Equitação Natural. 11 JAN 2019

Alternativas entre a Boxe e o Pasto

Em Portugal vemos predominantemente duas formas de acomodar cavalos: ou são para montar e por isso vivem em boxes ou são para criação e por isso vivem em pastagens extensivas. Mas hoje em dia já existem muitas soluções intermédias entre um extremo e o outro.


Tempo de Leitura: 15 min

A vida numa boxe tem grandes desvantagens para o cavalo, porque satisfaz pouco as suas necessidades básicas de espaço, movimento e contactos sociais, mas tem a imensa vantagem para os humanos de ocupar uma área reduzida. Uma boxe normal tem menos de 10m2. no outro extremo temos a vida do cavalo em pasto, onde tem liberdade, amigos e forragem contínua 24 sobre 24 horas. Mas uma pastagem normal tem um hectare para cada cavalo, ou seja 10.000m2, isto é, mil vezes mais do que a vida em boxe. Entre um extremo e outro, existem muitas soluções alternativas.


BOXE COM PADDOCK

A maioria dos centros hípicos consegue organizar algum espaço para a construção de paddocks, que os cavalos podem usar de forma rotativa, individualmente ou em pequenos grupos. Para a ida ao paddock não ser uma fonte de stress, devemos tomar em conta as amizades entre cavalos e não juntar cavalos incompatíveis ou mudar constantemente os grupos. Outra desvantagem é ser necessário dispor de pessoal para movimentar os cavalos, contudo as vantagens para os cavalos são relevantes: mais espaço, mais ar livre, mais contactos sociais.

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Outra hipótese é a construção de um paddock privativo junto a cada boxe. Com poucos metros quadrados adicionais e alguma construção de vedações, os cavalos passam a dispor da opção constante de poder estar ao ar livre e interagir com os vizinhos. Desde que exista espaço, é uma solução económica que não implica grandes alterações na gestão do estábulo, mas já oferece grandes vantagens para os cavalos. em termos de área necessária, um espaço de 20 ou 30m2 por cavalo é uma melhoria significativa em comparação com as boxes tradicionais.

 

VIDA EM GRUPO: ESTÁBULOS ABERTOS

Uma das melhores formas em termos da relação entre o custo e o benefício para o cavalo é o estábulo aberto, onde um grupo de cavalos vive em conjunto e tem acesso livre tanto ao estábulo como ao paddock. Mais espaço e mais contactos sociais permitem uma vida aproximada às Necessidades naturais do cavalo, mas também temos que ter em consideração as desvantagens: além do valor do investimento e da forma muito diferente de gestão, também há o perigo de criar stress adicional para os cavalos. Se a constituição do grupo mudar muito, ou se houver um número excessivo de cavalos para o espaço disponível, esse conceito pode causar mais stress do que vantagens. da constatação dessas desvantagens nasceram alguns conceitos que se baseiam no estábulo aberto mas aperfeiçoaram o conceito.

 

ESTÁBULOS DE MOVIMENTO

Os cavalos não dispõem apenas de uma área de descanso e de uma área de paddock, mas têm ainda corredores que incentivam mais movimento. Por exemplo, encontram vários postos de feno espalhados pelo areal, a água numa ponta extrema do terreno e a área de descanso na outra ponta. Uma vertente específi ca do estábulo de movimento é o estábulo activo, que adiciona um sistema complexo de alimentação automática ao estábulo de movimento.

A mais conhecida marca de sistemas de estábulos activos é a HIT-Aktivstall®, desenvolvida no ano 2000. A empresa ajuda no planeamento e desenho baseado no espaço e nas infra-estruturas existentes. Um dos primeiros princípios é uma área grande de paddock, que os cavalos podem usar dia e noite. Para que os cavalos se movimentem muito, são distinguidas várias áreas diferentes: 

 zona de descanso
 Redes ou manjedouras de feno
 Máquinas de alimentação com ração
 Bebedores
 Trilhos com chão variado
 Área de rebolar 

Nos estábulos concebidos pela empresa HIT-Aktivstall®, os cavalos podem comer pequenas doses de ração e feno ao longo do dia todo, graças a máquinas automáticas de alimentação. Um software especificamente desenhado controla as quantidades e alturas das refeições para cada cavalo individual. É vantajoso para o cavalo comer muitas doses pequenas ao longo do dia por causa do seu aparelho digestivo, mas também fomenta o movimento dos cavalos dentro do areal. Para o gestor do estábulo, reduz a necessidade de pessoal.

A variedade das soluções é muito grande, podendo ser adaptado a grupos muito diversos de menor ou maior dimensão.

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Para estabilizar o chão existem soluções adaptadas de tapetes ou de grades em conjugação com um fundamento sólido, que permitem que os cavalos usem o paddock e os corredores durante todo o ano. o desenho criativo dos corredores também tem uma elevada importância. Por exemplo, podem-se instalar escadas, passagens por charcos de água, labirintos de pedras, etc. esses elementos aumentam a riqueza ambiental e tornam os cavalos mais atentos. A escolha correcta dos materiais para o chão é importante para o trabalho que o gestor terá com a remoção das fezes. Por exemplo, o chão à volta das manjedouras de feno deve permitir uma remoção das fezes com máquinas pesadas.

Para os cavalos poderem descansar bem, devem dispor de uma área coberta com chão mais mole, como por exemplo tapetes de borracha para os cavalos se deitarem à vontade. Por cima desse tapete pode haver uma pequena quantidade de aparas ou palha, que absorve a urina. Essa técnica fornece uma cama mole mas com menos poluição do que uma cama alta de palhas ou aparas, com os conhecidos danos na respiração do cavalo.

Além dessas áreas principais (alimentação, bebedouro, paddock e descanso) ainda existem outras áreas secundárias que podem ser importantes. Paddocks pequenos para a integração de novos membros no grupo, boxes para animais doentes, passagens de uma zona para outra, vedações sólidas e pastagens também devem fazer parte de um bom estábulo activo.

Com uma área de 50 a 100m2 por cavalo, é possível garantir uma vida muito aproximada às condições naturais ideais do cavalo. Assim, numa área equivalente à de um campo de futebol, podem viver cem cavalos em condições óptimas. 

Mais importante do que as instalações são os conhecimentos do gestor do estábulo. Essa pessoa deve ter conhecimentos e capacidades em todas as áreas da gestão equina. Na prática, vai ter que tomar decisões frequentes sobre a integração de novos cavalos, estruturação de grupos, alimentação e saúde dos cavalos. Por isso, a empresa HIT-Aktivstall® também investe na formação dos gestores dos estábulos, em seminários e também com estágios em estábulos HIT já existentes.

Para mais informações sobre o HIT-Aktivstall® visite https://aktivstall.de/en/ ou, em Portugal, a Agrovete em https://www.agrovete.pt .

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PADDOCK PARADISE

Um sistema equivalente, mas baseado em espaços mais amplos e de menor investimento em infra-estruturas, é o Paddock Paradise, oriundo dos EUA e desenvolvido por Jaime Jackson, um ferrador que publicou um livro sobre o sistema em 2007. O conceito baseia-se na vida dos mustangs, cavalos selvagens que vivem em liberdade e foi criado para aproximar o ambiente dos cavalos domésticos ao habitat natural dos seus parentes bravos. Por um lado permite liberdade e espaço mas não tem os inconvenientes que podem resultar do pasto desmedido, com os problemas associados à ingestão excessiva de azevém, tais como aguamento, cólicas, etc. os cavalos mantêm-se em movimentação constante e vão comendo ao longo do dia e em andamento.

De acordo com o inventor do sistema, Jaime Jackson, os cavalos movimentam-se ao longo de trilhos habituais, viajando por grandes distâncias pelos seus territórios. Sendo animais vulneráveis a ataques de predadores, andam em fila indiana, à procura de alimento e de água, de bons sítios para se
rebolarem ou de outros grupos de cavalos com quem socializar.

O sistema Paddock Paradise imita esses trilhos naturais, criando um trilho infi nito, que os cavalos podem percorrer ao longo do dia. Os corredores do sistema costumam ter uma largura de 3 a 5m mas, mesmo assim, os cavalos acabam por usar trilhos mais estreitos dentro desses corredores, aproximando-se às condições naturais.

Para criar um Paddock Paradise, é necessário começar com um terreno aberto. Imagine um terreno com o espaço de um campo de futebol. Primeiro, criamos um corredor à volta do espaço, que permite ao cavalo caminhar continuamente. depois, criamos algumas zonas de alimentação, normalmente feno em redes ou manjedouras. Ao longo do corredor variamos os tipos de superfície para estimular o crescimento natural do casco e finalmente criamos alguns obstáculos ou zonas diferentes para tornar a vida dos cavalos mais interessante.

Não há limite à criatividade e imaginação na criação desses espaço. Mais informações sobre o sistema Paddock Paradise em http://paddockparadise.net

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CRÍTICAS AOS CONCEITOS APRESENTADOS

Há, contudo, preconceitos e críticas contra os sistemas acima apresentados.

- Um aumento de agressividade dos animais, dada a limitação de recursos: normalmente esse problema surge quando o número de cavalos é excessivo em relação ao espaço disponível e/ou porque não existem lugares sufi cientes para a alimentação com feno. 

- Excesso de lama e fezes: se há muitos cavalos no mesmo espaço, vai ser sempre necessário estabilizar o chão, idealmente com tapetes ou grades de plástico robustos. Também será necessária a remoção regular das fezes ou por máquinas ou manualmente.

- Doenças e feridas causadas pela vida em grupo e em campo aberto: realmente há uma maior probabilidade de pequenas feridas causa das pelo comportamento social ou pelo facto de os cavalos se poderem mexer mais. Por outro lado, a experiência demonstra que há menos incidência de doenças crónicas ou agudas como cólicas, aguamento, doenças respiratórias ou do aparelho de movimento.

- Cavalos demasiado gordos ou magros: de facto é mais difícil gerir a alimentação específica, excepto se investirmos num sistema HIT-Aktivstall®, mas por outro lado, a alimentação de forma mais natural, com muito feno e com movimentação constante, normalmente cria condições favoráveis para a manutenção do peso ideal.

É pois necessário ter alguns cuidados para os cavalos viverem bem nesses sistemas. Para ter um grupo harmonioso e deixar mesmo os cavalos menos dominantes ter calma para comer e estar, é preciso ter uma área ampla, mas também lugares sufi cientes para comer e divisórias de espaço, tal como troncos,
muros de pedra, ilhas de vegetação.

A riqueza do ambiente, o ar fresco e a vida em grupo faz com que os cavalos consigam viver em maior paz, simultaneamente estimulando a sua disponibilidade para trabalhar.

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Grupos em que se misturam cavalos de várias idades são vantajosos porque ajudam os animais mais novos a aprender as regras do contacto social e porque permitem manter os animais mais velhos activos e saudáveis. 

As únicas desvantagens reais dos sistemas apresentados são económicas e de conforto humano. Perto das cidades, onde vive a maioria das pessoas que deseja montar cavalos, os terrenos são normalmente caros. É mais económico construir apenas um conjunto de boxes num terreno pequeno do que investir num terreno amplo para instalar um Paddock Paradise ou em infra-estruturas caras para um estábulo de movimentação activa. 

Mas também é verdade que ninguém gosta muito de mudar e, para adoptar um sistema destes, não só os gestores dos centros hípicos como também os proprietários dos cavalos teriam que enfrentar mudanças. Mas é assim a vida. Queremos uma vida cada vez melhor para os nossos companheiros equinos e nesse sentido, cada passo pequeno que damos na direcção certa, é uma vitória.

Autor:

Sandra Dias da Cunha

info@sundanceranchportugal.com

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