Daniel Pinto. 13 MAI 2019

EQUITAÇÃO COM MÉTODO - A DEFINIÇÃO DO PLANO DE TRABALHO

Na opinião de.... Daniel Pinto #2


Tempo de Leitura: 12 min

Daniel Pinto

No primeiro artigo abordámos a relevância do papel do coach, frisando que este deverá definir, em conjunto com o seu aluno, um plano de trabalho consistente e coerente, que permita decompor os objectivos do binómio num plano de trabalho sólido e consistente. Mas existem várias fases a cumprir, para o conseguir.

Embora cada conjunto (cavalo e cavaleiro) seja um caso particular, a estrutura do plano de trabalho pode (e deve!) ter uma base de evolução estruturada e que permita chegar aos nossos objectivos. Neste artigo vamos abordar as três etapas fundamentais que permitem a definição de um plano de trabalho.

 

ETAPA A – DIAGNÓSTICO

Na minha opinião, a primeira etapa passa pelo diagnóstico das necessidades do conjunto e definir um plano de treino diário e evolutivo que permita um progresso contínuo, até alcançar os objectivos traçados, sejam eles básicos ou de alta competição.

O diagnóstico do binómio não passa apenas por analisar os resultados que cavalo e cavaleiro apresentam fruto do seu trabalho: é fundamental analisar as aptidões e capacidades físicas, do cavaleiro e do cavalo, separadamente.

Na avaliação do cavalo, é crítico assegurar que o mesmo é saudável física e psicologicamente. Este pressuposto permite traçar um plano que assenta numa base positiva logo desde início - assim a avaliação física contínua do cavalo, irá contribuir para a evolução do mesmo, sendo de extrema importância o acompanhamento de um veterinário e a sua inclusão como elemento da equipa que faz parte do nosso plano de trabalho.

A avaliação do cavaleiro enquanto atleta não é menos importante. A sua estrutura, peso, idade e preparação física, vão impactar o plano de trabalho. Sendo o equilíbrio e a posição do cavaleiro fundamentais para a prática da equitação, é essencial que o cavaleiro esteja também numa excelente condição física, para poder encontrar-se numa zona de conforto, que lhe permita acompanhar o seu cavalo, sem o perturbar. A prática de exercício físico pelo cavaleiro é uma excelente ferramenta para inserir no nosso plano de trabalho, principalmente se quiser melhorar a postura e o conhecimento do seu próprio equilíbrio.

Uma vez detectadas as dificuldades e as capacidades do binómio, iniciamos outra fase do plano de treino, que envolve o reconhecimento da “zona de conforto”.

daniel e yoann pinto

 

ETAPA B - RECONHECER A ZONA DE CONFORTO

É universalmente aceite que nenhum binómio é igual: a zona de conforto varia de cavalo para cavalo, assim como varia a zona de conforto de cada cavaleiro. Um mesmo cavaleiro poderá até experienciar variações na sua zona de conforto ao montar cavalos distintos. O mesmo poderá acontecer com o cavalo. 

Quando alcançamos um equilíbrio na zona de conforto do binómio teremos então o ponto de partida ideal para outros níveis de exigência física e psicológica. Mas como podemos então avaliar algo tão subjectivo como a zona de conforto do cavalo? Cabe ao treinador clarificar “o que é” a zona de conforto do cavalo! Mais do que uma atitude, um ritmo, estar mais em esforço ou menos, a zona de conforto do cavalo verifica-se pela forma como o cavalo responde às ajudas do seu cavaleiro, ao seu comportamento corporal - respiração, suor, até o chicotear da rabada… e claro não menos importante, o cavaleiro tem de ter a plena consciência do nível de esforço que está a pedir ao cavalo, tendo sempre presente um elevado grau de descontracção, que lhe garanta a sua zona de conforto. É fundamental que entre o treinador e o aluno seja definida uma “linguagem comum” já que a própria expressão “conforto” está sujeita à interpretação e sensibilidade de cada um.

Não menos importante é a zona de conforto do cavaleiro. Cada cavaleiro poderá perceber de forma mais fácil e imediata se está numa zona de conforto ou não – importa sim que o treinador guie o cavaleiro para encontrar a sua zona de conforto numa posição correcta, que siga os princípios fundamentais da escala de treino e que facilite, em última instância, o desenvolvimento e progressão do seu cavalo. Muitas vezes a correcção da posição e as ajudas do cavaleiro, mesmo quando este se sente confortável, obriga-o a alterações de paradigma, que o colocam fora da sua zona de conforto.

Chegamos assim a um ponto essencial que é o de procurar a zona de conforto do conjunto, e explorar, em cada lição, a evolução da zona de conforto de ambos enquanto equipa. Seguimos então para uma fase mais avançada do plano de trabalho, que passa por aumentar os limites da zona de conforto, conquistando espaço para uma zona de esforço.

 

ETAPA C – CONQUISTA DA ZONA DE ESFORÇO

Uma das principais motivações do cavaleiro é a relação com o nosso parceiro, o cavalo: adoramos sentir as suas reacções e verifi car que há uma resposta efectiva às nossas ajudas, tornando apaixonante esta comunicação, que resulta numa linguagem ímpar entre dois seres vivos. Apesar do chamado ‘feeling’ ser tão importante, nos dias de hoje é já uma certeza que a ginástica e a escala de treino são imprescindíveis na educação de um cavalo para obtermos uma comunicação facilitada, sem nunca perdermos o foco do quanto gostamos desta arte.

É por esta razão que esta fase do nosso plano de trabalho é de extrema importância: uma vez assegurados os limites da zona de conforto, urge agora expandir os limites da zona da mesma, numa conquista de espaço à chamada zona de esforço. Para isso, é essencial aumentar os níveis de condição física do nosso atleta cavalo. 

A condição física melhorada do cavalo permite aumentar também o seu nível de confi ança e de segurança, proporcionando uma resposta melhor às ajudas do cavaleiro, e tem como consequência a conquista da zona de esforço. Nunca esquecer, no entanto, que o treino de esforço pode ser feito em zona de conforto psicológica e apenas baseado nos três andamentos num trabalho de resistência e de musculação com exercícios específi cos. São exemplos simples as transições nos três andamentos e os exercícios laterais para a flexibilidade e elasticidade. 

Visto que falamos num plano de trabalho, é importante elaborar e adaptar esse plano ao nível do cavalo e cavaleiro e ao objectivo desejado. Quando preparo um plano para um dos meus cavalos, decomponho-o sempre em intervalos com uma duração não superior a uma semana e com uma ideia estruturada do que vou fazer em cada dia - com excepção se for para uma competição. Todo o plano de trabalho deverá sempre respeitar e ter presente a escala de treino para um resultado de qualidade.

Devemos ainda ter presente e analisar continuamente o que sentimos quando montamos o nosso cavalo, pois o que está pré-determinado e planeado poderá variar em função do que sentimos, podendo ser obrigados a fazer algumas pequenas alterações ao nosso plano de trabalho diário e também ao longo da semana - nada de muito preocupante, mas bastante normal, visto que trabalhamos com seres vivos. 

Não esquecer também que o pilar estrutural do plano de trabalho semanal do nosso cavalo deve ser o objectivo de melhorar a sua condição física, pois é a melhoria da condição física e psicológica do cavalo que fará com que a zona de esforço se aproxime de uma zona de conforto.

Qualquer que seja o nível do binómio na escala de treino, o seu plano de trabalho deve sempre juntar-se a uma ideologia de protecção da integridade física do cavalo e dar espaço ao tempo para que os resultados se realizem. 

Perguntam-se como pode a competição entrar no plano de treino do vosso cavalo? Esse será o tema a abordar no próximo artigo, incluindo a competição como parte do plano de treino com vista a explorar os limites do binómio, não apenas no conforto do treino, em casa, mas quando outros factores externos tornam todo o contexto de performance mais desafiante.

Fotos: Bianca McCarty e Rita Vitorino for Lusitano World

In Revista Equitação n.º 136, Mar/Abr 2019

 

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Autor:

Daniel Pinto

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