Equitação Natural. 10 ABR 2019

SER DOMINANTE OU NÃO, EIS A QUESTÃO!

“O cavalo perde o respeito se deixares fazer isso... Não o podes deixar ganhar, se não nunca mais te vai respeitar… Tens que mostrar quem é que manda!”


Tempo de Leitura: 17 min

Quantas vezes já ouvimos comentários deste género e nos sentimos menos bem em consequência, ou por não conseguirmos chegar a esse nível de domínio perfeito ou por nos sentirmos desconfortáveis ao usar métodos demasiado violentos para o nosso gosto. Será que é realmente assim?

Nas escolas tradicionais de equitação, tanto em Portugal como no estrangeiro, o ensino baseia-se muito no controlo absoluto que o aluno tem que conseguir exercer sobre o cavalo. Seja na Dressage ou nos Saltos de Obstáculos, a submissão completa do cavalo às ajudas do cavaleiro é um dos princípios básicos do ensino dessas modalidades de equitação. Quando assistimos às aulas, ouvimos inúmeras vezes as ordens do monitor para não deixar o cavalo fazer isso ou aquilo, seja andar devagar demais, andar depressa de mais, andar numa direcção não desejada etc, etc. Normalmente, é pedido ao aluno para aumentar a intensidade das ajudas até conseguir o pretendido, por exemplo para virar, puxar a rédea com mais força ou para aumentar a velocidade, bater com o stick. Nas aulas mais avançadas e na competição, é considerado imprescindível o controlo absoluto do cavaleiro e a submissão do cavalo, até ao ponto de ser um dos critérios de avaliação nas provas. É simples deduzir que o domínio do cavaleiro sobre o cavalo é um factor chave na equitação.

Sendo esta secção da Revista dedicada à “Equitação Natural”, o leitor assumirá que vou explicar que nesta - minha - vertente da equitação, tudo é melhor… Mas não é. 

A maioria das técnicas da Equitação Natural também estão baseadas no princípio do domínio, ou melhor, da dominância, tal como ela acontece numa manada de cavalos. O “horseman” que faz o cavalo fugir dele no redondel até o animal se submeter, tal como aqueles que ensinam “jogos” com cabeção e corda no cavalo, aplicam força até conseguirem o que querem. Aliás, foi nas primeiras aulas de Equitação Natural que aprendi que nunca deveria deixar o cavalo passar à minha frente, pois ele perderia o respeito por mim. Também é da Equitação Natural que vem o conceito de que quem mexe nas pernas do outro é o chefe. Dá-se grande valor a essa figura do chefe. Supostamente, os cavalos têm uma hierarquia e se queremos estar com eles, numa mini-manada de um humano e um cavalo, temos que ser o chefe, caso contrário a única alternativa é o cavalo ser o chefe e onde é que isso ia parar? Não é boa ideia deixar um animal de 600 kg com um cérebro do tamanho de uma noz tomar as decisões, certo? Daí a conclusão de que devemos estar sempre em controlo, exercer um domínio absoluto sobre o nosso cavalo em todos os momentos em que estamos com ele. Mesmo na equitação natural.

Supostamente, as ideias de hierarquia e de dominância baseiam-se na vida natural do cavalo. Os “natural horsemen” gostam de explicar que estudaram a linguagem natural do cavalo e que perceberam os sinais de submissão e de como conseguir ser o chefe, mas de facto existem relativamente poucos estudos científicos sobre a natureza do cavalo.

ESTUDOS SOBRE CAVALOS SELVAGENS

Hoje em dia, já há poucas populações de cavalos verdadeiramente selvagens. O que existe são cavalos descendentes de cavalos domesticados a viver em liberdade, por exemplo, todas as populações de mustangs nos Estados Unidos ou os brumbies na Austrália. Depois, ainda existem populações de cavalos que vivem em liberdade, mas onde os humanos exercem algum controlo sobre a população, como eq_natural135_01por exemplo os garranos em Portugal ou os cavalos camargos em França. Na maioria desses casos, também não existe grande risco de predadores atacarem as manadas. O único equídeo ainda selvagem no mundo deve ser de facto a zebra. São poucas as populações onde os cavalos ainda vivem em condições efectivamente naturais e, por isso, nos podem mostrar o seu comportamento natural.

Os poucos estudos existentes sobre cavalos que vivem em liberdade são então uma mistura com mais ou menos influência dos humanos nessas populações, o que pode alterar o comportamento dos cavalos, tal como o facto de existirem ou não predadores que põem em causa a sua segurança. Possivelmente é por isso que os resultados dos estudos são pouco claros. Há manadas que têm um garanhão dominante, outras com uma égua dominante, outras com um casal dominante, outras com um par de garanhões dominantes, outras com nenhum animal claramente dominante... Isto para mencionar algumas conclusões dos estudos. O que os estudos de facto mostram é que há muitos estilos diferentes de liderança nas manadas estudadas. Não há simplesmente um chefe e basta. É bem mais complicado do que isso.

Quando temos os cavalos em cativeiro, vemos muitos comportamentos dominantes. Em situações de recursos limitados, por exemplo no acesso ao feno ou às manjedouras com ração, a agressividade recompensa e começam a surgir hierarquias e dominância. Na natureza, ou há pasto ou não há, mas não vale a pena competir sobre ele. O que há, está disponível para todos. No mundo selvagem, a agressão seria tempo perdido e energia mal gasta, excepto quando os garanhões lutam pelas fêmeas ou as fêmeas defendem as crias. Por isso, os cavalos selvagens não têm hierarquias dominantes. Mas mesmo que tivessem, será que aceitariam um humano como alfa? Acresce que a definição da palavra “dominante” não é perfeitamente clara nos estudos etológicos sobre cavalos. E ainda menos pode ser traduzida para o conceito normalmente aceite entre pessoas leigas, que implica autoridade sobre outros. 

Na etologia, ser dominante é apenas conseguir ganhar conflitos repetitivamente sem ter que lutar. Vale a pena repetir: sem ter que lutar. Mas quando tentamos aplicar o conceito de dominância à equitação, não será que estamos quase sempre a pedir aos nossos alunos que lutem? Puxar rédeas, bater com o stick, dar puxões com a corda certamente são formas de lutar fisicamente para conseguir controlar o cavalo. Na definição dos cientistas que estudam o comportamento natural dos animais, os etólogos, esse tipo de comportamento não é então dominante. Um cavalo dominante quer passar e os outros cavalos simplesmente abrem caminho. Uma égua dominante vai em direcção ao rio e os outros seguem, sem ela chamar, puxar ou bater. Os estudos científicos retiram assim o fundamento à nossa maneira de nos impormos aos cavalos. Deve ser por isso que, em muitos casos, temos tantas dificuldades com essa maneira de actuar, porque afinal ela não é natural, nem para nós, nem para os cavalos. Mas tem que haver algo que possamos aprender com esses estudos!

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LIÇÕES DA NATUREZA

Lucy Rees é uma etóloga inglesa que dedicou a vida ao estudo de cavalos selvagens. Desde 2008, está baseada nos montes Piornal em Espanha, onde analisa as populações selvagens dos póneis Pottoka, que vivem em liberdade e sem interferência humana em 1.200 hectares de montanha. Além das observações próprias que foi colhendo ao longo da sua vida em Espanha e na América do Sul, também tirou conclusões dos cerca de 200 estudos científicos que analisou para o seu mais recente livro “Horses in Company”.

A conclusão de Lucy Rees é que a dominância é um mito, mas que há três regras que governam o funcionamento das manadas:

1. Manter a coesão - Definição do dicionário: Qualidade de uma coisa em que todas as partes estão ligadas umas às outras. O conceito básico de qualquer animal que vive em grupo. A segurança está no facto de estar juntos. Por isso, o simples facto de passarmos tempo com o nosso cavalo é positivo. Mais positivo será se conseguirmos simplesmente estar, sem fazer, sem exigir, mas pensar noutros assuntos. 

2. Evitar a colisão - Mesmo em fuga, os cavalos não batem uns contra os outros, tal como os pássaros nos voos em bando. Quando um cavalo toca no outro, normalmente é com grande precisão e não acidentalmente. 

3. Buscar a sincronia - Fazer em simultâneo as mesmas coisas. Já observou alguma vez uma manada, mesmo de vacas ou ovelhas, se não de cavalos ou zebras? Quando uns comem, todos comem. Quando uns dormem, todos dormem. Quando um vai à água beber, vão todos. Quando um rebola, todos rebolam. Não necessariamente ao mesmo tempo, porque uns têm que ficar em pé como guarda, mas quase em simultâneo.

O conceito de sincronia é muito mais útil para a nossa vida com os cavalos do que o conceito de eq_natural135_03dominância. Podemos começar com o simples exercício de andar com as nossas pernas sincronizadas com as mãos do cavalo quando estamos a levá-lo de um sítio para outro. Parece um gesto muito pequeno, mas para o cavalo é significativo. É como abrir uma conversa. 

Para aprofundar essa conversa, podemos por exemplo aprender as técnicas do Freedom Based Training da treinadora americana Elsa Sinclair, que desenvolve tudo com base na sincronia com o cavalo, a que ela chama “flow.” As nossas ideias começam a ser as ideias do cavalo e podemos explorar o mundo juntamente. Quando montamos, a sincronia é um objectivo desejado por todos.

Idealmente nem precisamos de dar ajudas, mudamos apenas algo no nosso corpo e o cavalo sente e segue. Para funcionar, temos que primeiro estar em harmonia com os movimentos do cavalo. A famosa frase de Tom Dorrance transmite a mesma ideia: “First you go with the horse. Then the horse goes with you. Then you go together.” Primeiro temos que ganhar um assento independente, que não perturbe o cavalo nos movimentos e no bem estar dele. Quando estamos sincronizados como duas rodas dentadas, podemos influenciar os movimentos do cavalo com os movimentos do nosso corpo. Quando chegarmos a esse objectivo, as ajudas vão ser quase imperceptíveis e a felicidade será grande.

ESTILOS DE LIDERANÇA

Voltando à necessidade do domínio sobre o cavalo, quero deixar-vos algumas alternativas. Às vezes é preciso sermos dominantes, por razões de segurança ou de tempo. Afinal o cavalo vive no nosso mundo e temos responsabilidade sobre ele. Quando é preciso ficar parado, para o veterinário tratar de uma ferida ou para as pessoas à volta estarem em segurança, é mesmo preciso ficar parado e não pode
haver grandes discussões. Por isso mesmo, é necessário um cavaleiro saber ser dominante e conseguir obter a submissão do seu cavalo num momento crítico.

Mas para conseguir essa submissão no momento X, temos que ser bons líderes para o cavalo, e não sermos sempre líderes dominantes. Podemos liderar de forma passiva, tomando apenas decisões sobre o nosso corpo, que causam interesse no cavalo e lhe parecem ser boa ideia. Assim o cavalo cria o hábito de estar interessado em nós e seguir o nosso exemplo.

Também podemos pedir movimentos ao cavalo, sem ser dominantes, apenas pedindo sem exercer força. Convém apenas pedir quando achamos que vamos ter sucesso com o nosso pedido, fomentando assim a cooperação e a ideia de que nós os humanos somos capazes de fazer boas sugestões. Apenas pedimos com força quando é necessário e apenas com o grau de força absolutamente necessário. Assim somos dominantes apenas quando precisamos, mas não de forma excessiva.

SE QUISER APRENDER MAIS, VISITE:

- Lucy Rees - www.lucyrees.uk

- Elsa Sinclair - www.tamingwild.com

- Sandra Dias da Cunha - www.sundanceranchportugal.com

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Foto de topo, crédito Bruno Barata

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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