Artigos. 18 MAR 2019

A IMPORTÂNCIA DO COACH

Na opinião de.... Daniel Pinto #1


Tempo de Leitura: 12 min

É com muito prazer, sentido de responsabilidade e vontade de contribuir com a minha experiência de vida equestre, que aceitei colaborar, a convite da EQUITAÇÃO, num projecto editorial ao longo de 2019, que irá sobretudo basear-se na minha opinião e ponto de vista sobre alguns temas que considero críticos para a prática da Dressage (Ensino) em Portugal.

Entendi escrever sobre tópicos que penso serem importantes para obtermos resultados equestres e desportivos na modalidade de Dressage, pois penso que revisitar temas como a técnica de uma “espádua a dentro” ou um “piaffer”, seria repetir o que vários mestres já escreveram, e muito bem, para além de ser possível, nos dias de hoje, obtermos essa informação de forma fácil, rápida, com grande qualidade e ao mesmo tempo visível com exemplos práticos.

A Dressage, sendo uma disciplina que não depende só de nós, visto ser praticada com um parceiro – o cavalo – torna-se uma aventura cheia de altos e baixos, perguntas e respostas diárias que nos levam a crescer e desafiar-nos diariamente. Muitas vezes os nossos objectivos e prioridades crescem para além dos resultados desportivos, focando-se sim na relação de grande cumplicidade e parceria que criamos com o nosso cavalo.

Cada binómio tem objectivos específicos e dificuldades próprias, mas acredito que todos estamos unidos pela mesma paixão: o cavalo e a equitação em geral. A Dressage de competição não é um fim por si só, mas sim uma ferramenta e um método de avaliação que nos deve permitir melhorar continuamente o nosso nível equestre. 

Neste primeiro artigo, depois de reflectir sobre qual seria o melhor ponto de partida para poder ajudar todos aqueles que querem vir um dia a competir, percebi que a resposta passava por analisar o meu próprio percurso e perceber o que foi para mim importante quando comecei esta aventura há 30 anos.

Um dos marcos mais importantes e com maior impacto na minha carreira desportiva foi quando tomei consciência que a vontade de aprender e continuar a crescer superou a minha capacidade de autodidatismo e autoaprendizagem. Precisava de alguém que acompanhasse a minha evolução e que me apoiasse para crescer, definir objectivos concretos e definir a melhor estratégia para os alcançar. Todos os cavaleiros que eram os meus ídolos na altura estavam acompanhados de extraordinários treinadores, e diziam que esses ‘coach’ eram uma das razões fundamentais para o seu sucesso. Assim, neste primeiro artigo, gostaria de começar por discutir a importância de definir objectivos e da escolha de um coach! 

Escrevo para todos os cavaleiros, desde o nível amador ao profissional, para quem vai começar ou começou agora, ou pratica a modalidade faz já muitos anos. O seu nível não importa, só a vontade de aprender e de evoluir em conjunto com o seu cavalo, é que serão a chave da primeira sala de aula.

A motivação será sem dúvida um dos factores mais importantes, para seguir um trabalho longo e árduo, cheio de altos e baixos seguindo um método que nos leve aos nossos objectivos.

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DEFINIR OBJECTIVOS É O 1.º PASSO PARA OS CONSEGUIR ALCANÇAR

Definir os objectivos de treino é o primeiro passo fundamental para conseguir atingir os resultados a que se propõe. No entanto, não devemos confundir objectivos com sonhos. Para definir objectivos realistas, que nos permitam colocar em marcha um plano de treino adequado, é extremamente importante conhecermos o nível em que estamos: conheça-se melhor a si próprio, quais são os seus pontos fortes e do seu parceiro (o cavalo) e quais as áreas que ainda tem que desenvolver e melhorar como cavaleiro para ajudar o seu cavalo. Ninguém chega e vence sem se preparar, pelo que este primeiro passo será de uma importância capital para atingirmos os nossos objectivos.


O PAPEL DO COACH

Este processo de autoconhecimento não é fácil de percorrer. Surge aqui a importância reconhecida do apoio de um coach. O coach ideal, para mim, é alguém a quem se reconhece valor e mérito próprio pela sua experiência e resultados adquiridos. Alguém por quem se tenha admiração e em quem se acredite incondicionalmente, para nutrir uma relação que só pode ser de proximidade e confiança.

Poderá parecer que o coach irá desempenhar várias funções: desde treinador, amigo, motivador, conselheiro, técnico, psicólogo, até de pai ou mãe... Mas no fim terá de ter a função essencial de saber ser capaz de criar um grande cavaleiro e um exemplar atleta com fairplay.

Neste percurso de crescimento poderá sentir-se perdido, sem resposta imediata para as suas perguntas. Mas um bom coach sabe que o desenvolvimento do aluno não passa por “lhe dar o peixe, mas sim ensiná-lo a pescar”. Um bom coach é aquele que procura que o aluno se torne capaz de ser competente e eficaz na sua ausência. A relação de coaching não é, nunca, uma relação de dependência.

O coach tem que procurar analisar as características e comportamentos específicos de cada aluno, bem como compreender qual o tipo de interacção que ele desenvolve com o seu parceiro, o cavalo. A análise detalhada dos dois elementos do binómio – física e psicológica – é fundamental para o sucesso desta relação e alcance dos objectivos definidos. Assim, o coach terá a tarefa de incluir regras e objectivos à dimensão de cada caso criando uma dinâmica que optimize o desempenho de cada aluno, e de cada cavalo, até os levar à competição. Mas esta relação não se esgota no facto do coach conhecer bem e orientar na perfeição o seu aluno. Recordo que a relação de coaching não deve ser nunca uma relação de dependência! O coach tem que ser, no meu ponto de vista, um elemento facilitador do processo de descoberta de conhecimento do próprio cavaleiro, tentando não ceder gratuitamente as respostas aos problemas que os cavalos possam apresentar. Ao preparar o seu aluno para ser autónomo, o coach prepara o próprio aluno para a tomada de decisão individual e melhora a sua capacidade de análise e resolução de problemas. 

Ao tomar as suas próprias decisões, o aluno está a crescer e a aumentar o seu nível de responsabilidade, promovendo a curva de aprendizagem, com responsabilidade e na ausência do coach, seja no treino em casa ou na própria competição.

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O COACHING NÃO É UNIDIRECCIONAL

Gostaria de concluir esta reflexão sobre a importância e o papel do coach reforçando a noção de que o processo de coaching não é unidireccional. O próprio aluno é responsável pela avaliação do trabalho que está a desenvolver em conjunto com o seu coach, bem como de analisar a curva de crescimento e evolução que está a experienciar. O seu feedback ao coach é fundamental para que ambos evoluam em conjunto. Da mesma forma, o coach tem obrigação de evoluir, reflectir sobre o caso de cada aluno, bem como procurar evoluir o seu nível de conhecimento através do trabalho realizado com os próprios alunos. Ele próprio deve documentar-se e procurar apoio junto do seu coach para poder continuar a evoluir e assim fazer evoluir os seus alunos.

É desta relação de interacção contínua entre o coach e o aluno que é definido um plano de trabalho consistente e coerente, que permite decompor os objectivos a que se propuseram alcançar em conjunto num plano de trabalho. Será este o tema que me comprometo a abordar já na próxima edição, procurando partilhar a minha experiência como coach e também dar alguns exemplos de como organizar um plano de trabalho para cada aluno. Até lá fica o desafio de debater este artigo com o seu coach ou, caso ainda não tenha um, dar o primeiro passo em contactá-lo.

Fotos: Rita Fernandes for Lusitano World

In Revista Equitação n.º 135, Jan/Fev 2019

 

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Autor:

Daniel Pinto

equitacao@invesporte.pt

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