Formação. 12 JUN 2019

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes

Pioneirismo de mãos dadas com a comunidade.


Tempo de Leitura: 13 min

Há 29 anos nasceu nas Mouriscas a primeira escola profissional de natureza pública do país, que, poucos anos mais tarde, implementou o primeiro curso de Técnico de Gestão Equina em território nacional. A EQUITAÇÃO aproveitou as comemorações da efeméride para ver como se formam profissionais com o coração do lado certo do peito.

O dia prometia chuva, mas isso só atrapalhou as fotografias. Os trabalhos na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA) seguiram o seu curso, até porque, a 7 de Maio, quando a EQUITAÇÃO foi conhecer este projecto educativo pioneiro no nosso país, à Herdade da Murteira, em Mouriscas, Abrantes, estávamos em plenas comemorações do 29.º aniversário da EPDRA.

Carpent tua poma nepotes [Os vindouros colherão os teus frutos]. O slogan da Escola, bem visível em letras verdes escuras no muro branco perto da cafetaria e do lagar, não deixa indiferente quem por ali passa e, hoje, quando escrevemos estas linhas, depois de conhecermos o projecto e as pessoas, percebemos que não poderia fazer mais sentido.

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EPDRA2019 (11)Na biblioteca ao cimo das escadas contíguas à cafetaria fomos recebidos por um aconchegante café oferecido pelo Eng.º João Quinas, director da EPDRA e professor há mais de 40 anos. Com metade da experiência, mas o mesmo entusiasmo juntou-se ao grupo o Prof. Filipe Canelas Pinto, que há 21 anos veste a camisola da docência na EPDRA, actualmente a coordenar a disciplina de Equitação do curso de Técnico de Gestão Equina.

“O dia hoje é dedicado aos conteúdos equestres, mas sentem-se, que já vamos para cima para os colóquios”, enquadrou o director enquanto nos punha a par do programa das comemorações, que havia começado a 4 de Maio e que tinha incluído actividades tão diversas como uma prova de trail a contar para o Campeonato Regional da modalidade – o Corvus Trail – ainda fresco na memória de todos pelos bons momentos proporcionados, já que professores e alunos aproveitaram para desbravar de outro modo os trilhos da Herdade que tão bem conhecem.

Chamar a comunidade à escola

Fomos para cima, que é como quem diz, para o anfiteatro em frente à eira. Lá dentro, o momento foi de partilha. Os alunos, atentos e de olhos vivos, seguiam uma por uma as palavras dos grandes nomes do mundo equestre – como o Eng.º Manuel Campilho, da Quinta da Lagoalva; o cavaleiro de Obstáculos e treinador António Frutuoso de Melo; ou o cavaleiro de Dressage e criador Miguel Ralão Duarte – que, naquele dia, estiveram ali só para eles.

“Gostamos de proporcionar estes momentos com pessoas de referência, muitas delas nossas parceiras e que recebem os nossos alunos para estágios nas suas «casas», para que haja uma aproximação dos formandos com o mundo real”, explica Paulo Vicente, director do Curso Técnico de Gestão Equina e director-adjunto da direcção da EPDRA.

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Foi na sua companhia, aproveitando “a aberta” e o facto de ainda estar motivado, depois da prova do fim-de-semana, para caminhar, que voltámos ao ponto de partida para o almoço no lagar. Assim “esticámos as pernas e o tempo” para sabermos mais sobre este curso que foi um dos primeiros a integrar, no ano lectivo de 1993/1994, a oferta formativa da EPDRA. Nessa altura, “fomos a primeira escola profissional a implementar o curso, mas hoje são muitas. Por isso, para que nos possamos distinguir temos, em primeiro lugar, de entender aquilo que o mercado necessita, e daí a importância também destes momentos com as pessoas que estão no mercado, os empresários, os cavaleiros, que são, no fundo, aqueles que depois vão usufruir dos resultados da nossa formação”, começa por explicar.

Para a proximidade com o chamado mundo real – que foi o fundamento na origem desta Escola, como mais tarde haveria de explicar João Quinas – têm contribuindo também outras actividades paralelas ao programa curricular. “Incentivamos não só a participação em competições – havendo uma verba de 150 euros por aluno, que pode ser utilizada para esse propósito ao longo do ano lectivo – como organizamos algumas provas. De destacar a etapa do Campeonato Nacional de Dressage do Centro, que temos vindo a organizar há uns anos, ou, para dar um exemplo recente, a Poule de Obstáculos que promovemos aqui no passado Sábado [4 de Maio], no âmbito das comemorações do nosso aniversário”, exemplifica Paulo Vicente.

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Uma escola que é também casa

As instalações equestres e a possibilidade de os alunos frequentarem a Escola em regime de internato, foram outros dos predicados destacados pelo director do curso: “Temos feito um investimento de melhoria de pisos, das instalações e até no aumento do número de boxes. Agora estamos a trabalhar para dar resposta a outra necessidade que começa a fazer-se sentir, que é a de remodelar o que foi feito há 20 anos, quando começámos, garantindo que continuamos alinhados com as exigências legais e dos tempos. Já no que diz respeito ao internato, este acaba por funcionar como factor de socialização entre os alunos, merecendo particular destaque o feminino, já que o número de alunas tem vindo a aumentar substancialmente, seguindo a tendência que se verifica nesta área.”

O internato foi também um dos factores de destaque apontados por João Quinas. Nas suas palavras, ditas já depois do almoço – também este preparado pelos alunos, mas do curso de Técnico de Restauração Cozinha/Pastelaria –, “a EPDRA soube manter-se fiel à proximidade com a comunidade, levando o projecto educativo muito mais além dos conteúdos programáticos ou das instalações que oferece”.

Como releva o director, “o internato permite receber alunos de todo o país, incluindo das ilhas, mas também de Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe”. É também desta forma que se consegue uma formação mais próxima do contexto de trabalho que os futuros profissionais vão encontrar: “Os alunos que fazem este tipo de cursos devem viver na escola ou perto dela, porque não são cursos que funcionem apenas das 9h00 às 17h00. Os animais com os quais os alunos trabalham todos os dias – incluindo ao fim-de-semana – precisam de alimentação, de ser trabalhados, cuidados, seja ao nível da gestão equina, ou da agropecuária, daí a importância de estarem na escola”.

No entanto, este regime, traz desafios acrescidos. “Além das instalações, temos, muitas vezes, de saber ser a casa destes alunos. Neste contexto, o nosso papel tem de passar por acolher, ajudar, orientar e tentar que a sua formação seja realizada com estabilidade emocional. Os pais têm de se sentir seguros por deixar ao nosso cuidado jovens, muitas vezes, com 15 anos”, concretiza. E acrescenta: “Temos conseguido estar à altura das exigências da escola de hoje, que é também a formação do cidadão, da pessoa.”

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O “engenho” de criar interesse

Antes de irmos ver o ensino na prática – no picadeiro coberto, porque as condições atmosféricas assim o exigiram – sentámo-nos na cafetaria com a co-coordenadora do curso de Técnico de Gestão Equina, Prof.ª Paula Gomes, em torno do tema “conteúdos programáticos”. Afinal, apesar de longe estarem os tempos em que os cursos profissionais eram vistos como formações dirigidas para quem não quer prosseguir os estudos, a mudança de paradigma só foi possível através do sucesso mostrado pelos alunos e do “engenho” dos professores.

“Os alunos têm no seu curso três componentes – científica, sociocultural e técnica –, sendo que procuramos que os professores possam adaptar os conteúdos aos objectivos do curso. Por exemplo, na Matemática conseguimos fazer uma articulação com a aula de Hipologia e Sanidade para a medição do perímetro do cavalo da altura ao garrote, porque depois há uma fórmula, que é uma função, que permite fazer uma estimativa do peso do cavalo. No caso da Biologia, o estudo de células faz-se a partir do esfregaço do epitélio bucal do cavalo, cuja amostra é recolhida na boxe pelos alunos”, exemplifica a co-coordenadora.

Mas para o sucesso de alunos, professores e, por consequência, da Escola, também contribui o saber adaptar o currículo aos tempos. Na EPDRA isso faz-se essencialmente de duas formas: através da escolha das disciplinas opcionais e do proporcionar de certificações adicionais. Paula Gomes concretiza: “Como o mercado está muito focado no turismo e no comportamento do cavalo, as nossas unidades opcionais estão relacionadas com essa área. Por outro lado, temos a possibilidade de os alunos realizarem dois tipos de certificações adicionais. Uma é a de guia de turismo equestre, que pode ser realizada no final do segundo ano, numa parceria com a Escola Nacional de Equitação. A outra, é o Curso de Treinador de Equitação de Grau I, numa parceria com a Federação Equestre Portuguesa. Mesmo aos alunos que já não estão na Escola é-lhes dada a possibilidade de continuarem a formação e realizarem o Curso de Treinador de Equitação de Grau II.”

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O sucesso da escola está nos resultados dos alunos

Tatiana Santos e Inês Rodrigues, ambas alunas do 3.º ano, são o exemplo do que a EPDRA e o seu corpo docente defendem. O gosto pelos cavalos acompanha-as desde que se lembram e viram na Escola uma oportunidade para transformar a paixão em profissão. Mas não se pense que os seus sonhos terminam com o certificado que estão a poucos meses de receber. “Escolhi este curso porque adoro cavalos e como não gostava muito de estudar decidi escolher um curso que me motivasse para os estudos. Já a escola foi recomendada por um amigo de Coimbra, de onde sou, e está a ser uma experiência muito interessante. Para já estou a fazer o curso de treinadora de grau I e depois talvez vá trabalhar num centro hípico, mas não queria ficar só com este curso”, conta Tatiana Santos.

Já Inês Rodrigues confessa, enquanto continua, de forma meiga, mas firme, a tentar dominar o seu irrequieto companheiro de lição, que o seu futuro passará pela academia militar. Hesitante apenas nos gestos, que teimam em não conseguir aquietar o cavalo, as palavras saem firmes de certezas: “A minha ideia é ir para a academia militar e depois das duas uma, ou vou para os cavalos ou então, como lá praticam muito os saltos e não me dou muito bem nessa área, provavelmente devo ir para Cinotecnia ou qualquer coisa relacionada com animais.”

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Entre os casos de sucesso está também o do professor. Pedro Manso, conhecido atleta de saltos, estudou na EDPRA entre 2000 e 2003 e regressou à Escola em 2006 como docente. “Quando terminei o curso fui para o mundo do trabalho, dediquei-me à componente do desporto, e como consegui colocação no Centro Hípico de Abrantes aproveitei para complementar essa actividade com a docência, o que é muito gratificante, pois cada vez temos alunos mais jovens e menos experientes e é muito bom participar na sua evolução e vê-los crescer”, sublinha.

A opinião é partilhada também por Filipe Canelas Pinto, que, enquanto docente, frisa que o maior desafio é mesmo conseguir homogeneidade de conhecimentos: “Nem todos os alunos chegam à EPDRA com os mesmos conhecimentos equestres, mas pretendemos que quando finalizarem o seu curso, todos tenham sedimentado uma base de trabalho e de conhecimentos sólida. Como professor ou treinador é gratificante acompanhar o sucesso dos alunos, condição essencial para medir o sucesso de uma escola. Por isso, o meu desejo é que os meus alunos venham a ser melhores profissionais do que eu e assim contribuírem para a melhoria da Equitação no nosso país.”

Ficam os votos do professor, o empenho dos alunos, que ainda têm pela frente o resto da tarde no picadeiro – e alguns o trabalho de maneio – e o compromisso da direcção do curso e da EPDRA em manter um projecto relevante para o país, numa escola que é casa, que tem alunos que cumprimentam, animais que vivem despreocupados e muitos frutos por colher.

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INFORMAÇÕES ADICIONAIS...

29 ANOS DE PIONEIRISMO NO ENSINO

A Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA) foi a primeira escola profissional agrícola de natureza pública a abrir portas em Portugal, em 1989, na altura com o nome de Escola Agrícola de Abrantes. O primeiro curso a ser leccionado foi o de Técnico de Produção Agrícola, no primeiro ano lectivo de funcionamento, mas rapidamente se desenharam outros cursos, debaixo do “chapéu do rural”, como foi o caso dos de Técnico de Recursos Ambientais e Florestais e Técnico de Gestão Equina, em resposta aos apelos de alunos oriundos da Lezíria e do Alto Alentejo.

O curso de Técnico de Gestão Equina teve início no ano lectivo de 1993/1994, também ele o primeiro no país, e foi implementado através de um protocolo celebrado entre a EPDRA e a Companhia das Lezírias, pelo que funcionava em Vila Franca de Xira. Mais tarde, com a aquisição pela Câmara Municipal de Abrantes da Herdade da Murteira, criaram-se as infra-estruturas necessárias, mas o protocolo com a Companhia das Lezírias manteve-se e é esta entidade que disponibiliza, por exemplo, cavalos para os alunos que deles necessitem, além de acolher formandos para estágio, não só do curso de Técnico de Gestão Equina como de Agropecuária.

Com a criação dos cursos de Educação e Formação, para dar resposta aos alunos que, tendo mais de 15 anos, ainda não tenham concluído o 9.º ano, chegaram formações como o curso de Tratador/Desbastador de Equinos, Pasteleiro/Padeiro, Operador agrícola ou Jardinagem, que na maioria dos casos acabam por conseguir motivar os alunos para a prossecução dos estudos.

A EPDRA intervém num contexto formativo local, regional, nacional e transnacional. Desde que iniciou o seu funcionamento já formou alunos de todo o território nacional, do espaço lusófono (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor) e do europeu (França, Alemanha, Itália, Finlândia, Hungria, Roménia e Bulgária). Saiba mais em www.epdra.pt.

Autor:

Vanessa Paes

vanessapaes@invesporte.pt

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