Artigos. 06 MAR 2019

"A Endurance está a atravessar um momento complicadíssimo"

Mónica Mira é presença assídua nos principais eventos de Endurance, um pouco por todo o mundo e a EQUITAÇÃO esteve à conversa com ela.


Tempo de Leitura: 17 min

Médica veterinária, cavaleira, organizadora de eventos, gestora da empresa Al Equine, estudante... É difícil descrever em poucas palavras o que faz esta portuguesa, que vive entre aeroportos, numa vida dedicada à disciplina de Resistência Equestre.

Actualmente a residir em Évora, foi em Lisboa, nas instalações da Sociedade Hípica Portuguesa que deu os primeiros passos a cavalo, juntamente com o irmão Nuno. Desde esses tempos, em que ainda estudava na Escola Alemã, muito mudou e hoje é chamada para estar presente em Raides em todo o globo. Foi entre viagens, que conversámos com esta médica veterinária, que em breve passará a integrar o painel de colaboradores da Revista Equitação.

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EQUITAÇÃO - Para quem não está tão familiarizado com a disciplina de Resistência Equestre, descreva-nos um pouco as suas funções durante uma prova.

MÓNICA MIRA - Depende da função que exerço. Tenho o privilégio de "rodar" pelas várias funções e, assim, ganhar perspectiva de cada uma delas, o que é muito importante. Cada função implica diferentes competências.

Durante uma prova de Resistência Equestre ou Endurance, os veterinários podem ter vários papéis. Como elementos oficiais da FEI ou FEP os veterinários podem desempenhar duas funções, a de veterinário oficial de endurance (na gíria veterinário de linha) ou a de veterinário oficial de tratamento de endurance.

Na primeira função os veterinários são responsáveis pelas inspecções veterinárias, as quais decorrem numa área designada por grelha veterinária. Para além do controlo da identificação, assim como dos estados sanitário e vacinal, procedimento transversal a todas as modalidades equestres, os veterinários oficiais asseguram que os cavalos estão aptos do ponto de vista fisiológico e locomotor, não apenas para iniciar a prova, mas também para continuar a competir após cada fase do percurso. Este controlo também implica uma inspecção veterinária final, imediatamente após a prova, que vai assegurar que aquele conjunto está apto para receber a classificação, ou seja, que terminaram a prova com o cavalo em bom estado de saúde. A Endurance é a única disciplina que obriga à presença de uma equipa veterinária de pelos menos três elementos, que se designa por Comissão Veterinária (CV). Esta tem, obrigatoriamente, um presidente e, nas provas internacionais, um delegado veterinário estrangeiro. Este dois supervisionam e apoiam o trabalho dos membros da CV. O último, como elemento mais independente, por ser estrangeiro, faz um relatório à FEI sobre a prova.

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Já os veterinários de tratamento recebem os cavalos que são eliminados ao longo da prova e decidem se estes necessitam de alguma intervenção terapêutica ou não. Aqui é a competência clínica que conta e se se for o presidente da equipa a liderança e a capacidade organizativa.

Os veterinários oficiais sejam de linha ou de tratamento precisam de estar credenciados junto da FEI ou FEP. Se forem internacionais são classificados num sistema de estrelas, nível mínimo 2* e máximo 4*, de acordo com a sua experiência. A Endurance é a única disciplina que obriga a uma credenciação específica para poder ser-se veterinário de tratamento.

Depois há ainda os veterinários de equipa nacional e os veterinários privados, que se ocupam e acompanham os cavalos e as suas equipas durante a prova. Estes embora estejam que estar registados junto da FEI como PTV (Permitted Treament Veterinary), não carecem do credenciamento como veterinários oficiais.

 

Recorda-se da primeira prova em que esteve a trabalho?

Perfeitamente. Foi no meu estágio curricular que fiz com o Dr. José Prazeres. Fui acompanhá-lo a um raide na Barroca. Nem sequer sabia que existiam raides! Foi um choque porque estava habituada ao Jockey. Os cavalos pareciam-me todos pequenos, magros e feios no geral, muito pouco próximos da ideia que tinha de um cavalo árabe. Os cavaleiros mal-vestidos. Ainda por cima houve uma altercação entre um cavaleiro e um veterinário, com palavras feias. Confesso que fiquei mesmo mal impressionada. É preciso ver que estávamos em 1997 e que era há pouco tempo que os veterinários tinham a autoridade de eliminar cavalos. Houve uma evolução enorme de mentalidades e no desporto desde então.

 

Desde esse dia, muito mudou na sua vida. No passado ano, por exemplo, esteve em competições nos cinco continentes...

Sem querer fui-me embrenhado cada vez mais no desporto, primeiro pela mão do Dr. José Prazeres, mas depois, porque a minha área de actuação clínica era o Alentejo, a região dos raidistas. É uma modalidade apaixonante para os veterinários do ponto de vista da fisiologia do desporto, uma vez que os cavalos são levados ao extremo das suas capacidades fisiológicas.

E, sim, é verdade, cinco continentes!! As presenças não se deveram todas a competições, mas também a apresentações sobre Endurance em congressos e à organização da segunda edição do International Veterinary Endurance Conference (IVEC).

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Acaba de chegar do Bahrain. Em que países já esteve este ano?

Este ano... Deixe-me pensar... Emirados Árabes Unidos (EAU), Suécia e Bélgica. Mas foi o ano passado, em que a Endurance mais me fez viajar.

Estive nos EAU, três vezes pelos menos, na África do Sul, na Austrália, duas vezes, uma como veterinária de prova e outra para apresentar uma comunicação livre no âmbito do meu doutoramento, Brasil e EUA para apresentações sobre Endurance. E depois voltei aos EUA por causa do IVEC, que teve lugar antes do Campeonato do Mundo em Tryon. Bom, e França várias vezes. Falo fluentemente francês o que ajuda e gosto e respeito muito o trabalho dos franceses. São a referência da Endurance na Europa em todos os aspectos, da criação de cavalos ao desenvolvimento do desporto, ao trabalho das selecções nacionais.

 

Sente falta de trabalhar em concursos em Portugal? Gostava de ser chamada mais vezes?

Sim e não. Já há muito tempo que não trabalhava como veterinária de linha, porque havia sempre conflitos de interesse com clientes , e por isso  decidi refugiar-me nos tratamentos. É um trabalho mais duro fisicamente, mas psicologicamente muito mais recompensador que a linha. Prefiro fazer linha no estrangeiro, onde não tenho conflitos de interesses com os cavaleiros. Por essa razão em Portugal, nos últimos anos trabalhei sobretudo como veterinária de tratamento. Em 2017 fui nomeada presidente da equipa de tratamentos no Campeonato da Europa.

Cai no ridículo em Portugal não trabalhar nas provas de Endurance desde 2015, quando as solicitações pelo mundo fora continuam…

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Tem tido contacto com diversas realidades, ao nível de cavalos e cavaleiros. Sabendo que este é um tema que dava "pano para mangas" em virtude dos acontecimentos menos felizes nos últimos anos (mortes de cavalos, Mundial cancelado, etc.), mas, em traços gerais, como avalia o actual momento da Endurance?

A Endurance está a atravessar um momento complicadíssimo, muito delicado, e não sei se não perdeu já o comboio. A disciplina teve uma evolução brutal nos últimos 15 anos. Profissionalizou-se e deixou de ser um deporto amador, onde se levavam os cavalos das lebres em Portugal. Isso já não existe. Agora há centros de treino e cavaleiros a viver exclusivamente da Endurance, mesmo em Portugal. A geração de um mercado de cavalos para raides, antes inexistente, pelos países do Golfo desde os meados dos anos 90, veio mudar para sempre a face da disciplina. Isto inclui desde a selecção e criação de cavalos como as técnicas de treino, alimentação, acompanhamento veterinário, gestão das provas.

Os cavalos de Endurance passaram a valer dinheiro. A actividade dos profissionais depende largamente desse mercado e em parte no treino de cavalos para países do Golfo no resto do mundo. Só que esse mercado assenta em 90% no Dubai, o que gera muita instabilidade e uma dependência brutal. Para além do mais, é o Dubai e sua empresa que gere tudo o que tem a ver com cavalos, incluindo corridas de apostas, que sponsorizam muitas das maiores provas na Europa e em geral tanto os Campeonatos do Mundo, como os Regionais.

 

Quando está em Portugal, no que consiste o seu trabalho?

Doutoramento e gestão da minha empresa, que é a Al Equine. A venda da quota da empresa que criei e onde exercia a minha actividade clínica, a Equimuralha, deu-me uma enorme flexibilidade para conciliar o trabalho em provas internacionalmente com estas duas actividades.

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Como já referiu, em 2018, esteve associada à organização da 2ª edição da International Veterinary Endurance Conference (IVEC). Fale-nos um pouco desta iniciativa, que decorre a cada dois anos (por altura do Campeonato do Mundo de Raides).

Em 2016 estive um período de tempo a trabalhar em Samorin na Eslováquia para uma clínica alemã, que me contratou essencialmente pela minha vertente de Endurance para tratar dos cavalos do proprietário desse complexo equestre. Nesse ano o Campeonato do Mundo, após o seu cancelamento no Dubai, mudou-se inesperadamente para Samorin, que tem umas infra-estruturas fenomenais. Como estava no centro da acção e pela minha experiência anterior a organizar as Jornadas da Equimuralha, que durante três anos incluíram colóquios de Resistência Equestres, desafiei a organização a incluir uma conferência sobre a disciplina uns dias antes da competição. E assim nasceu o primeiro IVEC. Foi um sucesso e então pensei que poderia ser uma boa ideia rotinar esta conferência antes de qualquer campeonato do Mundo.

O IVEC II nasceu de muita teimosia, persistência e coragem, talvez loucura para não interromper a rotina da conferência a cada dois anos. Devo-o à minha mini-equipa de três pessoas, o meu colega catalão Albert Solè que está na Austrália e à cavaleira Shanti Roos que vive no Reino Unido. Conheci ambos durante o IVEC I. Podemos dizer que o IVEC II foi “Made in Evora”, com uma gestão deveras complicada com os fusos horários entre a Austrália, os EUA e a Europa!

Foi um pesadelo com a organização de Tryon que ora nos dizia que podíamos organizar no sítio do Jogos Mundiais Equestres, ora nos dizia que não. Tivemos que encontrar um hotel que alojasse a conferência. Nem tenho noção das horas que perdi no Google Maps e na internet, nas chamadas para hotéis. Já conhecia a região de Tryon como a palma das minhas mãos. Foi um milagre, um arregaçar de mangas, em que me valeu a rede de contactos internacional que tenho para angariar patrocínios para a conferência, que se fez sem prejuízo e algum lucro. Mas, na verdade, a primeira golfada de oxigénio para a organização veio de Portugal, a partir do cavaleiro Pedro Godinho que treina cavalos de Endurance para o Brasil. O Pedro pôs-me em contacto com o Carlos Paes do Amaral, conhecido carinhosamente por “Carlito”, que sem grandes perguntas nos deu o patrocínio máximo como mecenato em prol da disciplina.

O IVEC III já está encaminhado. A organização do próximo Campeonato do Mundo é em Pisa, Itália, e apoia o IVEC III dentro da estrutura. Vai ser uma edição especial porque o IVEC III se vai juntar ao prestigiado ICEEP (International Conference for Equine Exercicise Physiology) num desafio pela Universdidade de Pisa.

Está ainda a fazer um Doutoramento, também na área dos raides. Pode-se dizer que "respira" endurance 24h por dia?monica mira 03

Parece que sim. Praticamente tudo o que faço está relacionado de uma forma ou outra com a Endurance. E a rede de contactos para além de enorme, é como um dominó, fazendo surgir desafios e oportunidades todos os dias.

 

Apesar de uma agenda preenchida, encontra tempo para causas sociais e está a promover uma campanha de crowdfunding, para ajudar os atletas de Paradressage nacionais...

Sim! Li a notícia da Maria de Lurdes Cardiga e fiquei a pensar como poderia ajudar. Como qualquer pessoa fiquei chocada com a situação. A inclusão e valorização de atletas com deficiência é absolutamente primordial numa sociedade desenvolvida.

Não estava particularmente envolvida com a Paradressage, mas estou num pequeno grupo internacional de discussão de Paraendurance, desde que uma equipa do Brasil esteve em Portugal. A equitação terapêutica está no Brasil muitíssimo à frente de todos os outros países e creio que seja o único país a ter desenvolvido um regulamento próprio de Paraendurance. Também fruto dessa presença brasileira do Paraná em Portugal se juntou um conjunto de pessoas que acabaram por formar uma associação, a Associação Nacional para a Equitação Terapêutica (ANET), da qual sou membro. O meu papel dentro desta associação, tem em vista, mais tarde, desenvolver a Paraendurance em Portugal. Para já, espero conseguir associar no IVEC III, em 2020, meio dia dedicado ao desenvolvimento da Paraendurance e daqui nascer um regulamento definitivo que permitisse associar essa disciplina à FEI.

 

Este ano, abraça mais um desafio, com a colaboração com a Revista Equitação. Sente que faz falta falar-se mais de resistência equestre nosso país?

Faz muita falta porque continua a haver um certo preconceito contra a Endurance pelas outras modalidades equestres. A disciplina evoluiu muito. Tem um controlo veterinário muito rigoroso, muito mais rigoroso que noutras disciplinas. Ao alto nível é uma modalidade muito exigente para os cavalos e é preciso gerir muitíssimo bem os treinos sem lesionar os cavalos e as próprias provas. Já não é qualquer um que chega à alta competição. Conseguir treinar um cavalo do ponto de vista cardiovascular para ser rápido resistente, mas sem se lesionar, requer um conhecimento aprofundado da fisiologia equina e uma constante monitorização. Hoje em dia os cavaleiros profissionais têm muitíssima atenção à alimentação, à ferração, ao mínimo sinal de claudicação. Os cavaleiros são muito cuidadosos.

É uma modalidade lindíssima que junta cavalos e natureza  e que tem rendido muitos cavaleiros de outras disciplinas. É também uma explosão de cores pelo material em biothane típico da modalidade, os uniformes das equipas, o equipamento desportivo dos cavaleiros, os baldes, a água... A dinâmica da chegada à grelha veterinária e a recuperação dos cavalos é um verdadeiro espectáculo para quem assiste, é um verdadeiro pit stop comparável à Fórmula, nas equipas profissionais!

É também preciso trazer a Endurance ao público mais leigo. O “boom” das corridas e das maratonas com enorme adesão em todo o mundo pode-se estender à Resistência Equestre. Esta é uma disciplina muito mais acessível do que as outras em termos de técnica e mesmo em termos financeiros. E tem sido esse o sucesso das corridas. Ou seja, os Raides têm tudo para beber deste "boom" mundial em termos de desporto dos 8 aos 88. Precisamos de mais praticantes de mais regiões do país, precisamos de lhes levar a Resistência Equestre, uma vez que toda ela se concentra no Alto Alentejo e Montijo com muito pequenas excepções.

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Autor:

Ana Filipe

anafilipe@invesporte.pt

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