parar antes de o cavalo ficar stressado de mais, ganhamos sempre pontos. Quando ensinamos algo de novo, devemos tentar parar ou fazer um intervalo quando o cavalo se está a sentir bem, e devemos não continuar até um nível excessivo de stress, do qual o cavalo não consegue regressar. Quando tentamos resolver um trauma antigo, devemos reconhecer o momento em que estamos a causar stress excessivo e nessa altura usar técnicas para aliviar o stress, que vamos descrever mais abaixo. Para as duas situações, é muito importante saber ler as reacções de stress.

Fugir

Cavalo que foge quando entra em stress

Há três tipos de reacções ao stress: fight (lutar), flight (fugir) e freeze (congelar, i.e. dissociar). Aquilo que quase todos os que lidam com cavalos percebem melhor como sendo uma reacção de stress é a fuga. Quando o nosso cavalo vê alguma coisa assustadora e tenta fugir, sozinho ou connosco em cima, ninguém tem dúvidas de que o animal tem medo. Por outro lado, quando os cavalos reagem com agressão, já não é tão claro, para a maioria dos cavaleiros, que se trata quase sempre de uma reacção de stress. Sim, os cavalos são animais de fuga, mas também sabem lutar e alguns deles têm preferência por essa reacção, ou enveredam por ela quando não conseguem fugir, por estarem presos na boxe ou pelo cabeção. A categoria “freeze” é a mais difícil, principalmente porque se confunde facilmente um cavalo em dissociação com um cavalo relaxado.

Dissociação é muito simplesmente quando a nossa mente sai do corpo. Pode ser tão ligeiro como pensar noutra coisa, longe de onde estamos fisicamente, ou pode ser tão grave como um rato que fica paralisado em choque quando o gato brinca com ele. Nesse caso do rato, o sistema nervoso reage primeiro com fight e/ou flight, mas quando toda a esperança está perdida, reage com dissociação, assim anestesiando o rato ao horror da experiência e à possibilidade da morte. Mais ou menos extremo, o princípio é sempre o mesmo: se não conseguimos ou não queremos lidar com o momento presente, saímos física ou emocionalmente da situação. Nós, humanos, dissociamos frequentemente, por exemplo quando imaginamos a nossa praia favorita enquanto estamos sentamos na cadeira do nosso dentista. À partida é uma função útil, mas não é positivo quando fica crónico e se torna um hábito constante, tanto nos humanos como nos cavalos. Dissociação crónica é um sintoma de stress crónico, que causa problemas físicos e psicológicos e, por isso, deve ser evitada.

Mas não é fácil distinguir um cavalo dissociado de um cavalo relaxado. As diferenças são muito subtis e às vezes só são reconhecíveis se conhecermos bem o indivíduo em causa. Geralmente, as seguintes expressões são sintomas de dissociação negativa e não apenas de um cavalo relaxado:

• olhos que já não pestanejam, ou muito abertos ou quase fechados

• orelhas muito fixas

• linhas à volta da boca que indiquem que os dentes estão bem cerrados

• cavidades nas bochechas, onde a tensão da boca puxa a pele para dentro

• tensão nos músculos

• cabeça alta.

Em contraste, um cavalo relaxado tem os músculos relaxados, uma posição da cabeça mais baixa, pestaneja e mexe as orelhas e não tem tensão à volta da boca.

Escola

Cavalo relaxado ou dissociado?

Finalmente, uma consequência grave da dissociação é que, para a maioria de nós, é muito prático lidar com um cavalo dissociado. Muitas vezes, os cavalos conseguem cumprir bem as funções deles, por exemplo como cavalo de escola, estando completamente em dissociação. Mas os problemas são vários: além do stress constante, que causa patologias físicas e psicológicas, temos o risco da “explosão”. Na maioria dos casos, quando um cavalo explode “do nada”, houve um estado dissociativo anterior, que foi ignorado.

Para não causar traumas ou para resolver traumas antigos, é importante perceber esses mecanismos todos e saber ler bem o cavalo, para poder avaliar quando estamos a entrar num nível de stress excessivo. No próximo artigo, vamos falar de metodologias concretas para evitar e resolver traumas.

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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